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Artigos: Os padres e suas famílias  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
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O olhar do teólogo

Os padres e suas famílias

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – junho de 2001

 

                   Os desejos variam ao ritmo das mudanças dos imaginários sociais. Em cada universo simbólico, as culturas engastam suas pedras preciosas que faíscam ao sol de nossos desejos. Quando o Brasil vivia sob o céu religioso, os pais e mães encantavam-se com as estrelas que o Catolicismo dominante semeara e nomeara. Elas fascinavam e despertavam sonhos e aspirações. No centro do cosmos religioso estava o sol brilhante da hóstia e da encenação sagrada da missa do sacerdote celebrante, do soar autoritativo da voz do pregador, do palmilhar terras estrangeiras em nome do Evangelho do missionário, do papel sacrificado do serviço aos pobres da irmã de caridade, da educação esmerada do irmão ou padre dos colégios. Os jovens olhavam para essas vocações e sentiam-se atraídos. Os pais se orgulhavam de ver os filhos caminhando por estradas tão belas e sagradas.

                   Veio a secularização. Outros sois brilharam mais forte. A importância do dinheiro na vida profissional, o status social de algumas profissões, o domínio de saberes até então pouco socializados lentamente abriram o leque das vocações. Tornaram essas novas mais atraentes, sem o ônus do celibato, sentido cada vez mais pesado numa sociedade do prazer e da liberação sexual. Os pais também deslocam suas preferências e sobretudo os das famílias ricas. Para elas, os filhos que se enveredam pelo caminho religioso abandonam uma trilha brilhante e segura por um tipo de existência sem o prestígio de outrora e sob a suspeita, se não explícita, ao menos subliminar, de estranheza psicológica. A abstinência de vida conjugal, seja estável - cada vez mais rara - seja entregue aos movimentos espontâneos dos apetites contraria o ethos que se impõe em nome de verdadeira “tirania do prazer”.

                   Nas sociedades religiosas, o sacerdócio e a vida religiosa pertencem ao normal, ao evidente, ao valorizado. Nas sociedades seculares, respeitam-se tais vocações como a qualquer bizarrice que alguém quiser fazer. É o reino da tolerância. Mas não se apreciam como valor, já que essas sociedades funcionam em registro diferente. E quanto mais uma família se imerge no mundo da secularização, mas impermeável se torna, nos pais e nos filhos, a essa vocação. Daí seu decréscimo fulminante.

                   Resta então que esta vocação encontre ressonância em pais e filhos de outros estratos sociais, seja porque eles retiveram ainda o horizonte religioso, seja porque para eles tal vocação significa um reconhecimento humano social, independente da sua qualidade religiosa.

                  Pais de classes privilegiadas apreciam a vocação sacerdotal ou religiosa unicamente quando vivem uma vida cristã de tal nível espiritual que descobrem valores transcendentes e estimam assim pessoas que a eles se dediquem de corpo e alma. A sociedade seculariza sabe reconhecer algumas vocações sacerdotais quando o padre consegue reunir em si a aura do sagrado com um conjunto de qualidades humanas que o fazem significativo para as pessoas. Não se trata sem mais do apreço da vida sacerdotal, como nas sociedades tradicionais sagradas, mas de pessoas que cumprem com excelência um serviço ainda necessário e cada vez mais necessário de ser uma presença da Transcendência na escassez de sentido de uma imanência devoradora de valores. Esses padres valem por eles, mas não se tornam pólos de atração vocacional a não ser alguns da área da mídia. Mas nesse caso, as vocações aí brotadas costumam ser tão superficiais que não resistem ao tempo. E fascinam jovens de futuro incerto e de cortes sociais mais pobres, semelhantemente aos ídolos do futebol.

 

 



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