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Artigos: Trabalho nas organizações populares  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
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O olhar do teólogo

Trabalho nas organizações populares

J. B. Libanio

Jornal de Opinião - 2001

                   Direitos e obrigações tecem a verdadeira cidadania. Onde só há direitos reivindicados, sem a face da obrigação, temos o individualismo solitário ou grupal. Sempre individualismo. Onde temos obrigações, sem direitos, sofre-se a servidão. A cidadania viceja na consciência de quem se sabe social, e, portanto, em relação com os outros. Toda relação humana e verdadeira é bilateral ou multilateral. Nunca comandada de um lado só.

                   O Estado é um grande Tu. Ditatorial, autocrático, autoritário não cria relações autênticas. Dita leis, executa-as impiedosamente, sem ouvir o outro lado. Não cria cidadania. Não é “cidadão”. Tem os ranços dos tempos anteriores à Revolução Francesa que lhe veio ensinar a igualdade, liberdade e fraternidade. Muito de nosso Estado é assim.

                   Do outro lado desse Tu agigantado, surgem os movimentos populares como parceiro indesejado e inesperado, forçando-o ao diálogo, arrancando-o de sua soberania opressora. Esse confronto é extremamente sadio. A imprensa liberal, que defende na hipocrisia de seus interesses burgueses as liberdades democráticas, treme e rejeita quando a liberdade se lhe escapa das mãos e desce até às do povo. Aí que a liberdade se faz universal e verdadeira. Neste momento, a burguesia a rejeita como tem feito com tantos movimentos populares ao longo dos dois últimos séculos de revoluções sociais.

                   Intrigante paradoxo. O neoliberalismo remonta aos movimentos que lutaram contra o Absolutismo em nome da liberdade dos indivíduos de organizarem-se, de pensarem diversamente, de valorizarem suas experiências em tensão com as tradições dominantes. Agora arvora-se em pensamento único, acachapando toda diversidade. Suspeita-se com justeza de que não se defendem a liberdade na sua amplitude, a igualdade na sua verdade social, a fraternidade na sua força convocatória, mas somente os  interesses das classes dominantes.

                   O teste da verdade é sempre o outro, o diferente. Enquanto nos envolvemos com a “mesmidade”, paira a dúvida da autenticidade de nosso discurso. O diferente dos movimentos populares está aí para testar o discurso de um Estado e de uma burguesia que arrotam os ideais da Revolução Francesa e malham o Socialismo pela monotonia de seu partido único. No meio a uma gama de partidos que sob diversos nomes escondem o mesmo ideário burguês, simulam um pluralismo. Se, pelo contrário, se arma verdadeiro discurso diferente, de oposição maior, as forças da situação ouriçam-se de horror e surpresa.

                   Os movimentos sociais, às vezes, não conseguem  dentro de si uma linguagem democrática por força de lideranças autocráticas. No entanto, no quadro geral da nação, colaboram na construção dum discurso democrático pela dissonância crítica à repetição monotônica dos alinhados do sistema. E quando aí não funciona a persuasão da palavra do poder, correm por baixo as águas enganosas da corrupção. Os movimentos populares gritam palavras diferentes de protesto, de denúncia e de anúncio. Deixam para trás o ontem neoliberal e antecipam o novo milênio. Este chegou no calendário, mas ainda está à espera de nascer na história dos fatos. Há pequenos sinais de gestação como foi o Forum Social Mundial de Porto Alegre. Quem sabe que a parteira já está entre nós e não a conhecemos!

                  

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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