| Artigos: Santos negros: identificação popular e devoção no Brasil | |||
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O olhar do teólogo Santos negros: identificação popular e devoção no Brasil J. B. Libanio Há duas maneiras de considerarmos os santos. Existem aqueles que a Igreja oficialmente os declarou tais por meio de solene canonização ou do reconhecimento da tradição. São Benedito, o negro, pertence a esse grupo. Muito cultuado pelos negros por causa da raça. Na tradição popular há outros santos negros, como santa Ifigênia, Santo Elesbão, etc. Os santos canonizados, que a Igreja propõe à devoção dos fieis, significam mínima amostra das pessoas santas que passaram pela terra. No Brasil, a riqueza espiritual de tantos negros e negras nos extasia, embora nunca subirão aos altares. No momento em que nos referimos a santos/as negros/as vêm-nos à mente essa maravilhosa plêiade daqueles/as que viveram até o heroísmo a santidade no escondimento de vida simples. Quantos suportaram heroica e santamente a perversidade da escravidão negra e encontraram na fé cristã a única força de existência. Mesmo depois da libertação dos escravos, multidão deles viveu e ainda vive em situação de enorme penúria e sofrimento com a serenidade própria dos santos. Os olhares da terra não conseguem nem de longe vislumbrar o esplendor de santidade presente na tradição negra. Ela não cabe em cânones tradicionais, mas excede a eles pela força da graça que move e alimenta a tantos deles na vida diária. Se pudéssemos ver as pessoas com os olhos de Deus, quanta inversão de julgamentos faríamos. Onde não esperamos encontrar redutos privilegiados de santidade, lá estão eles em quantidade; e, em outros espaços, que julgamos bafejados pela aura de santidade, existem mediocridades. O critério maior da santidade se verifica na vida de caridade, de entrega de si, de humildade diante de Deus e dos humanos. A condição de escravo, certamente perversa e terrível e, de modo nenhum, justificável, se converteu pela grandeza de alma e coração de muitos deles, em ocasião de santificação. Paulo ensina-nos que Deus consegue transformar tais situações em fonte de graça. Tudo concorre para o bem dos que amam (Rm 8, 28). E quanto amor nos filhos da África que aqui vieram forçados e que terminaram marcando a nossa cultura em profundidade. A santidade não se vincula aos cânones católicos. Em formas sincréticas, originadas de outras tradições religiosas, Deus atua com seu Espírito, não simplesmente como “preparação para o Evangelho” nem mesmo como meras “sementes do Verbo”, mas em expressões de santidade e de graça. A liberdade de Deus não se prende a determinações jurídicas. Ultrapassa as exterioridades e ritualismos para tocar o coração das pessoas no íntimo e conforme as respostas delas. Num espírito do diálogo interreligioso, reconhecemos nas devoções populares afro a constante presença do Espírito que santifica os que as vivem e questionam a todos nós para a acolhida. |
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