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Artigos: Ética: entre a tradição e a atualização  
Autor: HELENA
Publicado em:: 2013/2/1
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Entre a tradição e a atualização

J. B. Libanio

O Tempo – 27 de janeiro de 2008

                   Sem tradição não existe ética. Não iniciamos hoje a caminhada da humanidade, nem descobrimos cada vez de novo as Américas. O ser humano recebe dos maiores as experiências vividas, algumas  bem sucedidas, outras fracassadas. E assim nesse peregrinar entre o êxito e as falhas do passado constrói presente menos adverso.

                   Uma das etimologias de ética, com a letra etha do grego, reflete bem a estabilidadae. Ethos com etha significa morada, toca, casa. Quando os humanos não tinham casa e circulavam nômades, padeceram muito até que milhares de anos atrás se sedentarizaram e não quiseram peregrinar. Quem se sente bem em contínua mudança de casa? Certamente não o mineiro. E se hoje ainda alguns clãs ou grupos humanos se vêem obrigados a emigrar, atribui-se antes à desumanidade da sociedade do que aos desejos das pessoas.

                   Se assim acontece com as mudanças físicas, mais ainda com as simbólicas. Resistimos a refazer continuamente a morada dos valores, dos comportamentos, das regras de conduta. A ética possui dinâmica tradicional. E tradição não tem nenhuma conotação negativa na etimologia nem na semântica. Tradição simplesmente exprime o fato de trans+dare – de dar para frente – ou de trans+mittere – de enviar para frente. Se transmitimos, se passamos para a geração seguinte, a valência positiva ou negativa depende do objeto da tradição. A ética, por colocar-se sob o signo do bem, pensa tradicionar, com perdão do neologismo, o que a cultura, a humanidade acumulou de bom e digno de ser vivido pelos pósteros.

                   A tradição se aproxima de outro conceito: a rememoração. não se acentua o fato de passar de geração para geração, mas como esta acolhe o transmitido. Nas pegadas de Hegel, H. Vaz explica que a rememoração retranscreve de maneira sempre renovada em forma conceitual, segundo as condições intelectuais de determinado momento histórico, de seus problemas e desafios, a experiência e o saber dos séculos depositados nessa tradição de pensamento. E a ética o faz em relação aos valores normativos do agir humano, reescrevendo-os para cada tempo e geografia.

                   O ato de transmitir encerra, necessariamente, algum tipo de atualização, mesmo que pense estar a repetir literalmente o passado. A codificação dos costumes e valores em leis e instituições permite maior estabilidade e fácil transmissão. Depende menos de determinadas pessoas. A memória flui espontaneamente pela via das estruturas.

                   A sociologia do conhecimento despertou-nos para a relação mútua entre a transmissão institucional e a interiorização pessoal. Estamos permanentemente a internalizar o que nos circunda. Assim a ética, configurada nos recursos visíveis e externos da sociedade e cultura, introjeta-se-nos. E nos comportamentos a exteriorizamos de modo que ela se firma ainda mais.

                   Que passa entre o momento da interiorização e exteriorização? Mera reprodução? Ou uma atualização e interpretação?  Certamente ambas, mas não em igualdade medida em qualquer tempo, cultura, geografia, etnia, religião.

                   A segunda metade de século XX vivenciou, no meio das grandes massas, duplo momento de transmissão ética. Uma predominantemente rotineira e outra submetida aos sobressaltos das inovações. Tal fato merece reflexão mais detalhada. Fica, porém, a certeza de que os dois extremos falseiam a verdade da experiência humana. Nunca somos pura repetição. Por mais adormecidos que estejamos, não somos animais domesticados. Possuímos a faísca criativa e inovadora do espírito. E por mais geniais e inventivos, nunca criamos tudo do nada, porque não somos Deus. Entre o animal e Deus estamos nós: seres animais criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26).

 



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