Menu
Login
Codinome:

Senha:



Artigos: As duas faces do esporte  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/7/12
Leituras:
Tamanho:
Página para Impressão Indique a um Amigo
 
As duas faces do esporte
J. B. Libanio

Tempo de copa coloca o futebol no centro da vida da sociedade. E no Brasil ainda mais explicitamente. Organizam-se atividades com olho no calendário esportivo. Jogo do Brasil decreta pausa geral. Expectativa ansiosa. Explosões de alegria ou tristeza conforme os resultados.
O escritor neerlandês, J. Huizinga, celebrizou-se com o livro Homo ludens em que reflete sobre a dimensão lúdica do ser humano. Concebe-a como realidade originária até mesmo anterior à cultura no sentido de que o jogo pertence à própria animalidade. Quem não se deliciou, ao ver dois cachorrinhos brincando? Até parece que estabelecem regras de brincadeira: mordidas sem ferir, pular um sobre o outro sem irritar. Eles se divertem. As crianças pequeninas também inventam mil brincadeiras antes mesmo de falarem.
O jogo faz parte desse espaço lúdico. Aí predominam o gozo, o prazer, a alegria, a gratuidade. Os jogadores levam a sério o jogo para provocar ainda mais graça. Há humor que supõe nível de aparente circunspeção e gravidade. Mas, no fundo, se trata de uma brincadeira. No final, todos riem e saem contentes, com vitória ou derrota. Essa não tem importância senão como ingrediente do divertimento.
Essa face do lúdico nos situa na origem mesma do conviver humano, enquanto seres de sensibilidade, de agilidade, de inventividade. Aí deixamos a origem de animal. Este restringe-se a nível bem primitivo de brincadeira. Nós a sofisticamos cada vez mais. O lúdico desenvolve a imaginação e essa o alimenta. O palhaço, o circo, o teatro e tantas outras formas revelam diferentes facetas dessa riqueza humana.
O esporte, no caso o futebol, pertence, na sua última raiz, a esse mundo do divertimento, da festa, da alegria, do humor, da graça. Ao terminar a partida, vencidos e vencedores partem satisfeitos com a experiência lúdica. Aí se mostra a face humana e prazerosa do esporte.
No entanto, ele tem outra cara. Transformou-se em empresa, em negócio, em jogadas econômicas gigantescas, em publicidade ilimitada. Debruçaram-se sobre ele especialistas de marketing, envolveram-no com ganhos ou perdas astronômicas. Rompeu-se com o mundo da gratuidade. Entrou a competição até a violência. Montaram-se torcidas uniformizadas que travam batalha depois das disputas. Esqueceu-se a fonte originária do lúdico na vida humana.
O tempo da copa presta para refletir sobre essa dupla face do esporte e quem sabe ressuscitar a experiência humana originária. Precisamente aquela que nos leva a reencontrar-nos na inocência da festa, da alegria, da convivência, da brincadeira entre nós. O jogo se desenvolveria então aos nossos olhos como uma orquestra ou baile ou teatro que no final nos humaniza, purifica. Operaria verdadeira catarse interior, aliviando-nos do peso do cotidiano, purgando-nos das cargas afetivas neurotizantes da vida de trabalho, de atividades toleradas e de relações aborrecidas. Estaríamos então descansados para encetar com ânimo a lide diária.


 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
Desenvolvido por ABNEXO