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Artigos: Ética e felicidade  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/1
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Ética e felicidade

J. B. Libanio

O Tempo – 17 de fevereiro de 2008

 

                   Poucas verdades gozam de tamanho consenso como o desejo universal de felicidade. Santo Agostinho escreveu pequena jóia sobre a Vida Feliz em forma de diálogo. Ele apenas tinha feito a afirmação central de que “queremos ser felizes, e logo todos consentiram a uma voz”, escreve. Pascal ousou ir  mais longe. “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar”, que eles o fazem para escapar da infelicidade, aproximando-se assim de certa esperança de felicidade.

                   O filósofo espanhol J. Sadaba identifica com a moral a idéia de queque ser feliz, embora não esteja dito como. “Vive feliz! é o único imperativo categórico".

                   Que tem a ética que dizer sobre tal realidade humana? Quanto ao desejo universal de felicidade nada existe que contraria a razão humana, antes, pelo contrário, lhe responde a busca fundamental. O eudemonismo, que literalmente significa o bom espírito, pode ser traduzido como felicidade, constitui, sem dúvida, princípio ético de vida.

                        Se há unanimidade quanto ao desejo humano de felicidade, esta não permanece respeito ao como consegui-la, como vivê-la, como realmente ser feliz. E nesse momento surgem dúvidas, confusões, propostas muito diferentes. Vale aqui a frase irônica de Santo Agostinho sobre o tempo: “se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, não sei”. Assim se multiplica ao infinito o receituário para a felicidade, porque, no fundo, todos julgam saber que é felicidade, mas desconhecem os passos seguros para tal meta.

                   O caminho da ética no campo da felicidade passa pela concepção de ser humano. Parte-se daí. O divisor de águas separa duas vertentes fundamentais. O ser humano se reduz, em última análise, a um ser biológico, sensitivo ou ele possui uma dimensão espiritual transcendente. No primeiro caso, aposenta-se a ética, porque os sentidos têm regras definidas e fixadas pelos instintos da natureza e não necessitam de ulterior reflexão. Os sentidos do ser humano existem para o prazer imediato, como nos animais.

                   Aperfeiçoam-se, mas não transcendem. Por isso, a ética hedonista ou epicurista na acepção estrita do termo se define por uma moderação que permita os sentidos usufruírem o máximo de tempo do prazer. Pois ele se destrói pelo excesso. Voltar-se-iam contra si mesmos. O que o animal em geral não o faz, porque os instintos cumprem função de freio, o ser humano pode fazê-lo com o uso da inteligência, intensificando os prazeres sensitivos inclusive mesmo até a morte. Alguém comentava ironicamente a vida de um playboy famoso: entrega-se tanto ao vício quanto não lhe estrague a saúde, e não poupa tanto a saúde quanto não goze do vício. Equilíbrio entre vício e saúde.

                    A antropologia espiritualista, que afirma do ser humano dimensão transcendente, não aceita a ética hedonista, sensualista. Advoga outra via para a felicidade. Essa se pauta pelo bem, pela verdade, pela estética. O enfoque modifica-se. A pergunta básica: qual é o bem, a verdade, a beleza que realiza o ser humano? Buscá-las e vivê-las responde ao profundo de sua natureza e, portanto, condiz com o projeto ético básico.

                   Santo Tomás, na esteira da filosofia grega e no interior da tradição cristã, aponta a Verdade suprema e o Bem último como fontes de felicidade e como critério de ética. As duas se encontram. Fica-nos ainda a tarefa de discernir nas pequenas realidades da vida quais encarnam algo desta Verdade e deste Bem para conduzir-nos pela via reta da felicidade. E a sabedoria dos filósofos e dos maiores tem muito a dizer-nos. encontramos fonte fecunda de conhecimento e experiência.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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