Copa do mundo J. B. Libanio O olhar do teólogo 21 de junho de 2010 O esporte deixou, faz tempo, o mundo lúdico para transformar-se em gigantesca empresa econômica. Rolam bilhões de dólares pelos clubes, pelos campeonatos. E nem se consegue imaginar quanto uma Copa mundial envolve de interesses, de lutas subterrâneas, de propaganda, de patrocínios, de pressões por este ou aquele atleta. O país anfitrião – e o seremos em breve de Copa e Olimpíadas – mexe-se por dentro desde o dia da escolha até o apagar das luzes e das contas no final da copa. Este ano toca à África do Sul. Nação cortada por dentro pela divisão racial e econômica, embora tenha dado passos de conciliação, é lançada no proscênio das TV e Internet do mundo. A transparência e a publicidade de uma nação, como toda realidade humana, padecem de ambigüidade. A revelação de mazelas interiores estimula a vergonha nacional para superá-las. Na preparação já se sanam algumas. Durante o evento, curam-se outras. E espera-se que terminada a copa, a África do Sul avance na linha da igualdade racial em relação às oportunidades de emprego e à recompensa salarial, no respeito à diferença étnica e religiosa. Por outro lado, o risco da maquiagem superficial para os olhos estrangeiros esconde os reais problemas e posterga-lhes a solução. Finge que eles não existem, já que eles se eclipsam por trás das luzes e enfeites da festa. Afastam-se os indesejáveis das ruas para não ferir a sensibilidade do turista. Tivemos já experiências semelhantes por ocasião da Cúpula da Terra na Eco Rio-92. A cidade por meio de estrita vigilância e de acertos entre polícia e gangues viveu dias de paz e serenidade, para depois voltar à violência de sempre. Problemas graves não se solucionam no clicar de olhos, mas na paciência de investimento em educação, cultura, mudanças estruturais sociais. Com um olhar sobre a copa da África aprendamos para a nossa vez. Estamos em fase de preparação. Excelente ocasião para o Estado e a sociedade civil acelerar a solução dos graves problemas da droga, da violência urbana, dos sem-casa, dos meninos e habitantes de rua, da desumanidade das favelas. Se encontramos soluções sérias, duradouras e consistentes para os problemas urbanos mesmo por motivação e circunstâncias superficiais, bendita Copa! A África do Sul nos está a mostrar o que se fez nesse sentido. Cabe aos responsáveis da preparação da próxima copa aprender a lição e aperfeiçoá-la. Todos nos interessamos para que o esporte não cumpra o papel de engodo do circo no Império romano, mas antes sirva à verdadeira função humanizante do lúdico na existência humana. Para tanto, ele carece de passar da esfera do estritamente econômico e competitivo para a da gratuidade e da beleza estética. Os jogos se tornaram lugar de tensão, explosão de ânimo em vez de prazer pela exibição e destreza do jogador. Os rostos dos torcedores revelam durante o desenrolar da partida mais nervosismo que alegria, mais sofrimento que gozo. O prazer só existe quando há vitória e não pelo simples fato de assistir ao jogo. |