O olhar do teólogo Enquanto sopram as vuvuzelas J. B. Libanio Julho 2010 Tempo de copa, tempo de alheamento de toda outra realidade. Não agüentamos estar ligados todo o tempo com realidades que nos pesam. Menos ainda quando elas nos angustiam e carregam certa gravidade. Solução pessoal: desligamos os registros, saímos para algum lugar aprazível, mergulhamos em ambiente repousante. Uns preferem o esporte físico: correm, nadam, jogam bola. Outros se metem na Internet ou grudam os olhos na TV. Ninguém é de ferro, murmura-se para si mesmo, ao justificar esse ausentar-se dos problemas que assediam. O lazer serve exatamente para isso. A longa sabedoria de todos os tempos conheceu essa necessidade. Infeliz de quem não a exerce. Os judeus observam sagradamente o sábado até ao exagero, como acontecia no tempo de Jesus e ainda hoje com grupos fundamentalistas. A sociedade moderna inventou o “final de semana”. Prolonga-o quanto pode. E semeia outros feriados para ajudar o equilíbrio entre o trabalho e o descanso, entre a preocupação e o desligar-se. Visa diretamente ao indivíduo. No entanto, os corpos sociais, enquanto tais, carecem também abrir parênteses de ócio para os indivíduos e para o conjunto das pessoas. A copa cumpre tal função. Tudo de sério no país pára. As TVs, rádios, Internet sintonizam com os jogos. E quando o próprio time entra em campo, o grau de envolvimento com a partida aliena os ouvintes de tudo. Há uma sabedoria nesse balancear. No entanto, as experiências humanas participam da ambigüidade da existência. Nada se faz totalmente sem algum preço. A sagacidade humana aproveita momentos de distensão coletiva para finalidades diferentes. Não falta a perspicácia da mídia que explora tais eventualidades, faturando alto sobre a emotividade das pessoas. Lançam-se modas, programas especiais, loterias para sugar o dinheiro festivo das pessoas. Nem faltam políticos sagazes que infiltram projetos espúrios em momentos de sono da consciência pública e desvio de atenção. Enquanto as vuvuzelas soam, empurra-se lixo político para debaixo do tapete da votação do Parlamento. Aprovam-se às pressas projetos que a consciência nacional refugaria. Vale sempre manter um olho aberto nessas circunstâncias de euforia para que não se tramem danos contra o bem comum. A vigilância crítica não conhece trégua total. Mesmo com a cara meio sonolenta da festa não se entrega a carteira de dinheiro a um estranho. Nessas horas os espertalhões atuam. Estamos em tempo de escolha de candidatos, de alianças, de princípios de balbucios temáticos dos futuros programas de governo. Nada disso é irrelevante. Tudo tem importância para a vida da nação e os cidadãos necessitam opinar e impedir com protestos e gritos contra maracutaias insustentáveis. Nenhum candidato, nenhum partido merece hoje apoio irrestrito. Vale o provérbio: ver para crer. Política de santo Tomé. |