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Artigos: HOMILIA: EM NOSSA LIMITAÇÃO, CARREGAMOS O INFINITO  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/8/11
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EM NOSSA LIMITAÇÃO, CARREGAMOS O INFINITO

Homilia de JB Libanio

Paróquia N. Sra de Lourdes - Vespasiano MG

(1Rs 19, 4-8/Jo 6, 41-51)

 

Eles começaram a criticar Jesus porque ele tinha dito: "Eu sou o pão que desceu do céu." E diziam:
- Este não é Jesus, filho de José? Por acaso nós não conhecemos o pai e a mãe dele? Como é que agora ele diz que desceu do céu?
Jesus respondeu:
- Parem de resmungar contra mim. Só poderão vir a mim aqueles que forem trazidos pelo Pai, que me enviou, e eu os ressuscitarei no último dia. Nos Profetas está escrito: "Todos serão ensinados por Deus." E todos os que ouvem o Pai e aprendem com ele vêm a mim. Isso não quer dizer que alguém já tenha visto o Pai, a não ser aquele que vem de Deus; ele já viu o Pai.
- Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os antepassados de vocês comeram o maná no deserto, mas morreram. Aqui está o pão que desce do céu; e quem comer desse pão nunca morrerá. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer desse pão, viverá para sempre. E o pão que eu darei para que o mundo tenha vida é a minha carne" (Jo 6, 41-51)

        

De tanto ouvirem as leituras e aguçarem a inteligência, vocês já estão percebendo que a liturgia escolhe os textos, principalmente da primeira leitura e do evangelho, procurando traçar uma aproximação, uma analogia. Hoje, é a palavra pão que faz o elo, tanto no caso de Elias quanto no sermão de Jesus.

         A cena de Elias é de uma beleza única e vem muito a calhar com a festa dos pais. Ele entrara em uma terrível depressão, como diria um psicólogo moderno. Mas como naquela época não existia psiquiatra nem psicanalista, o pobre Elias, sem saber o que fazer, como qualquer ser humano já cansado de viver, foi dormir. No seu sono, um anjo lhe aparece, dizendo que se levantasse e buscasse o alimento que o faria vencer a prostração e o desânimo. Como nós, Elias não conseguiria sair sozinho daquele túnel escuro. Fico imaginando qual essa seria a atitude do pai diante do filho abatido. Certamente, insistitia para que se levantasse, mas esse levantar-se não se restringe ao ato físico, mas é interior. Pode ser dito para qualquer um que esteja até bem acordado. É função do pai acordar nos seus filhos energias profundas, acordando-os para a vida, para o outro. O anjo vai mais além e insiste para que Elias coma, como tantas vezes nossas mães fazem conosco. Comer também não é apenas ingerir alimentos, mas tomar posse, assimilar uma idéia, da mesma forma que dizemos que devoramos um bom livro. Assim o pai passa a seu filho toda uma tradição, sabedoria, experiência, vivência, que o levará a buscar o pão. Mas, se o filho recair novamente, cumpre ao pai, continuamente, acordá-lo, mas levando-o a caminhar pelas próprias pernas. Ele não poderá permanecer preso à gravata do pai ou à saia da mãe. A Bíblia usa uma palavra bonita ao dizer que Elias deverá caminhar por quarenta dias, o que, na linguagem bíblica tem um simbolismo belíssimo. O carinho e o cuidado do pai têm uma força tão grande, que é capaz de impulsionar o filho a caminhar pela vida toda. Elias caminha em direção ao monte Horeb, que é o mesmo monte Sinai, onde Moisés ficou face a face com Javé, recebendo dele a Torá, a grande lei para o povo judeu. Portanto, para o povo judeu, o monte Sinai tem um significado enorme, pois foi lá que a vontade de Deus se manifestou, e é para lá que Elias caminha depois de comer o pão.

         Todo pai deseja que seu filho caminhe em direção à vida. Mas que futuro, que sonhos, que desejos, que projetos, que utopias poderá lhe apresentar? Será a simples banalidade do cotidiano, apenas um trabalho como meio de ganhar a vida ou ele terá alguma coisa mais dentro de si que o faça descortinar um horizonte mais amplo e mais bonito? Martin Luther King (*) dizia aos seus filhos que trazia consigo o sonho de ver as crianças negras da Geórgia brincando com os coleguinhas brancos, sem racismo, sem dominação, sem opressão. Ele foi um pai que descortinou para toda uma geração um sonho mais amplo. É para isso que vocês são pais! Jesus usa a metáfora do pão, mas nós devemos alimentar os nossos irmãos que se acham desanimados, através do pão da palavra, do olhar, da acolhida.

         Jesus hoje faz uma brincadeira ao dizer aos judeus que era Ele o pão dos céus. Eles o olhavam com suas carinhas pequeninas, sem conseguir entender como aquele jovem que vivia no meio deles, morava numa casinha pobre, podia ser o pão do céu. Jesus olha para eles e vê que não entendiam nada, viam tudo pela metade. Assim também somos nós. Se pensarmos que somos da Terra, entendemos apenas a metade, da mesma forma que, se dissermos que somos do céu, diremos apenas a metade. Cada um de nós é do céu e também da Terra. Somos da Terra, porque nascemos, caminhamos até aqui, cumprimentamo-nos, trabalhamos, conversamos, temos os pés bem plantados no chão. Mas também somos do céu, porque não cabemos aqui na Terra, no nosso pequeno cotidiano, neste corpo limitado que trazemos, neste horizonte fechadinho que nos limita. Não cabemos em nós mesmos, porque trazemos o infinito em nós. Somos desejo, queremos o eterno! Os enamorados dizem que se amam para sempre, eternamente, porque não suportam que sejam só da Terra. A inquietude é nossa marca, e nunca seremos totalmente felizes aqui na Terra. Sempre estaremos ansiosos, buscando outras aspirações, atormentados por pequenas angústias que sejam. Tudo de material que temos nunca nos fará plenamente felizes, porque sonhamos com o eterno.

         Jesus continua dizendo uma coisa que parece contraditória neste momento. Depois de dizer que ninguém irá ao Pai se Ele não conduzir, agora Ele diz que é o Pai que deverá nos atrair. São duas afirmativas contrárias e, por isso, precisamos pensar. No princípio de tudo está o Pai, a fonte última, o mistério maior. Ele é espírito, e nós somos sentidos. Ele é presença, enquanto nós somos pequenos, apesar de aspirarmos ao infinito. Resolve, então, mandar alguém aqui na Terra encarnando tudo aquilo que era Ele e, dessa forma, nos atrair. Jesus é esse pão! No momento em que o encontrarmos, seremos capazes de entender que o Pai nos atrai, nos chama, através de seu filho Jesus. E como Ele ficaria muito pouco tempo entre nós, o Pai resolve nos mandar um presente ainda maior, que é o Espírito Santo, do qual nenhum de nós consegue escapar. O Espírito nos fala de Jesus, e Jesus nos conduz ao Pai.

É bom que os pais ensinem a seus filhos a olharem o azul infinito do céu, para que eles se acostumem a pensar que é lá a nossa pátria definitiva, e lá está o Pai Eterno. As crianças precisam ver o infinito para saberem que, na pequenez do seu corpo, ela traz o infinito de Deus. Amém. (09.08.09/19º domingo comum)

 

         (*) líder norte-americano, assassinado em 1968, em decorrência de sua luta com a segregação racial.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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