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Artigos: HOMILIA: DO POUCO DEUS FAZ O MUITO  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/7/30
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DO POUCO DEUS FAZ O MUITO (Jo 6, 1-15)

 

Homilia de JB Libanio

Paróquia N. Sra de Lourdes – Vespasiano MG (26.07.97/17o. domingo comum)

 

 

Depois disso, Jesus atravessou o lago da Galiléia, que também é chamado de Tiberíades. Uma grande multidão o seguia porque eles tinham visto os milagres que Jesus tinha feito, curando os doentes. Ele subiu um monte e sentou-se ali com os seus discípulos. A Páscoa, a festa principal dos judeus, estava perto. Jesus olhou em volta de si e viu que uma grande multidão estava chegando perto dele. Então disse a Filipe:
- Onde vamos comprar comida para toda esta gente?
Ele sabia muito bem o que ia fazer, mas disse isso para ver qual seria a resposta de Filipe.
Filipe respondeu assim:
- Para cada pessoa poder receber um pouco de pão, nós precisaríamos gastar mais de duzentas moedas de prata.
Então um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse:
- Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos. Mas o que é isso para tanta gente?
Jesus disse:
- Digam a todos que se sentem no chão.
Então todos se sentaram. (Havia muita grama naquele lugar.) Estavam ali quase cinco mil homens. Em seguida Jesus pegou os pães, deu graças a Deus e os repartiu com todos; e fez o mesmo com os peixes. E todos comeram à vontade. Quando já estavam satisfeitos, ele disse aos discípulos:
- Recolham os pedaços que sobraram a fim de que não se perca nada. Eles ajuntaram os pedaços e encheram doze cestos com o que sobrou dos cinco pães. Os que viram esse milagre de Jesus disseram:
- De fato, este é o Profeta que devia vir ao mundo!
Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.

 

 

Não sei se vocês repararam que nesse ano, lemos o evangelho de São Marcos, mas hoje a liturgia fez uma pequena brechazinha. Interrompeu o evangelho de Marcos, que também fala da multiplicação dos pães, e coloca o evangelho de João, para depois retomar o de Marcos.  Por que esse encaixe? Porque João faz uma reflexão muito bonita e muito profunda sobre esse fato da multiplicação dos pães. Seria pena se perdêssemos essa descrição muito mais simbólica do que a narração mais direta de Marcos e dos outros evangelistas. Essa é a razão de tomarmos esse evangelho.

         João é o evangelista que escreve os fatos, não a partir do que estava acontecendo naquele momento, mas a partir da sua visão de Deus, de Jesus como Filho de Deus, como o Verbo Eterno. Por isso, começa assim o Evangelho: “No princípio, estava o Verbo...” Ele olha tudo de cima. Vocês terão percebido um pormenorzinho discreto que ele colocou: quando Jesus perguntou a Felipe, João acrescenta que Ele pergunta só para pô-lo à prova, porque já sabia tudo o que iria fazer. Quem é esse Ele? É o Verbo Eterno de que fala o evangelho. João quer arrancar-nos um pouco aqui da terra, para projetar Jesus para o que Ele é em sua última realidade: o Filho Eterno de Deus. Os outros evangelistas falam muito mais do Jesus da Terra, do Jesus Homem, do Jesus que está conosco. Quando João descreve o Jesus Homem está com a ótica do Verbo Eterno. Por isso, o seu evangelho é muito mais profundo, muito mais bonito, muito mais simbólico.

         Ele escolhe os números, escolhe o tempo, que não é necessariamente o número ou o tempo da época. Ele coloca esse milagre na Páscoa, na primavera. Tudo isso tem sentido. Quantos cestos sobraram? Doze. Quantos são os apóstolos? Quantas são as tribos de Israel? Doze, que é quatro vezes três. Tudo isso ele vai jogando. Quando coloca doze cestos significa toda a Igreja. Os doze apóstolos simbolizam todos nós. Quem é que recolhe, recebe, esse pão de vida? São os doze cestos – nós que estamos aqui. E a abundância do pão? João sempre exagera muito e de propósito. Para se ter uma idéia: no milagre de Caná (*), Jesus transforma seiscentos litros de água em vinho, para uma familiazinha de uns poucos convivas. Imaginem se todos bebessem todo o vinho! Não teriam conseguido sair da casa. Seiscentos litros é vinho demais, mas é simbólico. É claro que não beberam seiscentos litros de vinho. É simplesmente para dizer da abundância. Vinho e pão simbolizam vida. São os dois alimentos fundamentais para o judeu. O pão é o cotidiano, o vinho é a festa. A nossa vida é cotidiano e festa!

         Hoje João nos traz para o cotidiano e diz o que é este cotidiano: é Cristo que nos dá a vida, que nos alimenta. É o Pão da vida, aquele que reúne todo o mundo, que do pouquinho faz muito. O pouquinho é cada um de nós. A nossa pequenez, o nosso trabalhinho, as nossas coisinhas de nada, o trabalho na família, na nossa casa. Nós somos esses três pãezinhos e quatro peixinhos. Quando somos tocados pelos dedos de Jesus acontece a abundância. De três faz-se milhares. Portanto, não se trata de um milagre material. João vai muito mais longe. Ele quer nos passar que cada um de nós pode trazer o seu peixezinho, o seu pouquinho de pão. Mas se esse pouquinho de pão e esses pedacinhos de peixes forem tocados pela presença de Cristo, poderá alimentar nossa cidade inteirinha.

         Que bom seria se acreditássemos nisso, se acreditássemos que cada um de nós, tocado por Cristo, pode tocar e alimentar toda uma cidade. Se ficarmos fechadinhos em nós mesmos, continuaremos peixinhos, pedacinhos de pão, e nada mais. Quando entramos – como diz João – na dinâmica, no processo de ser Igreja, a nossa força cresce. Não cresce por nós, mas pela oração, pelo gesto de Jesus. Por isso, Ele pega o pão, o peixe, abençoa e diz: “Podem sentar-se!” Havia relva, isto é, havia verde, havia esperança, havia primavera. Não é no inverno, não é no frio. É na primavera da sua graça, da sua beleza, do seu dom, que tudo fica verde. Muitas vezes olhamos para a nossa sociedade, e ela parece tão árida, tão seca, com tantos desempregados, famintos, tristes, desesperados, suicidas e, de repente, faz-se primavera. Faz-se primavera porque existe esse pouquinho de peixe, esse pouquinho de pão. Se não houver um pouquinho, também não haverá multiplicação. Ele não cria, multiplica. Ele não substitui a nenhum de nós, potencializa. Se aqueles meninos não tivessem trazido o pão e o peixe, não haveria multiplicação. Se nos omitirmos, não trouxermos os peixes, Vespasiano morrerá de fome. Se não trouxermos os pães do nosso trabalho, do nosso esforço, da nossa evangelização, Vespasiano morrerá de fome. Mas se trouxermos o pouquinho que somos, Vespasiano será uma grande festa. Depende de nós trazermos um pouco. Ele fará o muito. Mas, sem o nosso pouco, nunca haverá muito. Amém. (26.07.97/17o. domingo comum)

 

         (*) Jo 2, 1-12

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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