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Artigos: HOMILIA: O MEIO É O CAMINHO DA LIBERDADE  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/2
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O MEIO É O CAMINHO DA LIBERDADE

1Cor 12, 31-13,13/Lc 4, 21-30

 

            A leitura da carta de Paulo é considerada uma das páginas mais belas da literatura religiosa universal.  Platão escreveu um famoso diálogo sobre o amor de Fedon, em que fala em um banquete, mas não chegou à altura de Paulo. Apesar de toda a filosofia, de toda a sua inteligência gigantesca, Platão chegou apenas até o amor filia e não foi mais longe. Não chegou a compreender o amor agape. É diferente de ágape, que significa refeição, em português. Agape é o amor mais alto, mais elevado, e somente Paulo conseguiu chegar lá, naturalmente inspirado na prática de Jesus. E a grande característica desse amor, que Platão não conheceu, é a capacidade de perdoar, de acolher o inimigo, de conter todos esses adjetivos que acabamos de ouvir. Vale a pena, um dia, com calma, abrirem essa página, lerem, sublinhar, conferir os adjetivos com os substantivos da vida de cada um de vocês. Pela gramática, vocês devem saber que o que dá consistência e substância é o substantivo, isto é, está segurando a realidade, que tem muitas cores, muitos matizes e, por isso, precisa dos adjetivos para estar ao lado. Os adjetivos são importantes, porque nos indicam para onde devemos caminhar, pois de nada adianta caminhar se não soubermos para onde estamos indo. E essa carta é toda ela feita de adjetivos, partindo de um único substantivo, que é a caridade, o amor. Cabe-nos avaliar se esses adjetivos se compatibilizam com os nossos amores, sejam entre namorados, esposos, pais e filhos, amigos, e até mesmo em relação às pessoas que são desafetas a nós.

            O evangelho de hoje supõe o conhecimento da leitura do último domingo, quando Jesus entrara na sinagoga de Nazaré, provocando nos presentes um grande choque, pois a criança, o adolescente que crescera junto com eles naquela cidade, havia saído para outros lugares – para grande escândalo de todos eles – onde realizara maravilhas. De repente, Ele reaparece e provoca um frêmito um frison. Ele termina de ler o texto de Isaías e afirma que aquela profecia se realizava naquele menininho que crescera entre eles. Ele não era um jovem qualquer, mas viera para realizar o projeto de Deus, que é modificar o mundo, transformar a realidade, criar uma sociedade de justiça e fraternidade. Seus milagres eram simples sinais de tudo o que a humanidade poderia fazer. Ao afirmar isso, muda todo o ânimo daquela comunidade. Vai do espanto e da admiração para a fúria. A verdade é que Nazaré pretendia possuí-lo, ser a sua única dona, e Jesus não aceitou isso. A grande lição para todos nós é que ninguém é dono de ninguém a não ser Deus. Na sociedade humana, durante milênios, nós tivemos senhores e servos, senhores e escravos, donos e possuídos. Há um fato simples na história do Rio de Janeiro, quando um belo jovem negro chega na casa de uma senhora trazendo um presente de uma certa dama da sociedade e terminando por dizer que também ele fazia parte do presente, como se fosse uma coisa que pudesse ser disposta de uma pessoa para outra. Já dois mil anos antes, Jesus não aceitou que Nazaré dispusesse de sua vida e de sua pessoa, dominando-o. Quando seus conterrâneos quiseram expulsá-lo, empurrando-o pelo monte abaixo, Ele abre caminho pelo meio e segue seu próprio caminho, sem que ninguém o tocasse. Não foi pelo lado, porque trombaria nas pessoas, fosse pela esquerda ou direita. Ele escolheu o meio para dizer de sua liberdade, sua independência, sua clareza. Nós vivemos num país em que a liberdade é muito menor do que imaginamos. Se parássemos um instante sequer para pensar quantos mecanismos nos conduzem a cada dia, às compras, aos modismos... Frei Betto me contava que há pouco tempo, um desses galãs de novela se machucara acidentalmente, provocando um pequeno ferimento pouco abaixo de seu pescoço, obrigando-o a usar a camisa abotoada para escondê-lo. Poucos dias depois, todos os jovens usavam a mesma camisa abotoada até o último botão, apenas para imitar o galã da vez. A ignorância palmar leva a esses absurdos. Assim, são esses ridículos que nos comandam, nos fazendo querer, desejar, pois não somos livres. Até mesmo os Estados Unidos, que se dizem a terra da liberdade, talvez seja o país de menos liberdade, altamente condicionado pelos sites, pelas propagandas, pela indústria farmacêutica. O escritor gaúcho, Luís Fernando Veríssimo, filho do clássico Érico Veríssimo, escreveu uma crônica muito simpática, dizendo que se fôssemos seguir esses conselhos que rodam por aí, o dia dele precisaria ter mais de quarenta horas para dar conta de todos os preceitos que a mídia determina que é preciso fazer. Nós vivemos como manequins teleguiados, e Jesus hoje nos dá esta fantástica aula de liberdade: atravessou a multidão pelo meio e seguiu o seu próprio caminho. Amém. (31.01.2010/4º.domingo comum)

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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