| Artigos: HOMILIA: A LUZ QUE SAI DE MIM E NÃO VOLTA | |||
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A LUZ QUE SAI DE MIM E NÃO VOLTA HOMILIA DE J.B. LIBANIO – PARÓQUIA N.S. DE LOURDES VESPASIANO (MG) – 02.05.2010 Jo 13,31-33a.34-35 Quando Judas saiu, Jesus disse: Particularmente, nesse trecho do evangelho, João foi finíssimo. Reparem que, enquanto Judas estava entre eles, o coração de Jesus estava preso, e Ele não pôde ensinar a coisa mais bonita. Só depois que Judas se retira – que maravilhoso pormenor! –, vai nos dizer que amássemos uns aos outros como Ele nos tinha amado. Se Jesus falasse isso enquanto Judas estava presente, soaria um tantinho falso. Judas sai, o seu coração se abre, e a glória pode se manifestar. Só aí Ele pode dizer esta frase, que é uma verdadeira revolução na história de nossa cultura: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei!”. É importante saber que, na tradição bíblica, glória não tem o mesmo sentido mundano que conhecemos. Glória é a manifestação externa da santidade interior. Quem não tem santidade interior não tem glória nenhuma, porque não tem nada verdadeiro para mostrar. Se eu não tenho interioridade, a minha exterioridade é mentirosa e, sendo mentira, não é glória. Essa é uma revelação do Antigo Testamento que Jesus vai agora concretizar. Ele, sim, podia ser glorificado, porque manifesta-nos a imensa santidade de Deus, que consiste em nos dizer que devemos amar-nos uns aos outros como Ele nos amara. A coisa vai ficando mais séria porque, para Jesus, amor não tinha esse conceito popularizado que nós conhecemos. Por isso, Ele não diz que devemos simplesmente nos amar, mas que devemos nos amar como Ele nos amou, e não de uma maneira qualquer. Inúmeras vezes já lhes falei que a nossa cultura conhece três palavras para designar o amor, e que o cristianismo coroou o amor. Os gregos – que tinham a cultura mais avançada do Ocidente – conheceram o amor apenas em dois níveis. Eles achavam que amar era sentir falta do outro. Isso todos nós sabemos, pois sentimos falta – e nós, brasileiros, sentimos saudade – quando um esposo viaja, um filho vai estudar fora. É um sentimento bonito que o arrogante, o autossuficiente é incapaz de ter, mas ainda é o primeiro nível do amor, muito rasteiro, que eles chamam de eros, que nada tem a ver com o nosso erótico. Para o grego, eros é uma palavra bonita, transparente. Nós é que sujamos o erótico, colocando-o como uma coisa perversa. O grego vai adiante e fala de um outro amor mais bonito. Filia é o segundo nível, bem diferente. Já não fala mais de sentir falta, mas se alegrar pela presença do outro. Isso nós deveríamos ter para com todo o mundo, pois na nossa língua portuguesa, filia deu Jesus vai ainda mais adiante e dá um salto. Quando Judas sai, Ele se sente a vontade para ensinar aos apóstolos o grande amor. Será que nós somos capazes? Jesus fala do amor-gratuidade, aquele que sai e não espera a volta. Se o namorado não telefonar, não tem importância; se um amigo não responder a um cartão, fico feliz apenas por tê-lo mandado; ajudei um necessitado, ele não agradeceu, alegro-me por ter sido útil. A gratuidade é a luz que sai de mim e não volta, porque não precisa voltar. Ela se expande e por isso é glória. A festa, a glória é justamente isto: sair de dentro e nada mais. Isso é para poucos! É a mãe que continua amando o filho ingrato, que vai visitá-lo nos presídios, independentemente dos crimes horrorosos que ele praticou. Amar um filho criminoso, na mais pura gratuidade, é o verdadeiro amor. O resto ficar nos andares de baixo. É a capacidade de olhar em qualquer situação, de alegria ou tristeza, vida ou morte, e continuar amando. É raríssimo! Esperamos sempre a retribuição na mesma quantidade. Queremos receber igual, e o amor não é igualdade, mas singularidade. Somos tão criados no comércio, tão acostumados à troca, que sempre esperamos o retorno. Vivemos no mundo da recompensa e, por isso, dificilmente descobrimos essa dimensão do amor. O verbo amar não precisa complemento. Se precisarmos de uma razão para amar, ainda não chegamos a esse nível do amor. O amor não precisa de nenhum motivo, a não ser ele mesmo. Se amarmos por qualquer razão, quando essa razão desaparecer, levará junto o amor. O amor sai de si, expande-se e não precisa de nada mais do que ele. O mais trágico do ser humano é que queremos razões para amar. Termino com o grau mais alto e também o mais difícil. Quem consegue chegar a esse grau perdoa. É Jesus que, na cruz, vê todos aqueles soldados torturando-o, escarnecendo-o, e diz: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!”. A Judas, que o traia, chama de amigo. Por isso, Ele esperou que Judas saísse. Todos nós trazemos um Judas escondido dentro e, se ele não se retirar, seremos incapazes de amar, pois ele nunca nos deixará entenderá a gratuidade, o perdão e sempre nos fará medir nossos amores, como se eles coubessem numa régua. Essa é a razão de nossos amores e matrimônios terminarem, pois cada um guarda o seu caderninho para avaliar se as contas estão no mesmo nível. O infinito não se mede, amor não tem conta, porque participa do infinito. Perdoar é ainda não querer a morte do outro, não é simplesmente dizer que perdoa, pois isso qualquer papagaio pode dizer. Perdoar é não querer que o outro morra, mas que viva. Por isso, quando não conseguimos perdoar, matamos, e às vezes nem matamos com armas, mas matamos dentro do nosso coração, odiamos, queremos que ele seja nada. Por aí podemos medir, todo o resto é ilusão de televisão, de canções românticas, de namoricos de praça. Nada disso têm consistência se não há falta, se não há alegria pelo outro, se não há capacidade livre e gratuita de dar amor e perdoar. Se entrarmos por aí, conheceremos a estrada do amor. Amém! (5º. Domingo da Páscoa) |
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