| Artigos: Ética do perdão | |||
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Ética do perdão J. B. Libanio O Tempo – 11 de julho de 2010 Existe uma ética do perdão? Sim e não. Sim. O Antigo Testamento conheceu momentos de evolução dessa ética. Caim assassino de Abel, apesar desse crime, foi selado por Deus de maneira protetora a ponto de porem na boca de Deus a ameaça: “Se matarem Caim, ele será vingado sete vezes” (Gn 4, 15). Por uma morte, sete de volta. À frente, o texto se torna ainda mais contundente, ao revelar pesada justiça vingativa. Põe na fala de Lémek revide desproporcional. “Mulheres de Lémek, aplicai o ouvido ao que direi! Sim, eu matei um homem por um ferimento, uma criança por uma contusão”. “Sim, Caim será vingado sete vezes, mas Lémek, setenta e sete vezes” (Gn 4, 23-24). Isso nos espanta. No entanto, o regime nazista, por soldado morto nas ocupações, assassinava aleatoriamente vários civis. Órgãos de repressão de diversos regimes, por um membro executado, vingavam sobre presos políticos em grau maior. Reinava e ainda reina em certos ambientes a lei do revide ampliado. Nesse contexto, a lei de Talião, “vida por vida, olho por olho, dente por dente” significou avanço ético. Em vários lugares, no Antigo Testamento, ela aparece prescrita por Javé a Moisés para reduzir a violência acrescida (Ex 21, 23ss). Vale para quem causar dano a outro (Lv 24, 20). Com ela se queria desestimular o crime. Assim o povo deixará de fazer o mal, observa o código mosaico. Por isso, não se deve ter pena de trocar vida por vida (Dt 19, 21). A ética consegue ainda dar um passo à frente. Ao perceber que violência gera violência, interrompe-a, não revidando-a. Não se trata, propriamente de perdão, mas simplesmente de fazer cessar o ciclo das vinganças que terminaria afetando a convivência. Os Antigos pensavam que a lei de Talião poria termo ao arbítrio criminoso, dissuadindo-o pelo mesmo castigo que o delinqüente aplicara. A história ensina o contrário. E a ética aprendeu da história e retirou do indivíduo o direito do revide e transferiu-o para a justiça. Quem denuncia simplesmente incumbe a outra instância o julgamento. Mas não entra em questão o perdão. Procedeu, portanto, eticamente sem perdão. Jesus vai mais longe. Ultrapassa a ética com o perdão. Em estilo bem vivo, Mateus descreve situações concretas: oferecer a face a quem nos golpeia, ceder o manto a quem nos toma a túnica, andar o dobro com quem nos força, dar a quem pede emprestado. E termina com elevada proposta, quase inatingível: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem!” Propõe como modelo o próprio Deus que distribui os dons da natureza indiscriminadamente. E conclui de maneira enfática: “Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”. (Mt 5, 38-48). Aí já se deixa longe a ética e entra-se no universo da revelação do projeto amoroso de Deus, da graça, de outro nível de existência inacessível ao ser humano a não ser pelo próprio dom do mesmo Deus. E do perdão nasce uma sociedade de paz e tranqüilidade. |
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