Quando nasce o amor 13 de junho de 2010 O Tempo J. B. Libanio A sociedade de mercado não perdoa nenhuma realidade, embora sublime e bela. Transforma-a em mercadoria. Em maio, o dia das mães. Em agosto, o dos pais. Em junho, o dos namorados. Em todas essas relações – materna, paterna e de namoro – a palavra-raiz chama-se amor. Na mãe e no pai, ele amadureceu pela comunicação da vida. No namorado/a está nos inícios. A verdade do amor desafia as culturas, os povos, os poetas, os fundadores de religião, enfim a todos nós. Os gregos e os cristãos trouxeram contribuição singular que merece ser recordada no dia seguinte à memória do amor inicial, cuja grandeza vem de como e para onde se dirige. O amor surge como falta. Quem não sente carência de nada e de ninguém não ama. O ser humano sofre a dor da ausência. Os gregos fizeram recuá-la ao mito do andrógino. Éramos um e fomos cortados pela metade pelos deuses por causa da ambição de escalar os céus e combatê-los. Força enorme de busca. Alguns têm falta de si mesmos. Vivem de si e para si. Todo esse dinamismo se orienta para a própria satisfação. Tudo se transforma em objeto de sua falta. Amam, sim, mas a ninguém exceto a eles mesmos. E quando engatam no namoro, pobre do companheiro/a que só existe no horizonte do próprio gozo e nunca por ele/mesmo/a. Há os que olham para o outro/a e se dizem: ele/a me complementa, me traz gozo. Sinto falta. Aproxima-se na perspectiva do encontro. E se nalgum momento esquecem o outro como outro e acontece algum atrito, brota-lhes de novo a percepção da própria incompletude. Nascemos para viver com outras pessoas e não na solidão egocêntrica. O amor caminha em direção à alegria da presença, como benevolência, complacência. Outro dinamismo nos impulsiona. Há aqueles que se alegram unicamente com o espelho. Veem-se nos outros. Só se comprazem na própria imagem, no próprio eu. Radicalmente narcisista. Infeliz o/a namorado/a que se liga a Narciso. Transforma-se em espelho. Nada mais. Enquanto ele refletir o companheiro, tudo caminha aparentemente a dois. Estão em jogo um ser humano e um objeto. Ou melhor, os dois se tornam objetos. Narciso, ao prender-se unicamente no automaravilhamento, esquece a dimensão humana. Ele e o espelho são um. E espelho é coisa. Existe outro tipo de encantamento. O outro surge na leveza do existir e enche o coração do namorado/a. Esquece-se de si para beber a alegria daquele que está diante. Lindo namoro. Ambos se felicitam pelo simples encontro. A raposa do Pequeno Príncipe alegra-se desde as três quando sabe que ele vem às quatro. O amor raramente sobe ao terceiro andar. Lá mora o agape, o amor que só o Cristianismo conheceu. Vai além da falta, da complacência da presença do outro. Atinge o nível da oferta sem exigir nem mesmo esperar a resposta. Sai de si e basta. Se volta, que felicidade! Se não volta, valeu amar. Nalgum momento esse amor pinta até mesmo entre namorados? Difícil, mas sublime. |