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Artigos: A ética e a face do outro  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2013/2/1
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A ética e a face do outro

J. B. Libanio

O Tempo – 13 de abril de 2008

                   Na solidão do eu, não existe ética. Enquanto permanecemos centrados em nós mesmos, não nos aflora nenhuma provocação ética. Regemos a orquestra da vida segundo a partitura de nossos interesses, desejos, sonhos. Moldamos a realidade à nossa imagem e semelhança. Entramos no Palácio dos Espelhos em que a nossa própria figura se multiplica ao infinito. Tudo começa e termina em nós mesmos. Reina o indivíduo sobre a pessoa, o próprio sobre o alheio. Realiza-se o veredicto de Mrs. Thatcher: “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos

                   “Desde que o outro me olha, sou responsável por ele”, observa Levinas. A face do outro assume o caráter sagrado de quem nos acorda do sono individualista. Nasce a ética. Estabelece-se o princípio da alteridade na gestação do nosso modo de proceder. não fazemos única e exclusivamente o que nos apetece segundo o bel-prazer. Interfere a face do outro que nos questiona, nos incomoda.

                   Caminhamos sorridentes pela rua, bem almoçados, satisfeitos e, de repente, um mendigo estende a mão. A ética da satisfação do apetite primeiro do comer, que nunca nos perturbara o sono, grita no rosto faminto daquele outro plantado diante de nós. Por que temos o direito sagrado da saciar-nos a fome e aquele pobre não? Que responsabilidade assumimos diante de tal situação? A fome é anti-ética.

                   Todo olhar desperta-nos para a responsabilidade. Aquele que acende na noite da fome do pobre interpela-nos ainda mais fortemente. A sociedade atual manifesta traço de crueldade, ao tornar a pobreza invisível. Cobre com duplo véu a presença do pobre. Isola-o em favelas e afasta-o para o mais longe possível do alcance da vista dos aquinhoados de muitos bens. Estes trancam-se em condomínios sofisticados de modo que nenhum rosto de pobreza e fome se aproxima deles. Andam em carros de vidro fumê que os esconde e defende. Freqüentam shoppings, hotéis e aeroportos, onde não circulam famintos.

                   Some a face do outro. Apaga-se a ética. Vale o provérbio italiano: “longe dos olhos, longe do coração”. E o coração funciona como a sede da ética. Se nos distanciamos do outro, ao viver unicamente no meio de caras iguais, que ostentam a mesma riqueza, a nossa sensibilidade e responsabilidade pelos necessitados embotam. A planície da identidade dos que comungam dos mesmos interesses e benesses impede que se veja a irregularidade distinta da pobreza. Sem o diferente do outro, a vida unicamente entre os mesmos silencia qualquer inquietação de justiça.

                   Faz irromper o grito ético o desfile diário dos excluídos e marginalizados, vindos das infinitas senzalas, que teimam em vir acordar o sono alienado dos senhores da Casa Grande. Enquanto houver tal choque a ética social tem chance de nascer. Mas o dia em que o poder ocultar definitiva e mentirosamente as faces diferentes do pobre, o futuro humano da sociedade corre risco de perder-se em grotescas formas de injustiça social.

 

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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