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Artigos: Primavera  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/8/25
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O olhar do teólogo

Primavera

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – setembro de 2006

                   A natureza ofereceu infindas metáforas para o pensar humano. Nela se escondem estruturas de vida que nos regem. Voltamos continuamente a ela. Dia e noite, estações do ano, chuva e sol, terra e mar, quantas e quantas imagens nasceram do nosso encontro com elas. Hoje debrucemo-nos sobre a primavera. Na etimologia oculta-se a idéia de algo primeiro – primo vere -, de início, de novidade. Termina o inverno, o tempo da morte, do silêncio, do branco para explodir na estação verde, de vida, de barulho. Os pássaros que se silenciaram durante os meses frios, enfiados em tocas e ninhos, saem barulhentos para o acasalamento primaveril

                   O poeta bem jovial, para não dizer infantil, Casimiro de Abreu, lido e decorado nas escolas de outrora, suspirava pelos dias da infância, do céu de primavera, pela doce vida, pela risonha manhã, pelas carícias da mãe e os beijos da irmã. A primavera resumia a beleza do existir, enquanto o outono anunciava o declinar da vida.   No inconsciente coletivo repousa a metáfora da vida na pureza e transparência da luz, no florir da natureza. E a teologia como vê a primavera? O papa João XXIII, ao convocar o Concílio Vaticano II, disse com todas as letras: “Julgamos inspiração do Altíssimo qual flor de inesperada primavera  convocar  o Concílio Ecumênico”. E, por isso, quando o calor do entusiasmo do Concílio se esfriou, K. Rahner referiu-se ao “inverno da Igreja”.

                Primavera para a teologia atual faz ecoar as intuições fundamentais do Vaticano II: participação, ecumenismo, base laical e colegial da Igreja, liberdade religiosa, abertura ao mundo moderno e, sobretudo o Primado absoluto da Palavra de Deus ao qual se submete humilde e ouvinte a hierarquia e nunca como senhora e dona.

                Em todos esses pontos se realiza a metáfora da primavera. Aí pulula vida pela força da Palavra de Deus. A seiva do entusiasmo participativo dos fiéis corre pela árvore ancestral da Igreja, revigorando galhos ressequidos pelo autoritarismo, pelo juridicismo, pelo formalismo externo. As rixas entre igrejas cristãs, refletindo a dureza invernal de corações, cedem espaço para o diálogo verde da compreensão, da caminhada junto. Onde se secava a comunhão entre fiéis e hierarquia, entrou o vigor vital da participação, da consciência de fraternidade. E lá, em meio à rigidez segregacionista dos não crentes, vingaram a liberdade religiosa e o diálogo.

         Quando se vai a primavera, seja por causa da estação seguinte de calores insuportáveis ou do inverno que depois virá nas pegadas do outono, ela deixa atrás de si a saudade, o desejo de sua volta. No ciclo da natureza isso acontece inexoravelmente a cada ano. Mas a história é muito mais caprichosa. Não tem a seqüência esperada das estações, mas responde às decisões do ser humano. Haverá primavera quando optarmos pela leveza da vida, pela beleza do humano, pela esperança do crescimento.

                Far-se-á, no entanto, inverno quando a centralização rígida se impuser e o autoritarismo doentio ocupar o cenário da instituição. Se a primavera revela-se mais maravilhosa nas cores e na pujança, por que escolhemos o inverno? Há corações soturnos que preferem as trevas à luz. Jesus desconfia deles ao dizer que “os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3, 19).

 

 



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