Menu
Login
Codinome:

Senha:




Artigos: HOMILIA: UM GRITO CONTRA TODA A EVIDÊNCIA  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2012/4/22
Leituras:
Tamanho:
Página para Impressão Indique a um Amigo
 

UM GRITO CONTRA TODA A EVIDÊNCIA

HOMILIA DE J.B.LIBANIO – 21.04.2012

PARÓQUIA N.S. LOURDES – VESPASIANO (MG)

Lc 24, 35-48

Então os dois contaram o que havia acontecido na estrada e como tinham reconhecido o Senhor quando ele havia partido o pão. Enquanto estavam contando isso, Jesus apareceu de repente no meio deles e disse:- Que a paz esteja com vocês!
Eles ficaram assustados e com muito medo e pensaram que estavam vendo um fantasma. Mas ele disse:
- Por que vocês estão assustados? Por que há tantas dúvidas na cabeça de vocês? Olhem para as minhas mãos e para os meus pés e vejam que sou eu mesmo. Toquem em mim e vocês vão crer, pois um fantasma não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho. Jesus disse isso e mostrou as suas mãos e os seus pés. Eles ainda não acreditavam, pois estavam muito alegres e admirados. Então ele perguntou: - Vocês têm aqui alguma coisa para comer?
Eles lhe deram um pedaço de peixe assado, que ele pegou e comeu diante deles. Depois disse: - Enquanto ainda estava com vocês, eu disse que tinha de acontecer tudo o que estava escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos livros dos Profetas e nos Salmos. Então Jesus abriu a mente deles para que eles entendessem as Escrituras Sagradas e disse: - O que está escrito é que o Messias tinha de sofrer e no terceiro dia ressuscitar. E que, em nome dele, a mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados seria anunciada a todas as nações, começando em Jerusalém. Vocês são testemunhas dessas coisas.

            Normalmente, quando lemos um texto ou uma notícia de jornal, sabemos que se trata de uma descrição tentando narrar tal qual aconteceu. Se nos aproximarmos dessa maneira das escrituras, não a entenderemos. Quando os evangelistas narram que Jesus tocou, pegou, comeu, podemos imaginar que Ele tinha um corpo como o nosso, ainda trazia as chagas, mas não é bem assim. O corpo glorioso não come, não é sensível aos nossos olhos.

            Lucas é um pouco psicólogo, dizem até que era médico, mas certamente não se graduara na UFMG. Mas essa condição fez com que ele pudesse perceber com uma certa profundidade, sobretudo quanto a afetividade das pessoas. Portanto, ele quer nos falar mais do processo interior do que do exterior. Reparem que, quando surgem aquelas duas testemunhas vindas de Emaús, os apóstolos ficam alegres, mesmo sem ainda terem experimentado Jesus. Quando Ele se faz presente, eles duvidam e têm medo. Interessante, que quando deveriam se alegrar, se assustam e têm medo.

                Olhando para esses jovens, muitos deles alunos de universidades, penso que eles passam por dúvidas sérias ao entrarem numa faculdade. Muitos deles se afastam do Senhor, mas Ele continua no mesmo lugar. Eles são atacados por dúvidas, confrontados com teorias científicas que questionam seriamente todas as suas convicções e muitos chegam a pensar que tudo em que acreditavam era fantasia. Mas Jesus continua afirmando que Ele não é um fantasma, mas está verdadeiramente presente, embora de uma maneira diferente.

Lucas coloca as chagas para nos dizer que Jesus é o mesmo. Olhando para elas com a fantasia, com o coração, os discípulos acreditavam que era o mesmo Jesus, aquele que nasceu de Maria, que andou pela Palestina, que foi crucificado e morto. A descrição de Lucas é a sua maneira de nos fazer visualizar o ressuscitado, um profundo ato de fé dos apóstolos sobre a identidade de Jesus. Eles não o viram com os olhos, mas precisaram crer, pois não foram mais privilegiados que nós. Nenhum de nós pode ver Jesus e, se alguém disser que o vê, podemos acreditar que está um tantinho transtornado. Ele não é mais visível, pois pertence a um outro universo. Mas se alguém disser que o ama, que o experimenta, que vive momentos de profundo silêncio e que, de repente, se sente invadido por uma alegria inexplicável, podemos acreditar que Ele está presente, mesmo que de uma maneira diversa. Ele não se manifesta através dos sentidos, mas de forma que nenhum de nós consegue explicar, como também não sabemos explicar onde está a raiz mais profunda de nossa fé, pois ela é graça. Como os apóstolos, nós continuamos acreditando, mesmo com tantas evidências contrárias. Para eles foi muito mais difícil, pois o viram morto e sepultado, mas acreditaram que Ele estava vivo. Só a fé pode nos fazer acreditar profundamente que um ente querido está vivo na glória de Deus, mesmo depois de termos visto o seu cadáver inerte. É um grito contra toda a evidência visível. Diante da morte, termina a ciência e começa a fé. Até o momento da morte, a medicina pode dizer alguma coisa, mas termina ali o poder dos sentidos e entramos no terreno da fé.

Foi isso o que aconteceu com os apóstolos em relação a Jesus. Até o momento em que o viram na cruz, não precisaram de nenhuma fé, mas apenas de terem olhos. Se não viram, foi por terem fugido. Mas depois da morte, só lhes restou a fé. Também nós, se estamos aqui, é porque cremos, e isso é lindo. Nenhum de nós o vimos andar pelas ruas, nem o vemos se fazer presente na eucaristia. Somos sustentados exclusivamente pela fé, que é o último sentido da vida, que não pode se acabar num vazio, numa paixão inútil, como definiu Sartre (*). A nossa vida é carregada de sentido. Vale a pena existir, vale a pena fazer o bem, vale a pena valorizar a alegria de uma criança. Sofremos, choramos, mas acreditamos que, por trás de tudo isso, há um sentido profundo. O que vemos está no domínio da ciência, mas o que acreditamos faz parte de um outro mundo. Acreditamos que há um último fundamento para a nossa existência, que é aquele que ressuscitou Jesus e que também nos ressuscitará. Amém. (3o. Domingo da Páscoa)

(*) referência a Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês, falecido em 1980.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
Desenvolvido por ABNEXO