Menu
Login
Codinome:

Senha:




Artigos: Cultura descartável  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
Leituras:
Tamanho:
Página para Impressão Indique a um Amigo
 

O olhar do teólogo

Cultura descartável

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – 2001

 

                   A cultura é como um grande jogo. Entra-se nele conhecendo e praticando suas regras. Com os pés não se joga basquete. Os toques de mão, exceto por parte do goleiro, são proibidos no futebol. Se alguém atrevesse a infringir permanentemente o código esportivo, tornar-se-ia um estranho no jogo.

                   Na cultura sentimo-nos em situação semelhante. Os gestos, os comportamentos, os símbolos, os valores, os significados das realidades, as relações entre as pessoas e as coisas desenvolvem-se aparentemente na espontaneidade dos desejos e das vontades. Julgamos que decidimos e escolhemos exatamente o que queremos numa liberdade sem interferências externas. E esta sensação tende a crescer quanto mais avança a cultura pós-moderna.

                   Paremos para refletir. Há um emaranhado de regras assimiladas por nós de maneira consciente e inconsciente que nos regem os comportamentos. Somente dobrando-nos sobre elas e analisando-as, percebemos a sutileza escondida de tal teia de normas e registros a comandar-nos.

                   A cultura do descartável imiscui-se sorrateiramente no tecido de nosso cotidiano. Está a orquestrar-nos as ações. Num primeiro momento imediato e direto aparece na relação com as coisas. Às vezes por razões sérias e necessárias. Assim aquelas seringas de vidro, que eram fervidas para cada uso, cedem lugar para as descartáveis com muito maior segurança de higiene. No Hospital Einstein de São Paulo, os termômetros são descartáveis. Assim a onda vai atingindo cada vez bens de maior valor que antes faziam parte de patrimônios estáveis.

                   No Japão, assim me disseram, os automóveis são descartáveis depois de cinco anos. Em outros países proíbe-se a circulação de carros de mais de 7 ou 10 anos de fabricação. A arquitetura moderna sofre a mesma doença. Casas, prédios constróem-se na perspectiva de serem dentro de alguns anos destruídos e substituídos por outros. Preside a tal procedimento nem sempre o desejo da beleza, mas do lucro. O valor do terreno sobrepõe-se ao do prédio, ameaçando-lhe a permanência. Muita beleza colonial sucumbiu à febre descartável. Foi necessária uma consciência histórica mais forte para resistir a essa epidemia, conseguindo leis em defesa dos bens culturais antigos.

                   O descartável na relação com as coisas revela uma dupla face de nossa cultura atual. Positivamente permite que tenhamos coisas melhores, mais funcionais, mais perfeitas. Assim destróem-se aquelas que já se tornaram trastes inúteis. No entanto, um lado negativo esconde-se nesse afã de progresso. Rege-o o critério do lucro. Conduz-nos a criar um clima de consumismo, de desperdício, de destruição de valores históricos culturais, da criação de desejos artificiais para fazer descer redondo pela garganta bens inúteis ou, pelo menos, supérfluos. É o lado terrivelmente comercial do descartável.

                   Mais grave ainda quando essa cultura atinge bens afetivos e espirituais. Os amores se fazem descartáveis no matrimônio. No primeiro momento em que apareça uma outra oferta melhor, mais bonita e atraente, desfazem-se os laços anteriores. As amizades navegam por sempre novos rios ao sopro dos gostos descartáveis. E ultimamente a religião vem sendo atingida por essa onda. Descartam-se verdades, dogmas, ritos, símbolos toda vez que alguém se defronte com outros melhores para seu sabor religioso. Tudo passa a ser transitório, passageiro. No fundo, resta o silêncio vazio da falta de valores absolutos. Se não reagirmos, soçobraremos num oceano de incertezas amargas e de realidades transitórias. Permanece o “inquieto está o nosso coração” na experiência de Santo Agostinho. Mas falta o resto da frase “até que descanse em Deus”. E Deus se torna o provisório e não a meta definitiva e firme. Pobre humanidade!

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
Desenvolvido por ABNEXO