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Artigos: Comunidades de vida  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/10/10
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O Olhar do teólogo

Comunidades de vida

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – 2001

 

                   A física clássica habituou-nos a esperar uma reação proporcional à ação. A sociedade atual vem sendo violentamente atravessada pelo individualismo, pela solidão anônima das pessoas, por um egoísmo anti-solidário. Ação terrível e desestruturante do que há de mais profundo na pessoa humana: o amor, a relação com os outros, a fraternidade, a amizade, a solidariedade, o gosto do convívio próximo e afetivo.

                   É de esperar que à ação do individualismo, alimentado pelo consumismo estonteante, surjam reações na mesma proporção da força individualizante da modernidade. Divisamos no horizonte duas ondas, uma mais alta e visível, outra menor, mas não menos significativa.

                   O individualismo tem gerado o desejo de gigantescos encontros de massa sobretudo entre jovens. Buscam sentir-se envolvidos por outros jovens por todos os lados.  Woodstock nos Estados Unidos foi um símbolo. Em nível religioso, o Convento de Taizé na França tornou-se uma meca de jovens de toda a Europa para conviverem, rezarem, cantarem em atmosfera mística em enormes grupos.

                   Os Rocks in Rio, as multidões nos estádios, os festivais, os showmícios, os programas de auditório se multiplicam para aquecer o frio da solidão ao calor da massa. No dia seguinte, volta-se ao individualismo solitário, mas carregado pela energia de evento solar.

                   As comunidades de vida manifestam outra face da mesma reação. Não tem o caráter espasmódico dos happenings. Não é a fúria da tempestade. Tem a tranqüilidade do remanso. Tecem-se relações pessoais estáveis, criam-se vínculos mútuos de fidelidade e compromisso. Supera-se o frenesi do instante para dar continuidade no dia-a-dia a uma experiência humanizante. Rompe-se o individualismo na sua raiz profunda. Não é um cobrir a solidão com o manto superficial do encontro de massa.

                   As pessoas nas mais diversas formas urdem tecidos de vida na paciência do cotidiano. Reza-se junto, convive-se em refeições, habita-se ou não a mesma casa. Há um ligar-se entre si que busca maior estabilidade do que simples encontros esporádicos e eventuais.

                   Desce-se da comunhão do e no espetáculo para a comunidade de vida. Percebe-se como falsa e superficial a pura vivência numa mera sociedade do espetáculo. Encaminha-se pelas veredas seguras de uma vida em comunidade com suas exigências permanentes. Em contrapartida, usufrui-se da riqueza de conviver com pessoas diferentes que lapidam os cristais das personalidades.

                   Tais comunidades de vida diferem dos grupos que reúnem jovens mesmificados por aventuras ou objetivos totalitariamente assumidos. São as tribos, as gangues violentas. Aí não há comunidade nem de vida, nem de pessoas. É o instinto da violência ou da revolta que nivela a todos em terrível uniformidade.

                   As comunidades de vida captam a insuficiência e o risco de prender-se a esse tipo de mesmidade redutora. Cultivam a unidade na diferença, constróem a identidade em tensão com a alteridade.

                   Na escuridão do atual individualismo e na ameaça de grupos violentos e marginais, as comunidades aparecem como aurora de esperança para um ser humano feito para o outro, para o amor, para a relação, para a vida com seus semelhantes na civilidade da razão e do afeto.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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