| Artigos: Celibato -Pedofilia (Entrevista) | |||
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(junho 2010) 1) Na Sem dúvida. É um tema que é noticia. A mídia vive de "notícia". Mas mesmo assim cumpre um papel de alerta para a sociedade, de conscientização de problemas que são em si graves. 2) Há uma insistência em associar a pedofilia com o celibato. Como o senhor vê isso? Há uma insistência nessa relação por parte da imprensa, mas também têm saído muitos artigos que dissociam as duas realidades. O leitor está atualmente batalhado pelos dois lados. Evidentemente há uma ligação de pessoa. É a mesma pessoa que promete celibato e que prevarica com a pedofilia. Daí facilmente inferir uma causalidade entre o celibato e a pedofilia. Isso não procede como lógica. Já se tem repetido à saciedade que a maioria dos crimes de pedofilia acontece no interior das famílias e muitas vezes cometidos por pais e padrastos. Portanto, nada tem a ver com o celibato. Há uma certa razão de agitar a questão do celibato porque há casos que são de "pedofilia heterossexual". A jovem, embora menor de idade e portanto juridicamente se trate de pedofilia, aparece como uma parceira para realizar uma relação heterossexual normal. Muitas jovens hoje fisicamente já se apresentam muito maduras nesse campo. Psicologicamente considerada, a relação aparece normal, embora legalmente seja criminosa. Nesse caso, a violação seria realmente do celibato sem nenhum traço patológico pedofílico. 3) Como a hierarquia da Igreja Católica deve tratar os padres acusados de pedofilia? Com vigor e ternura, com firmeza e caridade. Vigor e firmeza, afastando-os da proximidade com crianças e, devido a outros riscos, retirando-os do ministério até que se mostrem realmente recuperados. Com ternura e caridade, sem precipitar juízos de consciência, - que só cabem a Deus -, oferecendo-lhes todos os recursos de uma terapia e real recuperação humana. 4) Se ficar comprovado que os padres realmente são culpados, que tratamento eles devem receber da Igreja? Como disse acima, a Igreja deve-lhes um duplo serviço. É para o bem deles e dos fiéis, afastá-los da ocasião de prática tais atos. E oferecer-lhes a ajuda da terapia psico-espiritual. 5) Que tipo de ajuda os padres que têm esse tipo de doença devem buscar? Uma ajuda psicológica e espiritual. Não atribuamos à psicologia uma onipotência que não tem. Nem à espiritualidade, uma capacidade de cura ilimitada. Conjugando ambas, espera-se que a pessoa se recupere ou ao menos encontre uma reconciliação consigo e não perambule pelo mundo quebrada e repudiada por todos. A imagem da Igreja não é a coisa mais importante. Ela existe como sacramento da misericórdia de Deus e não como paraíso dos anjos. Importa é a sua atitude diante desses fatos, conjugando a ajuda, antes de tudo, às vítimas. Não esqueçamos as marcas que as crianças e os adolescentes carregarão por causa dessas práticas. Eles merecem uma primeira e maior atenção. Necessitam de tratamento não só por causa do que ficou, mas também por causa dos problemas provavelmente inconscientes que os poderiam ter levado mais facilmente a tal prática. A vítima da pedofilia pode ser inocente na sua liberdade, mas ter em si traços patológicos anteriores, que necessitam ser tratados. Há um mundo a ser trabalhado psicanaliticamente. Em relação aos pedófilos, a preocupação vai na direção de um cuidado terapêutico e espiritual especial juntamente com o afastamento de situações de risco e de escândalo para o povo de Deus. 7) Que mudanças deve haver na formação dos padres para evitar que Mais oração que televisão, mais teologia que festa, mais cuidado psicológico que tolerância, melhor seleção e acompanhamento dos jovens. 8) Mesmo não tendo ligação com a pedofilia, o celibato prejudica a vida afetiva dos padres? A pergunta condiciona a resposta. Celibato e matrimônio são duas vocações. Toda vez que elas não são vividas sadiamente prejudicam as pessoas. Há muito sofrimento na vida celibatária e na vida matrimonial. Daí não se conclui que estas vidas devam ser abolidas. Mas sim que as pessoas sejam educadas, preparadas e conscientes do que assumem quando abraçam tal vocação. No caso da vida religiosa, a castidade consagrada é uma opção de vida, assumida livremente e independentemente do sacerdócio. Existem irmãos religiosos celibatários. A questão coloca-se para o ministério sacerdotal do padre diocesano vinculado obrigatoriamente ao celibato. É isso que está em discussão. Não entra em questão nem a vida consagrada nem o celibato dos sacerdotes que em qualquer condição desejariam viver celibatariamente. Isso acontece em outras campos. Lembro-me de que me impressionou, como jovem estudante, ao ler vida do grande Secretário da ONU Dag Hammarskjold na época da guerra da Coréia. Ele escolhera o celibato para dedicar-se exclusivamente à ONU. 9) O senhor acredita que algum dia a hierarquia da Igreja poderá dispensar o celibato? Em tudo o que não vem de uma clara e expressa vontade de Jesus na Igreja cabe mudança. A Igreja viveu oficialmente séculos sem conhecer o celibato. Este entrou lentamente por força do exemplo e figura do monge. Tornou-se um ideal de todo sacerdote para ser urgido com maior firmeza a partir do Concílio de Trento no século XVI. Segundo testemunho do Card. D. Paulo Evaristo, o papa Paulo VI estaria disposto a modificar tal prática na Igreja, caso houvesse um consenso maior entre os bispos. O que não foi o caso no seu tempo. Tal consenso se configurará um dia? Difícil dizê-lo. Creio que, se houver um consenso, pesarão mais outras razões que a dificuldade da guarda do celibato. Vejo a mais importante no fato de não termos, com um clero celibatário, condição de oferecer a muitas e muitas comunidades cristãs a celebração da Eucaristia por falta de ministro ordenado. Um duplo clero - celibatário e casado – ofereceria também serviços diversificados na Igreja e enriquecê-la-ia com suas experiências e qualidades próprias. Entretanto, há problemas reais concretos para admitir um clero casado. Qualquer um com um pouco de fantasia é capaz de imaginá-los. Há um peso de razões a favor e contra. Não parece fácil discernir. Esses fatos externos, embora não se tornem a verdadeira causa da mudança, cumprem a função de recolocar o problema a ser pensado num horizonte mais amplo: teológico, pastoral, psicológico. |
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