Hábito de leitura J. B. Libanio Ave Maria – dez 2007 Os hábitos lançam raízes nos primeiros anos maleáveis da existência. O tempo enrijece-nos e as conquistas sobre nós mesmos se tornam mais difíceis. Nada como começar bem a vida e semear nela sementes que amanhã frutificarão. Fertilizar areais custa muito. Que o diga Israel! A criança lentamente prepara-se para a vida com a curiosidade instintiva de quem a quer conhecer, tocar com as mãos. Os pequenos braços e minúsculas mãos agitam-se na sôfrega vontade de tudo agarrar. No começo se faz de maneira mecânica, gestual. A leitura pertence aos primeiros hábitos da vida de estudos. Cícero, clássico da língua latina, joga com a etimologia de ler que em latim é legere. Denota a idéia de tomar, colher alguma coisa, como um fruto da árvore. O texto é a árvore da qual o leitor recolhe os frutos. Uma série de palavras em português tem dentro o verbo ler. A inteligência lê dentro. Eleger um candidato é lê-lo, tirando-o para fora (pelo voto); ser diligente é ler o amor. Importa perceber nas etimologias a experiência do ser humano de valorizar o ler. Um escritor francês dizia: “Não há outro método de pensar a não ser ler os pensadores” (Alain). Mais. Com as pessoas vivas conversamos. Captamos de seus lábios os pensamentos, as idéias, as riquezas espirituais que nos transmitem. E as que morreram? E os inumeráveis gênios que passaram pela história e se foram? Como nos fazer presentes a eles? Pela leitura. Ela permite-nos maravilhoso passeio pelas paisagens desenhadas por poetas, romancistas e outros escritores que vivem ou que já se foram. A leitura é ponte para o mistério dos que tiraram o véu de si pela escrita de qualquer tempo e geografia. A leitura cobre a distância do tempo e do espaço. Alguém já partiu, lemos o seu legado. Alguém está longe, lemos as suas cartas e mensagens. É verdade que hoje o som da voz nos chega mais facilmente. Mas nem sempre é possível enquanto que a escrita atravessa espaços pela via da Internet. A voz desaparece mais facilmente que a escrita. “Verba volunt, scripta manent” – as palavras voam, os escritos permanecem. Um adolescente enamora-se e guarda confuso dentro de si essa ardente experiência. Toma a esmo a passagem em que Romeu e Julieta, de Shakespeare, exprimem com palavras de beleza incomparável o amor juvenil e heróico, e de repente esclarece-se-lhe a experiência. É a leitura! Outra pessoa mergulha-se no desespero, na noite escura da dor, sem esperança. Esbarra com a autobiografia de Psichari e ei-lo reerguendo-se com coragem. As obras literárias são retratos de experiências diversas que iluminam as nossas. Quem não se comoveu lendo os líricos? Quem não ficou siderado lendo os romances à espera do desfecho final? Quem não subiu às alturas da beleza lendo os clássicos? Há experiências humanas codificadas em letras para todos os gostos e desejos! E o cristão? Para ele, a leitura ainda é muito mais importante. Pois o Cristianismo é uma religião do livro. Para conhecer as gestas de Deus, o projeto maravilhoso da Trindade, necessita manejar as Escrituras, seja ouvindo-as em leitura feita por outro, seja lendo-as ele mesmo. A revelação aos profetas e discípulos se teria perdido nas tradições orais, se não houvesse a escrita. E a escrita se perderia no silêncio das letras, se não houvesse a leitura. Ler pertence ao ato fundante da fé cristã. Paulo diz que a fé vem do ouvir (Rm 10, 17). Mas o que se ouve? O que se lê nas Escrituras e se vivencia na vida. No correr da vida, a fé se vê ameaçada por dúvidas e oposições. A quantos a leitura de um livro de teologia iluminou a senda da existência. Na cerimônia do batismo, o sacerdote reza sobre a criança já batizada, relembrando o gesto de Jesus de fazer os surdos ouvir e os mudos falar para que ela logo ouça a Palavra de Deus e a proclame. E poder-se-ia acrescentar, ampliando o pedido, para que ela leia tal Palavra. O que foi oração no batismo,que se transforme em vida à medida que se cresce! Para muitos, o mês de dezembro anuncia início de férias escolares ou laborais. O tempo parece caminhar mais devagar. Enche-se facilmente com infindas horas de TV ou Internet. E por que não guardar momentos para a leitura? Alimento da inteligência e do coração. |