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Artigos: Fontes da ética  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/1
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Fontes da ética

J. B. Libanio

O Tempo – 02 de março de 2008

                   A última fonte da ética é a Transcendência na imanência. Existe no ser humano uma presença maior que o remete para fora si. A linguagem religiosa chama-a de Mistério, a teologia prefere o nome de Deus, a razão contenta-se em nomeá-la de Transcendência. Experimentamo-la na dupla valência de algo ou alguém de que não dispomos totalmente. Escapa-nos do domínio absoluto. No entanto, ela se faz percebida por nós e em nós. Tal realidade subtrai-se a uma determinada e única linguagem. Recebe inúmeras verbalizações, tematizações, traduções em palavras, gestos, ritos, normas.

                   A partir de tal jogo íntimo e profundo, as pessoas e as culturas criam códigos, linhas do bem a fazer e do mal a evitar. Nesse sentido, a ética se constrói pelos seres humanos à base de convenções daquilo que eles percebem como regras para o agir humano. E ao longo da história, surgiram inúmeras éticas que traduziam experiências culturais do momento. Se elas se mantiveram até hoje em alguns dos seus preceitos, significa que conseguiram expressar, de maneira cabal, a transcendência referencial em experiências concretas e históricas. O  transcendente delas permanece válido. Cabe repetir o dito de Karl Barth, o maior teólogo protestante do século passado: “O que outrora foi sério, ainda hoje o é”. Há um outrora ético que permanece sempre ético. Porque nele se realizou com transparência a presença da Transcendência na história imanente, concreta.

                   Em todas as formulações éticas da história, que receberam nomes como epicurista, céptica, nominalista, empirista, positivista, neopositivista, existencialista, marxista, cristã e tantos outros, o estudioso crítico descobre valores que até hoje permanecem. Elas traduzem algo da presença transcendente, válida para sempre, nos limites  do tempo, da cultura, da geografia, da ideologia. Perceber e interpretar tal dialética para o momento atual nos traz enorme enriquecimento. Mais uma vez vale o dito de Cícero de que “a história é mestra da vida”.

                   Visto sob outro ângulo, a fonte da ética esbarra com a dialética natureza e cultura. O naturalista pensa ler na natureza em sua totalidade e, de modo especial, no ser humano a ética a seguir. Assim julgaram os estóicos de ontem e pontificam os de hoje. A natureza na sua sacralidade universal dita as regras do agir humano. Existe algo de verdade nessa constatação. Os antigos denunciavam os “pecados contra a natureza”. E a moral católica, mesmo até hoje, deve muito a essa ética naturalista. Haja vista a questão do uso dos meios anticoncepcionais.

                   No pólo oposto, a ética nasce e se nutre exclusivamente da história. Passa com a rapidez do fluir do tempo. Sofre o movimento de revezamento dos estafetas que vão passando a bandeira da ética de mão em mão com a diferença do jogo de mudar cada vez o bastão. A história levada ao extremo destrói a estabilidade da natureza. E, sem dúvida, uma das razões da gigantesca crise ecológica vem de tal concepção dominadora do ser humano sobre a natureza a partir dos eventos, progressos e inventos históricos e tecnológicos.

                   Mais uma vez, o convite volta-se para a síntese de ambas as tendências. Guardar da natureza a sabedoria de muitas de suas leis. Ela dita ao ser humano verdadeiro comportamento ético. Nela se inscreve algo do projeto primeiro, teleológico da criação. Desrespeitá-lo implica violar uma sabedoria maior que a do ser humano. Sem sucumbir ao naturalismo, a liberdade e razão humana debruçam-se sobre tal natureza para discernir nela os espaços abertos para a interferência humana. E a ética regerá precisamente esse interstício: respeita a natureza, de um lado, e, descobre nela possibilidades de transformação, aperfeiçoamento, plenificação do ser humano. Portanto, procedimento ético.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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