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Artigos: HOMILIA: O OLHAR QUE DESPERTA BELEZA  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/6/20
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UM OLHAR QUE DESPERTA BELEZA

HOMILIA DE J.B. LIBANIO – PARÓQUIA N.S. DE LOURDES

VESPASIANO (MG) – 13.06.2010

(Lc. 7, 36-8,3)

Um fariseu convidou Jesus para jantar. Jesus foi até a casa dele e sentou-se para comer. Naquela cidade morava uma mulher de má fama. Ela soube que Jesus estava jantando na casa do fariseu. Então pegou um frasco feito de alabastro, cheio de perfume, e ficou aos pés de Jesus, por trás. Ela chorava e as suas lágrimas molhavam os pés dele. Então ela os enxugou com os seus próprios cabelos. Ela beijava os pés de Jesus e derramava o perfume neles. Quando o fariseu viu isso, pensou assim: "Se este homem fosse, de fato, um profeta, saberia quem é esta mulher que está tocando nele e a vida de pecado que ela leva."
Jesus então disse ao fariseu:
- Simão, tenho uma coisa para lhe dizer:
- Fale, Mestre! - respondeu Simão.
Jesus disse:
- Dois homens tinham uma dívida com um homem que costumava emprestar dinheiro. Um deles devia quinhentas moedas de prata, e o outro, cinqüenta, mas nenhum dos dois podia pagar ao homem que havia emprestado. Então ele perdoou a dívida de cada um. Qual deles vai estimá-lo mais?
- Eu acho que é aquele que foi mais perdoado! - respondeu Simão.
- Você está certo! - disse Jesus.
Então virou-se para a mulher e disse a Simão:
- Você está vendo esta mulher? Quando entrei, você não me ofereceu água para lavar os pés, porém ela os lavou com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me beijou quando cheguei; ela, porém, não pára de beijar os meus pés desde que entrei. Você não pôs azeite perfumado na minha cabeça, porém ela derramou perfume nos meus pés. Eu afirmo a você, então, que o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados. Mas onde pouco é perdoado, pouco amor é mostrado.
Então Jesus disse à mulher:
- Os seus pecados estão perdoados.
Os que estavam sentados à mesa começaram a perguntar:
- Que homem é esse que até perdoa pecados?
Mas Jesus disse à mulher:
- A sua fé salvou você. Vá em paz.

            Diante desse texto, nós estamos acostumados a ver a grandeza do gesto de Jesus.  Hoje, eu vou tomar outro caminho. Nós precisamos entender um pouco melhor a cultura daquela época para entender mais esse evangelho. Nos dias de hoje, um fato como esse não provocaria grande estranheza, mas no tempo de Jesus, as relações entre homem e mulher, esposo e esposa, eram bastante injustas. Como Moisés sabia que os homens tinham cabeça dura, ele foi muito tolerante. Se uma mulher tivesse qualquer defeito, inclusive físico, o marido poderia rejeitá-la. Acontecia que muitas mulheres eram devolvidas às famílias mesmo depois do casamento, e se os pais já tivessem morrido, não tendo para onde ir, só restava-lhes a rua, a prostituição. Muitas eram mulheres de muito valor intelectual ou espiritual, e os homens não toleravam isso, rejeitavam-nas e zombavam delas. Provavelmente, uma dessas mulheres terá visto aquele Homem andando pela cidade. Claro que não sabia quem era Ele. Viu apenas um jovem, mas percebeu nele algo diferente. Ele não a olhou como se fosse apenas uma coisa, deveria transparecer em seu olhar toda a grandeza que trazia em seu ser, e ela resolveu reencontrá-lo. Ela ficou fascinada, não como as mocinhas de hoje ficam diante de um astro de cinema ou televisão. Certamente era um fascínio totalmente diferente. Hoje os psicólogos falam de resiliência, essa força que as pessoas trazem adormecidas dentro de si e que, quando despertada, pode reconstruir uma vida. Quando nos deparamos com um olhar puro, um olhar grande, nós também achamos diferente, pois olhares medíocres e banais encontramos em quantidade. Olhares densos de realidade são raros e, por isso, nos fascinam.

Aquela mulher não sabia quem era Ele, mas terá ouvido falar que fazia milagres, falava bonito, mas outros também falavam e faziam muitos prodígios. Mas reparem a sua ousadia: soube que Ele estaria ceando na casa de alguém importante e resolve ir lá. Invadir uma refeição no mundo judaico era algo inadmissível, e, principalmente para uma mulher, era impensável. Não podemos sequer imaginar a grandeza e atrevimento dessa mulher. Ela ergueu-se na sua dignidade e lançou-se aos pés de Jesus. Ele era um jovem de trinta e poucos anos, e ela começa a enxugar os seus pés com os próprios cabelos, que também não podiam ser mostrados, e ainda os perfuma com um perfume de grande valor. Que mulher grandiosa!

Voltando um pouquinho sobre o que conhecemos de psicologia, eu diria que em cada um de nós, e nessa mulher mais do que em qualquer outro, existem realidades adormecidas, congeladas. Mas muitos de nós as levaremos para a morte, sem nunca fazê-las crescer e desenvolver. Muitos gênios se perdem, muitas inteligências se frustram, muitas afetividades se encurtam porque nunca encontraram um olhar que as acordassem. Quantos jovens vivem perdidos, porque nunca encontraram um olhar profundo capaz de arrancar de dentro deles o fogo latente?! Ao olhar para aquela mulher, Jesus certamente intuiu o que havia de grande nela e acordou o que dormia no mais profundo do seu ser. Já dizia Saint-Exupèry (*), que cada um de nós carrega uma flor dentro de si, mas essa flor precisa ser cultivada. A maioria das pessoas não a cultiva porque lhes faltou um olhar bonito. Essa mulher encontrou esse olhar. Jesus valoriza todos os seus gestos, pois conhecia o seu coração por dentro, sabia do grande amor que trazia consigo e que poderia lhe salvar. Só quem não ama não se salva.

Diante da força que o olhar de Jesus teve diante daquela mulher, eu me pergunto e pergunto também a vocês: será que na nossa vida Jesus tem a mesma força? Será que Ele consegue acordar em nós a beleza que trazemos de nossas famílias, de nossa cultura e que está adormecido em nós? Será que encontramos no Senhor alguma vitalidade? Será que o olhar de Jesus é capaz de despertar em nós a beleza da verdade, do fulgor que ardia em nossa juventude?

Que cada um de nós possa ouvir hoje Jesus nos dizendo para irmos em paz porque muito amamos. Quem muito ama pode ir em paz! Que tenhamos esse olhar puro, sem medo, transparente, capaz de fazer alguém renascer. Só assim conheceremos a maior alegria que podemos sentir nesta vida: ser olhado e olhar com amor. Amém. (11º. domingo comum)

            (*) escritor francês, autor de “O pequeno príncipe”

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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