| Artigos: Eleições na América Latina | |||
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O olhar do teólogo Eleições na América Latina J. B. Libanio Jornal de Opinião – fevereiro de 2006 As eleições vestem-se, num primeiro momento, do valor simbólico da vitória do candidato eleito. Euforia, festas, cores, esperanças povoam a fantasia dos eleitores e, sobretudo quando triunfa uma real oposição, que de longo tempo vinha batalhando por lugar no sol do governo. As oligarquias dominavam e dominam muitos países do quintal sul dos EUA. Suas vitórias repetem a rotina velha e encardida dum passado sem esperança para o povo. Quando, porém, um candidato rompe essa barreira quase intransponível, perpassa pelo povo um ar de futuro e de expectativa. No caso do Brasil, vivemos várias dessas experiências como as de Getúlio e Lula. No primeiro caso, deu-se à custa de uma revolução armada, no segundo, pelo voto. Recentemente foi a vez da Bolívia. O "cocalero" popular Evo Morales assume o poder com promessas de transformações em benefício do povo boliviano e não a serviço de poderes estranhos, embora radicados no país. Na Venezuela, Hugo Chávez acumula vitórias, uma depois da outra, firmando uma liderança de esquerda. No Chile, uma mulher socialista, divorciada, fora do figurino tradicional, acaba de ser eleita. E vários outros países terão eleições presidenciais, mais uma vez, inclusive o Brasil. Ainda não está claro o jogo de forças que se enfrentarão neles. O maior problema não é a vitória. Fazer um programa de eleição, como observou Frei Betto, referindo-se ao PT nas eleições passadas, não requer muita criatividade e força, embora já seja uma façanha. A dureza vem depois. E o programa de Governo? Na Europa, sofremos a terrível decepção de ver partidos socialistas de vários países implantarem a reforma neoliberal. O colorido político desbotou-se definitivamente e impôs-se a pragmática instrumental do sistema dominante. Os três anos do Governo Lula repetem esse cenário. A macroeconomia neoliberal permanece no proscênio. Alguns figurantes sociais representaram pequenos dramas populares, mas os atores principais continuam do elenco anterior. O resultado das eleições representa um primeiro sinal provisório. Vitória de esquerda com cautela. Os anos seguintes servem para delinear a figura real das forças hegemônicas. Ainda imperam aquelas que sufragam as regras neoliberais na economia em que pese o tom esquerdista do discurso político. Hoje as forças conservadoras toleram mais facilmente tal oratória porque sabem que é inócua, sem mordência na realidade. Constatamos unicamente se a vitória eleitoral se fez verdade no momento em que medidas econômicas afetam os interesses maiores da burguesia nacional e internacional, sobretudo financeira. Aí então acontece a verdadeira vitória. Precisamos de distância de tempo para perceber esse jogo. Estamos muito dentro das pequenas vitórias da esquerda na América Latina para dar-nos conta do real significado. Quem destruía no final do século XVIII os muros da fortaleza-prisão da Bastilha ou quem arrancava as pedras do muro de Berlim no final do século passado ou quem aterrorizado viu as Torres Gêmeas desmoronarem como castelo de cartas dificilmente se deu conta do alcance de tais fatos. Os séculos confirmaram a relevância histórica da Revolução Francesa, as décadas mostram já pesadas mudanças com a queda do socialismo e a triste conjuntura de controle policial e revide revela a nova face da política externa americana depois de 11 de setembro. E a esquerda despontando na América Latina? É algo para valer ou pura decoração de uma oligarquia poderosa? Que o tempo nos diga!
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