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Artigos: Ética e liberdade  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/1
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ÉTICA E LIBERDADE

J. B. Libanio

O Tempo – 09 de março de 2008

                   Sem liberdade, não existe ética. O drama da vida humana nasce da intersecção entre a liberdade e a ética, entre a responsabilidade e a própria realização no nível individual e na convivência benfazeja com os outros. Facilitar-nos-ia muito se a felicidade ou a infelicidade, se o êxito ou o fracasso, se o deslizar suave da vida e os atropelos nos viessem pela força incoercível do destino. Ele nos livraria do peso da responsabilidade. Ao olhar-nos no espelho da existência, ele refletiria unicamente o rosto totalmente dado pela vida e em nada construído por nós. Imagem semelhante a qualquer outro ser sem liberdade, que existe no que ele recebe da natureza.

                   O destino feliz ou infeliz não nos atropela na violência brutal dos acontecimentos. Percebemo-nos responsáveis, pelo menos, em parte, por ele.  A pergunta pelo viver e agir bem implica, como tal, a consciência da liberdade, sem a qual não existe ética nem no plano filosófico nem teológico.  Sem liberdade, o agir moral e a responsabilidade se esvaziariam. Sem ela, as frases: tu deves fazer isto ou por que tu fazes isto?, assim como elogios ou repreensões, reconhecimento ou desaprovação não teriam sentido. Temos consciência de que ações feitas sem liberdade, não merecem louvor nem repreensão, nem caem sob juízo ético.

                   Em termos abstratos parece evidente a relação entre ética e liberdade. Sondando-nos a experiência pessoal, entendemos liberdade como a capacidade de autodeterminar-nos por nós mesmos. Nem de fora, nem de dentro vem algum imperativo invencível. E então nada nos escusa da responsabilidade e, portanto, da ética do agir.

                   Entretanto, no concreto da vida, pertence também à experiência da liberdade que ela sofre limites. Embora saibamos ser o ator e responsável de ações, elas freqüentemente nos permanecem enigmáticas. Quantas vezes nos interrogamos duvidosos: como fizemos isso? E alguns ainda acrescentam: eu não estava em mim. Às vezes, duvidamos se realmente quisemos as conseqüências de certas decisões.

                   Sobrevêm-nos acontecimentos e praticamos atos, de certa maneira, imprevisíveis, que nos mostram não termos tudo sob nosso poder. Subjazem à nossa capacidade de agir e decidir influências que nos escapam do controle. Há um conjunto de desejos, sentimentos, pulsões, estados emocionais, que se originam de influências estranhas, e de expectativas sociais, que nos ameaçam a liberdade. A experiência da liberdade permanece fenômeno ambíguo, cheio de decepções e surpresas. Reflexões nesse sentido são bem trabalhadas pelo moralista E. Schockenhoff em sua obra sobre a Teologia da liberdade.

                   Conseqüentemente a ética sofre da mesma ambivalência. Antes do avanço da psicologia e da sociologia do conhecimento, facilmente inclinávamos para culpar-nos eticamente ainda respeito das ações que nos fugiam do controle. A cultura moderna vulgarizou dados psicológicos, sociológicos e filosóficos que nos levam a perguntar-nos: até onde influencia a história inconsciente aquilo que experimentamos como vontade livre? Os motivos de nossas ações se apóiam sobre considerações racionais livres ou sobre uma racionalização posterior das forças pulsionais pré-reflexivas não livres? Dependemos no agir de orientação racional ou emocional? Até onde as sombras do passado influenciam? Enfim, quem é este enigmático Eu que postula a ética como uma instância da responsabilidade pessoal?

                   Ao responder a tais perguntas, cresce a consciência desculpabilizadora para bem e para mal. Para bem, pois alivia muitas almas de tormentos por atos de responsabilidade duvidosa ou até mesmo nula. Para mal, ao diluir e mesmo abolir totalmente a liberdade humana. Com ela, desaparece a ética. Cabe-nos, portanto, equilibrar-nos entre os extremos de uma inexistente liberdade pura e de condicionamentos tais que nos deporiam da condição humana. seres humanos, mesmo limitadamene livres, respondem em termos éticos.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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