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Artigos: HOMILIA: SOMOS INFINITOS PARA O BEM E PARA O MAL  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/4
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SOMOS INFINITOS PARA O BEM E PARA O MAL

HOMILIA DE J.B. LIBANIO – 03.02.2013

PARÓQUIA N.S. DE LOURDES – VESPASIANO (MG)

Jr 1, 4-5.17-19/1Cor 12, 31-13,13/Lc 4, 21-30

 

Então, começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir". Todos testemunhavam a favor dele, maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam de sua boca. E perguntavam: "Não é este o filho de José?" Ele, porém, dizia: "Sem dúvida, me citareis o provérbio: 'Médico, cura-te a ti mesmo'. Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze também aqui, na tua terra!" E acrescentou: "Em verdade, vos digo que nenhum profeta é aceito na sua própria terra. Ora, a verdade é esta que vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e uma grande fome atingiu toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado o profeta Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel, mas nenhum deles foi curado, senão Naamã, o sírio". Ao ouvirem estas palavras, na sinagoga, todos ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no para o alto do morro sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de empurrá-lo para o precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

                Como sempre, as leituras são muito bonitas, a começar do profeta Jeremias, que me leva a dizer que cada um de vocês é um pouquinho como ele, que, quando se percebeu profeta, reconheceu que Deus o escolhera quando ainda estava no seio de sua mãe e já era muito amado por Ele. Penso que cada um de nós pode afirmar que, antes que víssemos a luz do mundo, Deus já o havia contemplado. O seu olhar é como um raio X que invade o nosso interior. Saber que somos amados desde sempre deve ser a nossa maior consolação. É isso que hoje nos fala Jeremias, um profeta sério, que sofreu muito, foi jogado no fundo de um poço, perseguido e exilado, mas, apesar de tudo isso, reconheceu-se amado desde sempre. Seria muito bom se pudéssemos nos transportar lá para Santa Maria (*) e dizer para aqueles pais que viram seus filhos saírem felizes para uma noite de diversão e voltarem mortos num caixão, que cada um deles eram infinitamente amado por Deus e confiamos que Ele os tenha acolhido neste amor infinito.

Antes de entrarmos na leitura de Paulo, precisamos considerar que ele era um homem meio pesado, bravo, até mesmo violento. Quando assassinaram Estevão, ele assistiu a tudo, sem esboçar nenhum gesto de defesa; perseguiu cruelmente os cristãos, até sentir o céu se abrir e, entre as nuvens, ouvir uma voz que o chamava. Depois de convertido, continuou severo, ativo, sem nenhum sinal de delicadeza, até morrer decapitado em Roma. É esse homem que hoje nos deixa esse grande elogio ao amor. A leitura usa a palavra caridade que, pode nos deixar um pouco perdidos, mas esse texto é um grande teste para sabermos se amamos ou não, pois em nossa cultura, amor é uma palavra tão falada, tão gasta, usada para realidades muito distantes do amor. Paulo, olhando para a fervorosa comunidade de Corinto, resolveu nos deixar algumas características do verdadeiro amor: que perdoa, não se vinga, não é soberbo, não guarda rancor, não tem ciúmes nem inveja, que está dentro de nós e é o início do grande amor que viveremos na eternidade. O papa, quando eu o conheci, ainda um jovem e avançadinho teólogo, lá em Roma, escreveu um livro muito bonito “Introdução ao Cristianismo”, isso por volta de 1967, e nele dizia três frases muito marcantes: “O amor quer eternidade, o amor faz eternidade, o amor é eternidade”. No fundo, o que todos nós queremos é que o nosso amor não se acabe, por isso, muitas vezes dizemos que amaremos alguém eternamente, para significar que o amor é uma realidade que atravessa toda a nossa existência. Todos nós queremos isso, mas, por nós mesmos, não somos capazes de ter esse amor. Os amores humanos são trincados, quebrados, porque nós mesmos somos divididos, compostos de sentidos e sentido – um simples S que muda tudo. Temos cinco sentidos visíveis, e o que escapa deles é como se desaparecesse e, muitas vezes, confundimos o amor dos cinco sentidos com o amor do grande sentido, que pode estar longe e nem precisa ser visto, falado ou tocado. Infelizmente, não conseguimos perceber isso e, quando acaba o amor dos cinco sentidos também acaba o grande amor. Ele ainda vai mais longe para dizer que a fé e a esperança, que tanto prezamos, são virtudes muito inferiores ao amor, que é o sentimento que atravessa tempo e espaço e mergulha na eternidade. O amor nos lança no próprio seio de Deus.

Paulo hoje insiste que toca a nós, cristãos, cultivarmos esse amor maior e cabe-nos perguntar qual a última raiz desse amor. O segredo está na resposta a essa pergunta: é preciso que queiramos que o outro nunca deixe de ser ele mesmo, na sua bondade, na sua beleza, na sua verdade e no seu bem. Infelizmente, os amores humanos quase sempre querem reter a pessoa só para si, por isso, sempre queremos abraçar, agarrar, enquanto o gesto bonito é o de abrir os braços e indicar o caminho para que o outro cresça e se abra para o mundo. Como é bonito quando os pais, já com filhos grandes, possibilitam a esses alçar vôos para buscarem o seu próprio crescimento. Despedem dos filhos com os corações apertados, mas acreditando que naquele gesto o filho encontrará sua felicidade. Quando querem reter o filho consigo demonstram o puro amor dos cinco sentidos, que é frágil, passageiro e egoísta. Deixo ainda uma última palavra para aqueles pais que lançaram um último olhar para os seus filhos mortos naquela tragédia no sul. Que eles saibam que o amor que tiveram por aqueles filhos, assim como o amor que deles receberam, está hoje ressuscitado no seio de Deus.

No evangelho, Lucas joga com uma tensão entre estrangeiro e conterrâneo. O estrangeiro nos ameaça e nos amedronta. Por isso, quando os profetas fazem milagres para os estrangeiros, o povo se revolta. Mas quando Jesus, que era de casa, chega, eles não o aceitam. Todos pensavam que o conheciam, pois Ele vivera entre eles, mas ali estava um mistério muito maior, a grande aliança entre o céu e a Terra. A partir daí, Lucas quer nos dizer que Deus é, ao mesmo tempo, estrangeiro e próximo, ao mesmo tempo em que está distante de nós, também está no mais íntimo de cada um de nós. E se Deus é assim, assim também são as pessoas. Nós trazemos dentro de nós um mistério infinito, que nos faz maiores do que somos. É isso que precisamos buscar naqueles que estão ao nosso lado, seja entre os esposos, amigos, filhos. Cabe nos perguntar se somos capazes de ver a beleza das pessoas que estão ao nosso lado. Muitas vezes só conseguimos ver defeitos, erros, falhas, ao invés do que todos têm de bonito, de criativo, de tudo aquilo que pode me ajudar a crescer. O evangelho de hoje nos mostra este jogo: Jesus era próximo, da mesma cidade, e não o aceitaram, não souberam reconhecer nele o mistério transcendente do Pai, ao mesmo tempo em que reprovam o profeta que se preocupou em ajudar os estrangeiros. Precisamos compreender que ambos – próximos e distantes – nos falam da presença infinita de Deus na nossa vida.

Mas há um detalhe trágico sobre o qual preciso alertá-los: o mistério que trazemos conosco pode ser um bem, mas também pode ser um mal. Em meio a tantas qualidades que nos constitui, às vezes pode brotar uma maldade muito difícil de entender e que nos leva a pensar num desvio patológico de personalidade. Relembro aquele crime terrível acontecido em 1997 em Brasília, quando alguns adolescentes de boas famílias resolveram queimar um índio que dormia ao relento. Naquela ocasião, um grande psicanalista concluiu que eles eram normais. Aí está o grande mistério: somos infinitos para o amor, mas também infinitos para o mal. Amém. (4º. Domingo Comum)

                (*) referência ao incêndio ocorrido na cidade de Santa Maria (RS) no último dia

                 26.01/2013.

 

 

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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