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Artigos: Alfabetização do Brasil de hoje  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
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O olhar do teólogo

Alfabetização do Brasil de hoje

J. B. Libanio

Jornal de Opinião - 2001

 

                   Temos nossas glórias no campo da alfabetização. Em solo nordestino, plantou-se e vicejou a experiência de Paulo Freire. Lá o gênio pedagógico deste ilustre brasileiro uniu a alfabetização com a conscientização política. A estreiteza ideológica do regime militar temeu e tremeu diante do acordar das consciências para as letras e política. O processo sofreu seus revezes. A Igreja católica tinha embarcado nele, criando em parceria com o Estado o MEB. E as pancadas repressivas obrigaram-no a modificar-se e perder muito de sua originalidade inicial.

                   Terminou o reinado efêmero do poder discricionário. De novo, estamos entregues à liberdade de nossas iniciativas educativas. O vexame vergonhoso do analfabetismo continua maculando-nos a consciência política e social. Numa sociedade cada vez mais feita de saber e ordenada ao saber, quem desconhece o compor-se das letras sofre exílio cultural em sua pátria. Estrangeiro em casa. Escrevem-se notícias, indicam-se instruções, circulam jornais e livros, e o analfabeto vive à margem desse universo de conhecimentos. Sem culpa. Nasceu lá onde a leitura não tinha chegado por descuido político de um país que esconde em seu bojo milhões de famintos de pão e de conhecimento.

                   Só o descaso, a inconsciência, a irresponsabilidade política das elites de séculos explicam, no mundo moderno, com suas facilidades enormes de comunicação e ensino, a existência de legiões de analfabetos e de milhões de crianças fora da Escola, fadadas a aumentar-lhes as fileiras. Pão  e letras para todos deveria ser a consigna principal para os planos políticos de nossos candidatos, antes de pensarem em interesses menores. Tudo é pequeno diante da gravidade do direito fundamental à vida digna para todos, garantida pelo alimento do corpo e do espírito.

                   Nem tudo é negligência. Há iniciativas que nos encorajam. A esperança tinge de cores o céu de muitas pessoas que viviam na névoa densa do analfabetismo, da consciência apequenada de si, da autoestima diminuída pela miséria material e espiritual. Aí entram anjos novos, não de uma Nova Era individualista, mas como os que tiraram Pedro da prisão e hoje retiram do cárcere do analfabetismo tantos outros Pedros e Marias.

                   Pedro pensava que estava sonhando quando viu as algemas se-lhe cairem e ele ir caminhando da escuridão da prisão para a luz da liberdade através dos inermes guardas do poder carcerário. Tantos irmãos nossos também sonham igualmente. Vão lentamente deixando a noite da não-leitura numa sociedade de letras para a claridade das palavras decifradas e compostas pela suas inteligências. Os guardas do sistema, que até hoje lhes vigiaram a saída, mantendo-os nessa prisão penumbrosa, sentem-se impotentes, dormidos, cabistontos, diante desses anjos da alfabetização. 

                   Jesus no horto não pediu nenhuma legião angélica para salvá-lo. Porque tinha escolhido viver com os anjos e demônios da história. Se houvesse anjos humanos que o defendessem em vez de demônios que o condenaram, teria escapado. Hoje também não pedimos anjos do céu para alfabetizar. Deus nos deixou a história para que sejamos nós os anjos da vida para outros. Que horizontes bonitos se abririam para tantos jovens, que passam suas férias no aborrecimento e tédio de uma existência vazia, se eles saíssem em bandos felizes, levando as letras na asas de sua dedicação até os grotões iletrados desse país!

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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