| Artigos: O correio e os cegos | |||
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O correio e os cegos J. B. Libanio Jornal de Opinião - fevereiro de 2011 Cada vez que a sociedade por meio de algum serviço agrega marginalizados a seu seio, o sonho de Jesus se faz realidade. Lá nas terras da Palestina ele anunciava e lutava para que os excluídos das grandes esperanças de Israel fossem inseridos nelas. O povo judeu, e Jesus dentro dele, se distinguia de todos os outros povos pela consciência forte de liberdade, de não aceitação da dominação e da existência de escravos. Na base de tal consciência trabalhava a experiência de ter sido libertado por Javé para sempre de toda escravidão. As classes poderosas e religiosas judaicas mantinham firme tal convicção, mas desprezavam os pecadores, os aleijados, os leprosos e outros handicapés por considerarem-nos castigados por Deus por seus pecados. Estes ficavam de fora das esperanças de Israel. Precisamente a eles Jesus se dirigia e lhes devolvia a dignidade humana pelo milagre, pela acolhida, pelo perdão. Possibilitava-os inserirem por si mesmos nos sonhos grandiosos do povo. Traduzamos para o contexto de hoje tal sonho de Jesus. A sociedade moderna desenha “para todos” expectativas maravilhosas. E o faz brilhantemente no discurso. Mas, ao mesmo tempo, exclui delas enormes multidões por força da maneira como se institui. O “todos” não passa de pura ideologia. Até faz pouco, os edifícios, as escolas, os prédios públicos se construíam como se todos os usuários tivessem os membros perfeitos. Nenhuma consideração para com aqueles que carecem de cuidados especiais para locomover-se. Por meio de muita luta, cada vez mais se fazem rampas, se montam ônibus com escadas especiais para eles. Nesse setor já se veem bons avanços. Mas ainda nos resta longo caminho de solidariedade. Antes tarde do que nunca, chegou a vez de os Correios pensarem nos cegos, ao permitir-lhes autonomia para corresponderem-se sem precisar da ajuda manual de outra pessoa. Destarte se lhes possibilita maior espaço para relações confidenciais. Assim escrevem e recebem correspondência sem que um terceiro olhar se imiscua necessariamente. Preserva-se-lhes o universo da intimidade. Verdadeiro milagre no seio de sociedade agredida pela peste panóptica. Os meios eletrônicos, atualmente disponíveis, permitem, sem dúvida, maravilhas, mas estão a criar o que já Bentham imaginava em relação a uma prisão em que o presidiário estaria todo o tempo – quando se diz todo é todo mesmo – sob a possibilidade de ser visto. Prisão aliás que foi construída em Cuba, antes de Fidel Castro. Agora tal obsessão de ver tudo, até as intimidades das pessoas, se transformou em programa de tevê no BBB e se prolonga pelos inúmeros olhos eletrônicos a controlarem prédios públicos, comerciais, ruas e até lugares privados. Na contramão de tal onda, os cegos conquistam pequeno espaço para a intimidade que não tinham. E que tal toque nos sirva a todos de alerta para contrapor-nos à avalanche voyeurista da atual sociedade com enorme degradação das relações humanas. |
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