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Artigos: Celibato -Pedofilia (Entrevista)  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/6/2
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Entrevista com João Batista Libanio

 

Celibato - pedofilia

 (junho 2010)

 

1) Na opinião do senhor, houve sensacionalismo por parte da imprensa na divulgação das denúncias de padres que podem estar envolvidos com pedofilia?

Sem dúvida. É um tema que é noticia. A mídia vive de "notícia". Mas mesmo assim cumpre um papel de alerta para a sociedade, de conscientização de problemas que são em si graves.

2) Há uma insistência em associar a pedofilia com o celibato. Como o senhor vê isso?

Há uma insistência nessa relação por parte da imprensa, mas também têm saído muitos artigos que dissociam as duas realidades. O leitor está atualmente batalhado pelos dois lados. Evidentemente há uma ligação de pessoa. É a mesma pessoa que promete celibato e que prevarica com a pedofilia. Daí facilmente inferir uma causalidade entre o celibato e a pedofilia. Isso não procede como lógica. Já se tem repetido à saciedade que a maioria dos crimes de pedofilia acontece no interior das famílias e muitas vezes cometidos por pais e padrastos. Portanto, nada tem a ver com o celibato. Há uma certa razão de agitar a questão do celibato porque há casos que são de "pedofilia heterossexual". A jovem, embora menor de idade e portanto juridicamente se trate de pedofilia, aparece como uma parceira para realizar uma relação heterossexual normal. Muitas jovens hoje fisicamente já se apresentam muito maduras nesse campo. Psicologicamente considerada, a relação aparece normal, embora legalmente seja criminosa. Nesse caso, a violação seria realmente do celibato sem nenhum traço patológico pedofílico.

3) Como a hierarquia da Igreja Católica deve tratar os padres acusados de pedofilia?

Com vigor e ternura, com firmeza e caridade. Vigor e firmeza, afastando-os da proximidade com crianças e, devido a outros riscos, retirando-os do ministério até que se mostrem realmente recuperados. Com ternura e caridade, sem precipitar juízos de consciência, - que só cabem a Deus -, oferecendo-lhes todos os recursos de uma terapia e real recuperação humana.

4) Se ficar comprovado que os padres realmente são culpados, que tratamento eles devem receber da Igreja?

Como disse acima, a Igreja deve-lhes um duplo serviço. É para o bem deles e dos fiéis, afastá-los da ocasião de prática tais atos. E oferecer-lhes a ajuda da terapia psico-espiritual.

5) Que tipo de ajuda os padres que têm esse tipo de doença devem buscar?

Uma ajuda psicológica e espiritual. Não atribuamos à psicologia uma onipotência que não tem. Nem à espiritualidade, uma capacidade de cura ilimitada. Conjugando ambas, espera-se que a pessoa se recupere ou ao menos encontre uma reconciliação consigo e não perambule pelo mundo quebrada e repudiada por todos.
6) Até que ponto a imagem da Igreja Católica é prejudicada com essas denúncias de pedofilia?

A imagem da Igreja não é a coisa mais importante. Ela existe como sacramento da misericórdia de Deus e não como paraíso dos anjos. Importa é a sua atitude diante desses fatos, conjugando a ajuda, antes de tudo, às vítimas. Não esqueçamos as marcas que as crianças e os adolescentes carregarão por causa dessas práticas. Eles merecem uma primeira e maior atenção. Necessitam de tratamento não só por causa do que ficou, mas também por causa dos problemas provavelmente inconscientes que os poderiam ter levado mais facilmente a tal prática. A vítima da pedofilia pode ser inocente na sua liberdade, mas ter em si traços patológicos anteriores, que necessitam ser tratados. Há um mundo a ser trabalhado psicanaliticamente. Em relação aos pedófilos, a preocupação vai na direção de um cuidado terapêutico e espiritual especial juntamente com o afastamento de situações de risco e de escândalo para o povo de Deus.

7) Que mudanças deve haver na formação dos padres para evitar que
portadores dessa doença se tornem sacerdotes?

Mais oração que televisão, mais teologia que festa, mais cuidado psicológico que tolerância, melhor seleção e acompanhamento dos jovens.

8) Mesmo não tendo ligação com a pedofilia, o celibato prejudica a vida afetiva dos padres?

A pergunta condiciona a resposta. Celibato e matrimônio são duas vocações. Toda vez que elas não são vividas sadiamente prejudicam as pessoas. Há muito sofrimento na vida celibatária e na vida matrimonial. Daí não se conclui que estas vidas devam ser abolidas. Mas sim que as pessoas sejam educadas, preparadas e conscientes do que assumem quando abraçam tal vocação. No caso da vida religiosa, a castidade consagrada é uma opção de vida, assumida livremente e independentemente do sacerdócio. Existem irmãos religiosos celibatários. A questão coloca-se para o ministério sacerdotal do padre diocesano vinculado obrigatoriamente ao celibato. É isso que está em discussão. Não entra em questão nem a vida consagrada nem o celibato dos sacerdotes que em qualquer condição desejariam viver celibatariamente. Isso acontece em outras campos. Lembro-me de que me impressionou, como jovem estudante, ao ler vida do grande Secretário da ONU Dag Hammarskjold na época da guerra da Coréia. Ele escolhera o celibato para dedicar-se exclusivamente à ONU.

9) O senhor acredita que algum dia a hierarquia da Igreja poderá dispensar o celibato?

Em tudo o que não vem de uma clara e expressa vontade de Jesus na Igreja cabe mudança. A Igreja viveu oficialmente séculos sem conhecer o celibato. Este entrou lentamente por força do exemplo e figura do monge. Tornou-se um ideal de todo sacerdote para ser urgido com maior firmeza a partir do Concílio de Trento no século XVI. Segundo testemunho do Card. D. Paulo Evaristo, o papa Paulo VI estaria disposto a modificar tal prática na Igreja, caso houvesse um consenso maior entre os bispos. O que não foi o caso no seu tempo. Tal consenso se configurará um dia? Difícil dizê-lo. Creio que, se houver um consenso,  pesarão mais outras razões que a dificuldade da guarda do celibato. Vejo a mais importante no fato de não termos, com um clero celibatário, condição de oferecer a muitas e muitas comunidades cristãs a celebração da Eucaristia por falta de ministro ordenado. Um duplo clero - celibatário e casado – ofereceria também serviços diversificados na Igreja e enriquecê-la-ia com suas experiências e qualidades próprias. Entretanto, há problemas reais concretos para admitir um clero casado. Qualquer um com um pouco de fantasia é capaz de imaginá-los. Há um peso de razões a favor e contra. Não parece fácil discernir. Esses fatos externos, embora não se tornem a verdadeira causa da mudança, cumprem a função de recolocar o problema a ser pensado num horizonte mais amplo: teológico, pastoral, psicológico.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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