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Artigos: Frente a frente com a fome  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
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O olhar do teólogo

Frente a frente com a fome

J. B. Libanio

Jornal de Opinião - 2001

 

                   Fome é o grito primigênio. A criança com fome chora convulsivamente até que o leite a sacie. O adulto com fome desvaira. Não há argumento contra a fome a não ser o alimento. Só a irracionalidade absoluta de um sistema, que dispõe de víveres suficientes para toda a humanidade, é capaz de discutir sobre e com a fome, sem primeiro saciá-la. Nada é prioritário diante do estômago vazio. Não se entende porque gerações e gerações de políticos, que transitam pelos Planaltos do poder,  até hoje não puseram como prioridade número Um sem hesitação, antes de qualquer Proer bilionário, resolver o problema da fome de milhões de brasileiros.

                   A mais lídima tradição ética da humanidade, assumida pela moral católica, ensina que nos casos de extrema necessidade tudo é comum. Traduzido em miúdo, os famintos são donos daqueles alimentos, estejam onde estiverem, sejam de quem for, necessários para saciar-lhes a fome. Só que a truculência de uma polícia, a cegueira de uma justiça capitulada diante da propriedade particular impedem-nos de exercer o direito primeiro de viver.

                   Lá na primeira página do Livro Sagrado dos judeus e cristãos estampa-se a lei fundante da vida na Terra: o destino universal dos bens. Só então como direito segundo e derivado, vigora o direito da propriedade privada. E esta é pensada como condição da dignidade da existência e não como usurpação do direito do outro. Por isso, todo ser humano - e não somente alguns - tem direito de possuir o necessário, o útil, o cômodo para sua vida. E se os bens ultrapassam esse nível, pesam sobre eles uma hipoteca social. Cabe-lhes a função de gerar trabalho e não especulação.

                   A fome é imoral, repetia o saudoso Betinho. Um país onde há fome e poderia não haver por ter os recursos de debelá-la é imoral. Vivemos faz séculos uma imoralidade insuportável. Os moralistas de plantão não poupam palavras para vituperar os males no campo da sexualidade, mas são parcos ou até mudos para condenar a pior de todas as imoralidades: a fome. Esta não tem nenhuma justificativa. As ilusões do prazer seduzem muitos pelas vias do sexo desregrado. Instintos não educados e açulados deixam muitas pessoas prisioneiras dele. Sem justificar tais comportamentos, entende-se esse tributo que o ser humano paga a sua animalidade. Mas a fome. Esta pertence ao campo do absurdo, do absolutamente sem sentido.

                   Conviver com a existência de famintos dói-nos tanto que preferimos a política da avestruz. Esconder nossa cabeça na escuridão da distância, no desconhecimento das vítimas, na cegueira da realidade. O testemunho das pessoas que se aproximaram dos famélicos crônicos relatam-nos sua dor e impotência. Fica-nos sempre a pergunta: que fazer? Secundar com ajudas instituições que já se encarregam de mitigar tal sofrimento? Sim, mas é pouco.  Sobretudo forçar a solução política, apoiando projetos sociais de alcance duradouro. Aproximamo-nos do ano eleitoral. Conhecemos os que aí estão prolongando a imoralidade da fome. É hora de pensar na alternativa radical e não de remendos, como se fez até então. Isso implica uma varredura geral de partidos e políticos que até hoje viveram fisiologicamente explorando a miséria do povo.

                   Mais grave ainda que a corrupção pessoal de políticos - algo insuportável - são as políticas de “mãos limpas”, arquitetadas nos laboratórios do poder,  mas que esgotam o país, sugando-lhe o sangue de suas riquezas, em perversa transfusão para o adiposo capital nacional e internacional. É com a fome do povo que muito dinheiro evade do país para as burras insaciáveis das ilhas fiscais e aparentadas. É a hora do “basta”!

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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