O olhar do teólogo Pastoral do Menor J. B. Libanio Jornal de Opinião - Junho de 2008 A sociedade moderna e pós-moderna complexifica e gera situações de solidão, de isolamento, de perda de referência. Ao mesmo tempo que a globalização permite relações virtuais abstrusas e sem limite de tempo e espaço, as pessoas se sentem perdidas e carentes de contacto pessoal, real, cara a cara. Nessa aldeia global (McLuhan ) de mulltidão solitária (D. Riesman), sadia reação se manifesta, ao trazer para o centro da reflexão ética o cuidado. Saber cuidar (L. Boff), despertar o cuidado (A. Grün), a psicánalise preocupada com o cuidado (Winnicott), a cura espiritual em torno do cuidado (José e Patrícia Del Fraro), enfim tantos e tantos que percebem o sofrimento e a incapacidade de amar e de cuidar de pessoas que na infância não foram cuidadas, revelam o contraste da atual sociedade. Ao descaso crescente pelos filhos por causa das famílias desestruturadas, do ativismo e da vida profissional que não deixam espaços para os pais cuidarem deles, ao individualismo exacerbado, à busca do próprio prazer à custa dos outros, responde-se com a preocupação pelo outro, especialmente da criança, adolescente e jovem. Em tal cenário, adquire relevância única a pastoral do menor. Bálsamo com que a Igreja unge as feridas das crianças abandonadas, des-cuidadas, des-conhecidas, des-amadas pelos pais e pela sociedade, para dizer-lhes, em gestos e palavras, que elas encontraram alguém para cuidá-las, conhecê-las, amá-las. Não resolve todos os problemas. Há feridas insanáveis, que os primeiros anos deixaram. No entanto, quanto mais cuidado se devotar às crianças, mais elas se curarão e se aparelharão para enfrentar a vida nesse “mundo cão”. Pertence à tradição jesuana, o cuidado pelo menor. Na sociedade judaica dos primeiros séculos, quando a criança não valia nada, semelhante a bichinho a ser espantado toda vez que incomodasse, Jesus fez questão de cuidar delas de modo diferente. Chocava os coetâneos ao acolhê-las, abraçá-las, acariciá-las e, mais, ao propô-las como sinal do Reino de Deus. Identificou-se com elas de tal modo que cuidar de uma criança significa cuidar do próprio Jesus, do próprio Deus. Com motivação de tal altura, a Igreja do Brasil, a partir da iniciativa de D. Luciano Mendes de Almeida, desenvolve há 30 anos a pastoral do menor. A pessoa carismática de D. Luciano transbordava de carinho e acolhida respeito aos menores. Não se acanhava de rodar pneu com os meninos de rua, de deixar um dinheirinho para que uma menina de rua pudesse ir ao cinema, de graciosamente colocar a mitra na cabeça de uma criança, fotografando-se ao lado dela. Que lugar lindo para uma mitra, ao unir ao ministério a inocência da criança. Coisas bonitas que só o amor livre e límpido consegue inventar. Bendita pastoral do menor! |