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Artigos: No reino da pura transmissão  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/1
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 No reino da pura transmissão

J. B. Libanio

O Tempo – 03 de fevereiro de 2008

                   Ética exige a dupla dimensão de transmissão e atualização. Nem tanta transmissão que nada se atualize e assim paire fora da realidade, nem tanta atualização que se perca a riqueza da tradição. O processo de refundição contínua da ética acontece no interior das pessoas. Todos recebemos tradições. Ninguém nasce fora dela. Começamos pela língua. A criancinha aprende no meio em que vive a tradição lingüística de maneira bastante fiel. Mas lentamente no processo de assimilação insere modificações e assim as línguas se transformam ao longo da história. Quem hoje, entre nós, fala no estilo de Camões? Quem hoje retém a mesma pronúncia de outrora?

                   Semelhantemente acontece com a ética. Ela vem sendo assimilada por cada nova geração. Introjeta o que recebe e exprime de maneira original o recebido com as inovações próprias de seu momento e experiências. O problema situa-se precisamente na brecha entre a entrada e a saída da ética no interior das pessoas. Certamente antes da modernidade, pela força cultural das tradições familiares e religiosas vigentes com certa rigidez, o espaço interpretativo e atualizador estreitara-se a ponto de quase pensar em puro mimetismo geracional.

                   E por quê? A matriz da natureza regia a orquestra da cultura. Os filhos se adentravam no plantio ou no cuidado do gado por meio dos pais que lhes passavam as simples técnicas praticamente sem inovações. Algo espontâneo e direto.

                   De maneira semelhante o mundo simbólico dos costumes, valores, comportamentos religiosos e éticos deslizavam rotineiramente para dentro do espírito das pessoas sem precisar de sofrer alguma transformação. Escritor da Antigüidade cristã, S. Vicente Lérins (séc. V), resumira bem a fidelidade à verdade católica com a seguinte fórmula: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus - aquilo que se ensina sempre, em todas as partes e por todos. Tal axioma valia para toda tradição cultural da época e, portanto, para a transmissão da ética. Quadro claro do momento que apertara ao extremo a margem de interpretação e atualização. E tal situação atravessou a Idade Média até esbarrar com a explosão da modernidade.

                   acontece diferentemente. O procedimento de redução interpretativa é abalado nesse momento de crise e de profundas transformações. Então se abrem duas possibilidades de comportamento. Ou se embarca na tarefa difícil, dolorosa e arriscada da interpretação, ou se opõe a ela.

                   Diante da entrada da modernidade, muitos setores, ainda marcados pela cultura rural, reagiram negativamente. não fluía espontaneamente a transmissão. Que fazer? Substituir o processo espontâneo, imediato, direto de transmissão, posto em crise pela modernidade, pela imposição, coerção, doutrinação massiva? Então as pessoas não interpretam por falta de oxigênio da modernidade, mas por lhos retirarem a força e asfixiadas são obrigadas a incorporar a ética tradicional.

                   Neste ponto, a tradição católica permaneceu muito mais imutada e fixista que a dos protestantes reformadores. Estes assumiram, até certo ponto, o processo de interpretação dos comportamentos religiosos e éticos para dentro do novo mundo que surgia com a queda de Constantinopla, com as grandes descobertas, com a revolução astronômica de Kepler, Copérnico e Galieu, com as novas ciências newtonianas, com os surtos da subjetividade cartesiana, com  a explosão democrática da Revolução francesa, enfim com uma modernidade que explodia por todas as partes.

                   Assim dentro de uma cultura que não prezava a pura transmissão, mantivemos a ética coercitivamente presa a ela. E vieram os choques e as crises, cujos efeitos até hoje sentimos. E assim a pura tradição, a doutrinação e a ética imposta de fora tornaram-se impérvias. Cabe-nos abrir novos caminhos.               

 

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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