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Artigos: Palestra (Dom Helder): “O Dom, Profeta da Esperança”  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/5/10
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“O Dom, Profeta da Esperança

Palestra proferida na Jornada Teológica Dom Helder Camara

Recife - 25/08/2009 ­

J. B. Libanio:

                   Boa noite para todos e para todas. É um prazer conhecer o novo arcebispo do  Recife, Dom Fernando. no Sul a repercussão de sua nomeação foi também muito grande. Os grandes jornais, O Estado de São Paulo e outros, deram relevante destaque à sua posse. Sinto-me alegre e feliz de estar nessa Igreja. Quando uma Igreja se alegra aqui na terra, a Igreja maior, a Igreja grande, a Igreja que está na plenitude, alegra-se também.

um dogma que trabalhamos muito pouco que é o da comunhão dos santos. Recitamos no Credo e talvez não saibamos entender muito bem o que é isso. Creio na comunhão dos santos e logo passamos à frente, creio na vida eterna e amém. É um dogma muito bonito porque é a comunhão dos santos. Paulo, quando escrevia aos cristãos, chamava-os todos de santos. É a comunhão de todos nós que um dia fomos batizados. No batismo recebemos a graça que ocupa grande espaço existencial. Os habitantes do céu levaram a santidade até a plenitude. Um grande teólogo, que foi nomeado cardeal, mas morreu antes de receber o chapéu,  Hans Urs von Balthasar, dizia uma frase muito simpática: “A Igreja ensina a existência do inferno, então eu acredito nele, mas espero que esteja vazio”. Esperar podemos.

Falemos da esperança. Dom Helder é o profeta da esperança. Sabem que a esperança, meus irmãos, não é algo tão fácil hoje. Fala-se muito que nós vivemos um momento baixo de esperança, por isso é bonito ver que a cidade do Recife vive um momento alto, quase na contramão da história.

Por que dizemos que vivemos um momento de baixa de esperança? Darei vários exemplos. Vocês perceberão onde está essa baixa da esperança e como é importante falar dela. Falemos então de Dom Helder profeta da esperança.

Primeiro é o seguinte: houve uma grande decepção com as utopias. O que são utopias? São os grandes sonhos que a humanidade tem. Veio Hitler sonhou com uma Alemanha grande  e dizia  Deutschland über alles:  Alemanha acima de tudo! Então os alemães embarcaram no sonho de Hitler e isso terminou em quê? Naquela terrível guerra, seis milhões de jovens soldados mortos, vinte milhões de russos mortos, sessenta milhões de mortos na Europa. Desaparece toda essa utopia nazista. Mussolini embarca na mesma nau, imaginou uma utopia de grandeza para a Itália. Também foi um desastre e assim por diante. O socialismo apresentou a grande utopia da fraternidade universal. Em 1989 desmorona o socialismo real. O sandinismo animou muita gente aqui na América Latina e depois terminou na corrupção. No Brasil vivemos momento muito bonito de utopia e de repente veio aquele desânimo geral, Hoje sofremos crise muito forte na política, começando pelo Senado.  Vocês se lembram daquelas grandes passeatas pelas Diretas-já? em Belo Horizonte um milhão e quinhentas mil pessoas andaram pela Av. Afonso Pena, pedindo eleições diretas, acreditando no poder político e agora curtimos um momento de baixa. Há perda grande de esperança no mundo de hoje.

Outra razão mais profunda.

Esperar é desejar uma coisa que não podemos realizar logo. De repente, chega a tecnologia e diz-nos: posso fazer tudo, prá que esperar?  No fundo, é deixar prá mais tarde que a tecnologia resolve. Isso não é esperar. Porque se espera algo novo, diferente.Vocês não esperam receber o salário no fim do mês. Isso não é esperança, é planejamento. Vocês não esperam, por exemplo, que depois de um ano de trabalho tenham um mês de férias. Isso não é esperar.  Em português, usamos o verbo esperar em dois sentidos: de esperança e de aguardar. Nós aguardamos as coisas que se sucedem. Esperamos, porém, aquilo que ultrapassa o nosso momento histórico. Então a tecnologia diz: vocês não precisam esperar nada, nós faremos tudo! Agora existe um aparelhinho chamado celular. Você o pessoal na rua com ele colado ao ouvido. Antigamente eu pensava que a pessoa que falava sozinha estava louca. Agora estou vendo tanta gente falando sozinha na rua. Algo mudou. Vejo você a falar sozinho, alto, então, de repente, olho e há um trenzinho, como diz o mineiro, bem junto à orelha. E hojecelulares que têm um monte de coisas: computador, recebe  e-mail,  pode marcar os vôos, etc.. Há uma quantidade enorme de possibilidades novas e esperar para quê?  É aguardar.

A tecnologia, as falências dos sistemas políticos e econômicos, o neoliberalismo com esse cassino terrível  - que levou o mundo quase a uma hecatombe no ano passado -, minaram a esperança.

Há uma razão filosófica mais profunda. Reflitamos.

O filósofo francês André Comte-Sponville diz algo provocante: “A esperança é a fonte de infelicidade”. Por que a esperança é uma fonte de infelicidade?  Vejam bem, depois eu vou corrigir, não levem essa idéia para casa, não. Dom Helder fazia tudo ao contrário.

Por quê? Porque é o seguinte: esperar é não poder, quem não pode, espera. Eu espero que, quem sabe, no ano talacontecer isso, porque não posso fazer acontecer, se eu pudesse  fazer, não esperaria, simplesmente aguardaria. Aquilo que você faz, você não espera. Você não espera fazer arroz em casa, espera? Espera fazer feijão em casa? Não espera. Você pode fazer, você sabe fazer. Então se diz: esperar é para quem não pode, portanto é para gente fraca.

Esperar é não saber. Olhem que coisa estranha, olhem o exemplo que ele dá: vamos imaginar que você tem um amigo nos Estados Unidos. Você recebe um e-mail que lhe diz: fulano vai ser operado. Você escreve para a esposa dele: “espero que a operação seja um êxito”. Você espera, porque não sabe. E se acontecer que quando chegar  o e-mail, ele morreu. Por que você espera que a operação seja muito boa, se ele morreu? Porque você não sabia. Se você soubesse, escreveria de outra maneira: dando os pêsames.

A razão mais contundente é: “Esperar é não usufruir”. Eu espero que amanhã eu seja feliz! Mas você não o é. Eu espero que daqui a dez anos ..., mas você não sabe se daqui a dez anos você estará vivo. Então esperar é prolongar , colocar fora do real, aquilo que nós queremos. Por isso, esperança é algo que não vale a pena. Muita gente pensa assim hoje e a famosa, entre aspas, “pós-modernidade”, prega tal lição. As novelinhas “espirituaisque vocês veem na Globo, no fundo, passam a ideia de que a única coisa importante é gozar, usufruir o presente, porque o resto não existe. Então existe o presente, o famoso presentismo. Ora, se existe o presente, não preciso esperar. Reparem bem, existe presente, porque não existe futuro.  O presente sei o que é. Ah, o futuro, não sei.

Vocês notaram que os jovens até mudaram os verbos? Antigamente, os senhores, as senhoras que têm mais idade de casados, quando eram jovens, diziam: “vou namorar fulano de tal”, “Essa é minha namorada”. Agora não, dizem os jovens: “vou ficar”, “fiquei”. Pensaram na profundidade dessa mudança? Ficar é uma coisa passageira, namorar é uma coisa prolongada. Estamos vivendo uma cultura em que está morrendo a esperança.

Por esta razão, a figura de Dom Helder é importantíssima, mais importante ainda do que quando ele estava vivo. Agora é que temos de cultivar e fazer nascer a esperança. E como é que definiria esperança? Vou dar uma definição um pouquinho diferente da do catecismo, que é muito bonita. Vejam: “Esperar é crer no amor para além desta vida”. É crer. A esperança é a ponte entre o crer e o amar. Quando lanço uma ponte entre crer e amar, espero, creio no amor. E amor ultrapassa o tempo.

Não sei se vocês conhecem um teólogo famoso, vou citá-lo: Joseph Ratzinger. Conhecem-no? ouviram falar dele?

Muitos anos atrás, li um livro muito bonito escrito por ele: Introdução ao Cristianismo.  Ele foi reeditado agora pelas Edições Loyola. ele fazia três afirmações, não exatamente dessa maneira que vou formular. A frase original é um pouquinho mais complicada. Mas a idéia é dele. De maneira mais simples, ele disse assim: “O amor quer eternidade. O amor faz eternidade. O amor é eternidade”.  Que  beleza! Não dizemos frequentemente: Eu te amo por toda a vida?

Quando amamos, fazemos uma experiência que ultrapassa o tempo e o espaço. Pensem nisto. Portanto, de eternidade.

Vocês repararam que São João, muitas vezes, usa o verbo no indicativo presente  - “Aquele que crê tem vida eterna”. Não diz que terá, notaram isto? Na gramática, indicativo presente se refere a algo que existe?  Ele fala assim, porque o amor é eternidade.

A esperança é crer no amor que é eternidade. Agora em relação a Dom Helder. Ele é alguém que creu no amor. E ao crer no amor, ele creu numa realidade que ultrapassava aquele momento que ele estava vivendo.

                   Ao falar da luz, da água, do Deus criador, do silêncio, da meditação, mergulhamos no mistério infinito e eterno de Deus. Em toda relação que tivermos com Deus, por minimazinha que seja, tocamos a eternidade, porque Deus é eterno. Não somos tempo. Não somos apenas corpo e alma. Somos corpo, alma e espírito. Enquanto corpo, estou aqui. Enquanto alma, eu me relaciono com vocês aqui. Enquanto espírito, posso pensar, sonhar com o infinito, caminhar sem parar. Não existe limite nenhum,  porque sou espírito.

Dom Helder era alguém que irradiava espírito. Com aquele corpo pequeno, frágil, com aquela afetividade expansiva, ele era eminentemente espírito, porque sonhava horizontes infindos.

Escolhi duas frases, a modo de epígrafe, para caracterizar a pessoa de D. Helder. Uma fui buscar no meu fundador, Santo Inácio, e outra num italiano, vítima da Inquisição: Giordano Bruno.

Um autor desconhecido do primeiro século da Companhia de Jesus, quando quis definir Santo Inácio, forjou a seguinte frase: Non coerceri a maximo, contineri tamen a minimo, divinum est. Para mim é uma bela definição de Dom Helder. “Não deixar-se coibir, guardar-se, limitar-se, nem pela maior coisa, mas conter-se na menor, é divino”.

Quando D. Helder estava naquele quartinho, apertadinho, na Igreja das Fronteiras, sua mente se expandia pelo mundo inteiro. Sonhava com o que ia falar no Japão, em Paris, nos Estados Unidos, na Holanda. Não se deixava limitar nem pela maior coisa. Nada o retinha, nada o limitava, nada o prendia, nada o fazia ficar parado naquele lugar. Ele estava ali, mas estava com o espírito numa espécie de biruta, girando, girando, girando, captando todas as ondas do mundo inteiro.

 Doutro lado, nesse vagar sem limites, ele era capaz de caber na menor coisa, de olhar para um pobre, de conversar com ele, de gastar tempo com ele, de cuidar dele, de sanar-lhe a ferida. Essa é a dialética de Dom Helder, por isso ele era fascinante. Se ele fosse grandioso, tivesse grandes sonhos, ele ficaria um pouco acima de nós. Ele gosta das alturas, de nuvem, bem alta, mas também é nuvem que chove. Enquanto nuvem está alto, enquanto chuva molha a terra. Ele caminhava com um olhar a captar o infinito e, de repente, parava, olhava para essa pessoa, um pobre, um necessitado. Existe cena semelhante no filme “O Santo Rebelde”. Ele se senta no chão e as crianças o envolvem. Ele, feliz, no meio de tantas crianças. Fazendo o quê? Que tempo perdido, conversando com aquelas criancinhas que nem sabem quem é Dom Helder direito, gastando o tempo dele em vez de falar com a Rainha da Bélgica, que era sua amiga, em vez de visitar o cardeal Suennens, o grande cardeal, com quem privava, em vez de ter audiência com Paulo VI, que era seu amigo. Ei-lo a brincar com as crianças. Que perda de tempo! Não, não era perda de tempo. Ele era capaz de cuidar do pequeno e amanhã estar no Vaticano conversando e dando até conselhos para o papa.

Posso contar  dois conselhos que Dom Helder deu ao Papa Paulo VI. Em audiência com o Papa, perguntou-lhe se lhe podia dar dois conselhos. Paulo VI sorriu e disse: - sim. D. Helder retrucou: - “Primeiro, o senhor deixe esse palácio e entregue-o para a UNESCO cuidar dele e vá morar num lugarzinho mais simples na cidade de Roma. Segundo, o senhor reúna na Basílica do Vaticano todos os núncios, dê-lhes uma grande benção, agradeça-lhes os serviços e dispense-os a todos”.

Entendam bem a idéia, D. Helder não queria desprezar  os núncios, isso não. Ele sonhava com uma Igreja muito mais colegial de modo que a colegialidade dos bispos tratasse dos problemas de suas regiões. , Não chegamos ainda . Quem sabe, um dia o papa dirá: - “agora não precisamos mais de núncio no Brasil porque os bispos do Brasil estão tão bem organizados, eles dialogam tão bem com todas as realidades,  que não precisam mais  alguém que me represente. Eles o fazem colegialmente”. Não é, portanto, no sentido de desprezar e de ser contra o núncio. Sonhou muito na frente. Nesse sentido chamo a atenção para essa dimensão de grandeza de Dom Helder que não se deixava coibir nem pela maior coisa e cabia na menor.

Uma outra frase me impressionou. Quando morava em Roma, eu fui várias vezes, naturalmente, ao chamado Campo dei Fiori. É uma praça em que há uma estátua, de Giordano Bruno. Foi um pensador italiano queimado pela inquisição no ano 1600, portanto no início do século XVII. No pedestal estava escrita a seguinte frase: A Bruno: Il secolo da Lui divinato qui dove il rogo arso”: “A Bruno: o século que ele adivinhou aqui onde o monte de lenha ardeu”. Percebo nessa frase uma descrição de Dom Helder a quem o século XXI, que ele adivinhou, aqui no Recife ele ardeu de amor. Aqui no Recife, naquela casa pequeninazinha, onde ele morava, o coração dele ardia. Ardia de quê? De anunciar o que viria de belo no século presente.

Claro, Giordano Bruno ardeu mais terrivelmente porque foi queimado. Dom Helder ardia de zelo, de amor, de preocupação com o mundo. Então eu acho que essas duas frases servem para descrever um pouco a sua pessoa.

Direi algumas poucas idéias sobre D. Helder. Quem sou eu para ensinar o Pai Nosso ao vigário. Falar de Dom Helder no Recife, eu, mineiro vindo das Minas Gerais, parece uma pretensão.

Tive contatos com Dom Helder aqui no Recife. Coube-me a alegria, até digo-o todo envergonhado, de pregar retiro para o clero daqui com a presença dele. Imaginem-me pregando retiro: Dom Helder sentadinho, piedosamente tomando nota. Encontrei-o várias vezes em Roma, quando morava. Pude admirar-lhe a capacidade de articulação. Depois li vários de seus escritos. E, agora, por ocasião do centenário, procurei me enfronhar em sua obra.

Ele é um homem-esperança. Comecemos por seu próprio nome e apelidos. Primeiro Helder, vocês sabem o que significa Helder? Quando ele era criança, um padre holandês disse-lhe: “Helder, que nome bonito! Significa sem nuvens, límpido, sem complicações. Isso, no mundo de hoje, é uma esperança: um homem límpido, transparente. Que é o que nós mais queremos do que transparência num mundo todo cheio de fingimento, de tanto parecer vazio, de tanta maquiagem?  Dom Helder batalhou pela limpidez, transparência, sem complicações.

O papa  João Paulo II o chamou “Irmão dos pobres”. Que coisa bonita! Que maior esperança do que ser irmão dos pobres? Estar ao lado deles, carregar-lhes os problemas, a vida, as experiências?

Bispo das favelas”. Vejam que coisa mais bonita! Ele ia com aquela batininha branca, surrada, percorrendo as favelas, feliz, subindo, pulando, saltitando daqui pra .

Voz dos sem-voz. Esse foi um momento de muita esperança para Dom Helder. Eu vim na viagem lendo o livro sobre o qual o frei Betto lhes falou: O Diário de Fernando. Pesado, dói ler aquele livro, dói, dói mesmo. É o diário da prisão do frei Fernando, companheiro de Betto, de Ivo e de Tito. Três deles foram barbaramente torturados. Naquele período, Dom  Helder peregrinava pelo estrangeiro porque ele não podia falar no Brasil  nem podiam mencionar seu nome na imprensa. O regime militar decretou-lhe morte civil. É como se ele não existisse para o país. Na França, na Alemanha e em tantos outros lugares discursava corajosamente, consciente do risco que corria de atentado e até de morte por meio de algum acidente aparentemente fortuito. É tão fácil matar uma pessoa hoje e naquela época ainda mais porque não havia nenhuma fiscalização. Ele foi a voz daqueles que não podiam falar, que estavam presos, torturados. Ele gritava no estrangeiro. Fazia soar a voz dos pobres em todo lugar por onde passava.

Advogado do Terceiro Mundo.  Isso é interessante. Pois, o Terceiro Mundo não tem advogados para defendêlo enquanto o Primeiro Mundo está cheio deles e de pessoas que defendem seus interesses, seus direitos. As leis comerciais favorecem o Primeiro Mundo. Dom Helde, pelo contrário,  era advogado daqueles que não tinham advogado para defendê-los.

Profeta da Igreja dos pobres. É o tema que tratou ontem o meu primo, Frei Betto.

Apóstolo da não violência ativa. Essa foi uma das grandes causas de Dom Helder. Defendia a não-violência ativa. , em Belo Horizonte, tivemos um simpósio sobre Dom Helder e o Dom José Maria Pires fez uma conferência. Nela contou-nos um fato pitoresco, desconhecido para a maioria de nós. Talvez vocês o conheçam. Estavam os bispos do Nordeste reunidos e, no meio da reunião, chegou a notícia de que numa cidade ali perto, de cujo nome não me lembro, os fazendeiros tinham soltado o gado em cima de plantações dos pobrezinhos que possuiam pequenas glebas. O gado entrou nelas e começou a comer, pisar, destruir as plantações. Então Dom Helder interveio: “não podemos continuar a nossa reunião com o nosso povo sofrendo. Temos que ir ”. Então foram quatro bispos, se não me engano: Dom José Maria Pires,  Dom Helder , mais outros dois. Dom Helder chega, cumprimenta os policiais¸ sorri pra eles e vai entrando no terreno. Os soldados advertem:  – “não, não podem entrar, não”. E Dom prossegue: – “Não, não tem problema, não” e vai entrando onde está o gado, pega uma varinha e começa a empurrar as vacas, sem violência nenhuma. Os outros bispos se juntam e se vão os quatro juntos empurrando as vacas até pôr todo o gado para fora das plantações diante dos soldados estupefatos, sem saberem o que fazer. É fantástico isso!  É um profeta da não-violência ativa. No final, os soldados ainda pediram a bênção a Dom Helder. Isto é Brasil!

Bispo vermelho. Foi chamado várias vezes de bispo vermelho, bispo comunista. Ele mesmo brincava muito com isso. Uma vez ele pregava e dizia “porque o ecumenismo, cuidado, é ecumenismo, não é comunismo não, vão pensar que estou falando do comunismo” . Ele era considerado tal, por quê? Ele mesmo disse: “Se eu desse simplesmente um copoágua a um pobre iam me chamar de santo, mas quando eu defendo a causa dos pobres me chamam de comunista”. Não era mero assistencialista, tinha uma visão, queria realmente o que Paulo Freire trabalhara aqui no Nordeste, que o povo se conscientizasse. E numa das palestras que fez na França, disse: – “Vou dizer uma palavra muito importante “conscientisation”, e explicou-a para que os europeus a entendessem.

                   E uma vez um grupo de brasileiros foi a um país do Leste europeu  e perguntou aos comunistas de : “como é que vocês fazem educação aqui?” E um rapaz retrucou, surpreso: “mas vocês brasileiros perguntando isso?  Seguimos Paulo Freire”, e ficaram todos envergonhados. E Dom Helder foi à  Europa falar dessa temática. Por isso era considerado bispo vermelho.

E outros pseudônimos mais:  Padre José, o Dom,  Irmão Francisco.

E uma última idéia, tomada do Pe. Comblin, que eu achei muito interessante. Ele chamou Dom Helder de um bispo do Terceiro Milênio. Por quê? Porque colocou a evangelização como mais importante do que a administração. O bispo, como evangelizador, deve preceder ao bispo que é organizador. Não pode deixar a administração, mas primeiro está a evangelização. Dom Helder  colocava realmente a evangelização como primeira missão. Aliás, como Jesus, não é? Marcos 1,14 nos narra  como Jesus veio para a Galiléia, proclamando a Boa-Nova de Deus. Nesse sentido, D. Helder não foi bispo no estilo tridentino, um bispo reformador.

Santo Agostinho se pergunta: “Amamos as coisas por que elas são belas ou elas são belas por que amamos?”  São as duas coisas. Quando amamos, transformamos as realidades em beleza e a beleza nos faz amar mais. As pessoas artistas têm uma capacidade de amar muito grande. E, como vimos, que é a esperança senão crer no amor? Quem confia e crê no amor, espera. Então quem acredita na beleza, espera. Estou cada dia mais convencido que uma das armas, com perdão da comparação de usar arma para isso, um dos maiores recursos para superarmos a violência é trabalhar o estético e a festa, como essas crianças que se apresentaram aqui. Além da beleza e do lúdico, temos o sentido religioso da vida. Essas três realidades são altamente humanizantes. Trata-se do lúdico, não do esporte sem mais, sobretudo este que se funda na competição. O que nos humaniza são o lúdico, a brincadeira, a alegria de estarmos juntos. Até os cachorrinhos, os gatinhos brincam! Quanto mais nós, seres humanos. As crianças estão próximas do humano, porque brincam. E elas se humanizam assim e sendo cercadas de beleza. O que mais desumaniza? A sujeira, a feiúra, a competição, a violência, a falta de sentido.

Dom Helder era um especialista em humanidade. De onde me veio essa imagem? De Paulo VI. Claro, vocês são jovens, nasceram ontem, não se lembram mais de Paulo VI. Paulo VI foi um papa (risos), que morreu faz mais de três décadas. Uma digressão. Uma vez conversava com uma senhora e seu filho nos observava. Depois de um tempo, disse: “vocês conversam em décadas”. De fato, quanto mais avançamos em idade, mais nos referimos a fatos de décadas passadas. Voltando ao assunto: quando Paulo VI falou na ONU, algo absolutamente inédito na história dos papas, ele se apresentou como: especialista em humanidade. Humanidade no sentido clássico da palavra: de valores humanos, de bondade, de justiça , de solidariedade. Chamamos então de humanidade esta parte boa que temos, o nosso lado melhor. Paulo VI quis dizer que ele vinha, não para salientar o nosso lado de pecado, mau, mas de valor, de bondade. E tal afirmação define muito bem a pessoa de Dom Helder.  Ele tinha essa sensibilidade de perceber as pessoas pelo lado de seu valor, de sua dignidade, merecedoras de respeito.

Dom Helder sábio. Outra grande virtude! E por que o sábio desperta esperança?  O que mais nos tira a esperança, sabem o que é? É não trabalhar o passado a fim de iluminar o presente e abrir perspectivas de futuro. Não sei se aquiprofessores de colégios. Teria uma sugestão: se trabalhássemos sabiamente a história, a tradição brasileira, a nossa cultura, seríamos muito melhores. Uma das nossas grandes falhas, de brasileiros, é de não termos a consciência da nossa história. Não sabemos o que aconteceu no passado. Conhecemos, sim, a última novela da Globo, o que está na internet. Vivemos a cultura do Google. Agora, contar a história como a nossa vida, como o povo judeu o fazia, isso nos falta. Na festa da Páscoa, o pai sentava com os seus filhos e o filhinho caçula perguntava: - “papai, o que estamos celebrando?” O pai respondia: “éramos escravos no Egito e Deus, com o seu braço forte, escolheu Moisés que nos libertou e nos conduziu pelo deserto até a Terra Prometida”. Agora aqui estamos a celebrar essa história. E no ano seguinte, a mesma cerimônia. O caçula pergunta, o pai responde. Ao relembrar o passado, o povo armazenava força para suportar o presente e ânimo para projetar o futuro: daí a esperança.

Interessa o passado enquanto fonte de esperança, não como saudosismo, tradicionalismo –“no passado era melhor”,  “a gente se vestia assim”. Não  é isso não. Nada de tradicionalismo. Aliás, o próprio Paulo VI disse: “O tradicionalista não conhece a tradição”, quando ele discutiu com Lefebvre.   tradição, se é viva.

 O sábio Dom Helder conhecia a história e se servia dela como luz para entender o presente e coragem para enfrentar o futuro. Tivemos Tiradentes, grandes presidentes, um Juscelino que construiu Brasília. Toca-nos relatar o passado como uma história que ilumina o presente. assim pensamos o futuro. E a cristã é, por excelência, tradição. Temos a tradição de Israel, a de Jesus, a dos santos padres, a dos grandes teólogos, isso tudo para quê?  Por pura erudição? Não! Para iluminar o presente e projetar o futuro: isso é ser sábio.

Dom Helder era o sacerdote do ministério da Eucaristia. Muito bonito quando lemos os testemunhos sobre ele nesse respeito. Ele mesmo dizia que a Eucaristia lhe era um momento fundamental. Não raro chorava durante a celebração da missa. Não a celebrava como puro rito ou preceito ou mera obrigação. Era momento de densidade espiritual.

Um grande teólogo, Karl Rahner, escreveu que o sacramento da Eucaristia, “é o momento em que a Palavra adquire maior densidade e força”. Eu estou a falar para vocês: é palavra! Na Eucaristia, a Palavra ficou Jesus. A Palavra adquiriu força. A Eucaristia-Palavra é toda a história de Jesus, é sua força, é sua promessa, é futuro que Ele anuncia: “quem comer da minha carne, quem beber do meu sangue, esse tem a vida”.  Então, quando Dom Helder celebrava parecia que carregava energia gigantesca. Por isso podia anunciar o futuro com essa força.

Ele era um místico, isso sem dúvida. Vocês ouviram a pequena locução inicial. um místico fala como ele falou. um místico olha para a natureza e descobre Deus. Buscar Deus em todas as coisas. Ver a transcendência presente em cada coisa, ver o mistério presente em cada realidade, um místico faz isso. Ele era capaz de fazê-lo. É por isso que tinha força e tinha alegria de viver.

Sabem por que estamos, muitas vezes, deprimidos, com cara de sexta-feira santa de tarde? Porque nos falta um pouco de mística, nos falta perceber que Deus também estar nas adversidades.

Existe um santo famoso, antiqüíssimo, chamado Santo Antão. Vocês ouviram falar dele? Os portugueses chamam-no também de Santo Antônio, mas nós o chamamos de Santo Antão. Ele vivia em momento em que a Igreja passava por graves problemas. Havia nela muita confusão e ele ficou um dia impaciente na oração. teve uma experiência de Deus e perguntou para Deus: “Deus, onde estás Tu nessa confusão?” Deus respondeu: - “Estou nela!”.  Dom Helder viveu momentos de muita perturbação, sobretudo por ocasião do assassinato do Pe.Henrique. Foram acontecimentos dolorosíssimos. E como perceber que Deus está ? Naquela celebração por ocasião da morte do Pe.Henrique, ele disse três palavras: uma para consolar os pais do Pe. Henrique naquela sua dor terrível; outra para os jovens: ´não ficareis órfãos´, porque ele era da pastoral da juventude. “Não ficareis órfãos”, é bonito. Parece Jesus a falar do Espírito Santo. ´Não ficareis órfãos, enviar-vos-ei o Espírito Santo´, quer dizer, mataram o assessor da pastoral da juventude, mas haverá outro. Promete esperança aos jovens. E a terceira palavra foi um convite para outra celebração em memória do padre Henrique.

Ele era um profeta. Esse tema o Frei Betto abordou longamente. uma palavrinha. O profeta tem dois olhares. Olha para o presente:  tenta perceber aí as sementes de futuro e anuncia-o. o profeta consegue fazer isso. Somos normalmente míopes. O profeta descobre traçozinhos verdes de vida em cimento armado. Uma vez uma professora de biologia, dando uma palestra,  projetou um slide. Mostrou uma coluna enorme de cimento armado compacto, nada de especial. que naquela coluna havia uma pequena fissura e nela nasceu um ramozinho verde. Havia um pouquinho de terra e algum passarinho terá jogado a semente, E dela nasceu aquele sinal de vida. gente muito sensível, um poeta, uma mulher, pode perceber isso. Onde pedra, de repente um ramozinho verde de esperança. Nunca mais esqueci essa lição dessa professora. E Dom Helder olhava para o cimento armado da existência, da história, e mostrava que havia  pequenos brotos verdes. Ele forjara a expressão  Minorias Abraâmicas, isto é, no meio dessa massa gigantesca de pessoas desesperançadas, algumas poucas vão manter acesa a esperança. Minorias Abraâmicas, que coisa linda!

Nesse sentido, a utopia, a esperança geralmente não é de muita gente.

um renomado teólogo uruguaio, Juan Luis Segundo, que trabalha muito essa idéia de minoria, que Dom Helder tanto preza. Tem um livro chamado Massa e minoria. Para ele, as minorias fazem a história caminhar, encarnam uma esperança tão grande que a difundem na massa. Passam para a massa um pouco do que elas são. Contaminam-na no sentido positivo com sua esperança. Se nós todos aqui presentes nesse auditório, por exemplo, saíssemos como uma minoria abraâmica, Recife sentiria a nossa presença. Quantas vezes , nas homilias, em Vespasiano,  digo assim: se cada um de vocês aqui da igreja saísse luminoso, poderíamos apagar todas as lâmpadas da cidade que ela ficaria iluminada.

Cada um de nós poderia ser uma lâmpada acesa na escuridão desse mundo de hoje. Esta é a imagem de Dom Helder, um bispo itinerante. Verdadeiro São Paulo redivivo, que circulou por tantas cidades até ir morrer em Roma. Dom Helder também viajou muito com as facilidades de hoje. Chegou a receber, num ano , mais de 80 convites para palestras no estrangeiro. Não pôde, claro, aceitá-las todas. O mundo, fora do Brasil em tempos de repressão, estava sequioso de ouvi­-lo. Aceitava as solicitações na medida das possibilidades físicas, sem ferir, naturalmente, a sensibilidade de outras pessoas que talvez se incomodassem com sua presença. Era muito delicado, sobretudo com o bispo local. Não ia a uma diocese, se o bispo local não estivesse de acordo.

Foi grande andarilho e político corajoso e audaz. Era político nato, desde jovenzinho. no Ceará, ele se meteu em política. Até foi integralistazinho. Debaixo da batina tinha a camisa verde, escondidinha. Há fotografias em que ele está vestido com sinais do integralismo de  Plínio Salgado. Depois ele vai mudar de orientação. Mas sempre permaneceu com agudo senso político. Quando ele mudou de posição política, fez uma gozação.

- “Mas Dom Helder”, perguntou alguém,  “o senhor não era integralista, todo conservador, como é que o senhor mudou tantoo assim?”

- “Claro, pode mudar de idéia quem tem idéia.”

 É fino aquele homem, é tremendo! – Eu mudei de ideia porque eu tenho, por isso eu posso mudar.  Além de senso político, tinha senso do humor. Há vários fatos e vocês devem conhecer melhor do que eu. Certa vez, vieram a ele agentes dos órgãos de segurança e disseram-lhe: “Temos que cuidar do senhor, o senhor é uma pessoa muito importante”. Sabia que tudo aquilo era um teatro e ele responde: “Não precisam, tenho três pessoas que cuidam de mim.” – “Não, nós temos que saber quem são, pode ser muito perigoso” – “Oh, são três pessoas maravilhosas”. – “Mas o senhor tem que dizer-nos quem são” – Uma se chama Pai, a outra Filho e a terceira Espírito Santo”.

está um homem que tinha humor para discutir com a repressão.  um político fino pode falar assim.

E uma última idéia sobre a pessoa de D. Helder. Ele conseguia, numa expressão do Pe. Comblin, realizar em si a unidade dos contrários. Que é a unidade dos contrários?  Em geral, somos dilacerados e até um pouco esquizofrênicos. Certa dose suave de esquizofrenia todos temos, bem suave, não ser exagerado demais. Porque senão vão internar-nos. Agora, Dom Helder  articulava bem os contrários e conseguia certo equilíbrio entre eles. Por exemplo, entre a contemplação e ação. As beneditinas e sobretudo as carmelitas passam longas horas a rezar. Têm enorme superávit de oração. Outros se metem na ação e esquecem-se de rezar.  Dom Helder conseguia as duas coisas, homem de muita contemplação, de muita mística e de muita ação. Ligava a mística à política. Não lhes dizia  que ele tinha o senso político, não sob o aspecto negativo da prática de muitos políticos de hoje. A política para ele tinha uma dimensão maior. Era Política com maiúsculo, que significa o bem comum, o bem social, de polis no sentido grego, a cidade. Pensar a cidade, pensar o bem da cidade e ele assim pensava. Quem o iluminava? Quem lhe dava força para tal? Quem lhe dava coragem? O Espírito de Deus que ele encontrava na oração, na mística, na união com Deus, na experiência de Deus. Portanto, ele une os contrários da contemplação e da ação.

Outra unidade dos contrários. Nós católicos, e talvez nós padres mais ainda, temos coisas bonitas para dizer. Pregamos idéias belas, verdadeiras, grandes valores, mas a nossa linguagem nem sempre é atualizada. Não alcança, sobretudo, a juventude. Há uma cena muito bonita no filme O Santo Rebelde: Dom Helder a dirigir a palavra a uma multidão de jovens. Eles mantêm os olhos grudados nele. São jovens estrangeiros, ele falando uma língua estrangeira e mantinha os jovens atentos. Por quê? Olhem o segredo: ele atingia a experiência dos jovens. Não é a palavra, é a experiência. conseguimos tocar as pessoas com a Palavra de Deus se nós a traduzimos para a vida delas. Não simplesmente em termos semânticos, do Houaiss ou de Aurélio, não. Mas, no nível da experiência, ao tocar naquilo que eles sentem, vivem e estão presenciando em sua existência. Se falamos de sua experiência, eles captam. Dom Helder pregava as grandes verdades, o compromisso¸ o amor aos pobres, a dedicação, a entrega. Referia-se à Igreja de uma maneira que a Igreja ficava cada vez mais luminosa para os jovens.

Uma última idéia: ele causava profundo impacto sobre as pessoas. Eis um exemplo: Roger Garaudy, filho de pai ateu e mãe católica, hoje quase centenar, foi brilhante filósofo marxista e durante muitos anos deputado e senador  comunista até ser expulso do Partido, em 1970, depois de criticar a invasão russa contra a Primavera de Praga de 1968. Eis a figura. Ao encontrar-se com Dom Helder, pela primeira vez, escreve: “Esse encontro dividiu a minha vida em duas partes: antes de encontrá-lo e depois de encontrá-lo”. E ambos fizeram um pacto. Ah, isso é fantástico.

Dom Helder disse-lhe: - “Você vai dizer aos comunistas que a religião não é nenhum ópio do povo e eu vou dizer aos católicos que o socialismo não é nenhum demônio”. Dom Helder defendeu então um socialismo humano e Garaudy disse aos comunistas que a religião não era aquilo que eles imaginavam.

Enquanto houver o tempo, a vida é esperança! Dom Helder é uma pessoa esperança. Cito três momentos de esperança na vida de Dom Helder. O primeiro foi a ida para o Rio. começou a sua trajetória luminosa. Depois veio Recife: o púlpito, a tribuna da esperança.  O terceiro momento serviu-lhe de prova da esperança: o período do regime militar. Verdadeira noite escura da esperança.

Migrou para o Rio, ainda meio integralistinha. Tinha perdido a mãe. Não estava bem ajustado no Ceará. Meio-frustado chega ao Rio de Janeiro. Encontra a maravilhosa pessoa do Cardeal Leme e um ambiente que o abre. Envereda pelo campo da educação. Tem atividades no Ministério da Educação, onde sugere propostas interessantes. Acende-se-lhe no coração a chama da esperança. Inicia trabalho pastoral junto aos pobres nas favelas. Promove grandes obras. Enceta realmente o caminho da esperança. Viu aquelas favelas e engajou-se na construção de habitações populares para melhorar as condições de moradia dos favelados. Foi algo importante, quase simbólico, porque não resolveu, na realidade, o problema. Retirava dez mil das favelas e chegavam duzentos mil depois. O Brasil sofria o processo de êxodo rural. Era impossível resolver o problema no fim da linha, se não se estancasse a fonte migratória, cujas raízes estavam no grave problema da terra, da reforma agrária, que até hoje não se solucionou. Serviu de um grito de profecia de esperança. É possível dar o chute inicial. Cabe-nos prosseguir na luta para que o povo tenha condições melhores de existência.

Quando ele vem para o Recife, transformar-se-á no grande tribuno da esperança. O discurso de posse foi uma peça de rara beleza. Palavras de alguém que olhava para o mundo e dizia: - “o meu coração está aberto para todo mundo, para todos. Não estranhem ver-me a conversar com fulano de direita ou de esquerda, com prostituta, com menino de rua, com moleque, com assassino, com santo, com beata do apostolado da oração. Todo mundo tem lugar no meu coração!”

Ele não rejeitou ninguém. Abriu-se a todos. Entretanto, aceitar e acolher não significa concordar. Ele questionava as pessoas, impelia-as para frente, incentivava-as.

O que é realmente a esperança? Supõe dois momentos: um momento primeiro de ouvir, de acolher o outro na sua diferença. Melhor, na sua singularidade. Prefiro o termo singularidade ao de diferença. Cada um de nós é ser único. Deus ainda não aprendeu a fazer clonagem de pessoas. Não freqüentou a clínica daquele médico italiano que quer fazer clonagem no oceano. Deus não clonou ninguém. Cada um de nós é absolutamente singular. Mesmo os filhos gêmeos são diferentes, são singulares. Então, acolher cada um na sua singularidade é fantástico, isso é próprio de Deus! Quanto mais o fazemos, tanto mais nos aproximamos de Deus, porque Deus é assim. Mas Deus também é importuno. Santa Tereza diz a Jesus com certa ironia: - Por isso tens tão poucos amigos. Jesus é meio importuno: questiona, pede, exige, mas por dentro de nós. Inquieta-nos, tira-nos o sono, quando estamos muito acomodados. Ele não nos fala descendo do céu, mas através de milhões de realidades humanas que nos cercam. Ele está continuamente a interpelar-nos. A loquacidade de Deus é infinita. Cada pessoa é uma fala de Deus, cada acontecimento. Uma luz, como dizia Dom Helder, uma planta que você , aquela planta no cimento armado, é Deus falando, está me inquietando, me fazendo acordar.

Nesse sentido, realmente Dom Helder tinha essa força enorme, e no discurso de posse, ele diz: é isso que eu quero ser como arcebispo do Recife.

Sobre Dom Helder, poderíamos ficar aqui conversando sem parar. Mas toca-nos concluir.

Dom Helder termina a vida com dois sonhos proféticos e de esperança. Por volta de 1983, se não me engano, quando profetizou que na virada do milênio, a que não assistiu, não haveria fome no mundo. Imaginava que nos 17 anos faltantes para o ano 2000, o mundo acabaria com a fome. O seu grande sonho era erradicar o maior crime que existe que é a fome. Betinho repetia muito essa frase: “A fome é imoral!”. A fome é perversa, a fome é criminosa, a fome é inaceitável sob todos os ângulos. O primeiro, primeiríssimo direito do ser humano é alimentar-se. Dom Helder fechou os olhos e disse: No ano 2000 toda a humanidade não vai ter fome. Morreu e a fome persiste. Toca-nos transformar seu sonho em realidade.

O segundo sonho visava à Igreja. De novo, o vidente abriu bem os olhos e profetizou: Vai acontecer o Concílio de Jerusalém II. houve o Concílio de Jerusalém I, aquele dos Atos dos Apóstolos, não é verdade? Nele os apóstolos decidiram que os pagãos convertidos não precisariam adotar os ritos e os costumes judaicos. Verdadeiro salto qualitativo. Jesus era judeu, o cristianismo nasceu na Palestina, os apóstolos todos eram judeus, e São Paulo também era judeu, embora também cidadão romano. Era os dois. Tinha sido aluno de Gamaliel. Todo aquele mundo no início do cristianismo era judeu. De repente, o mesmo Paulo de Tarso, “circuncidado no oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus, quanto à observância da Lei, fariseu”  (Fl 3,5), transforma-se no defensor da liberdade dos pagãos convertidos a Jesus Cristo em face dos ritos judeus. Surge novo tipo de cristão, não mais um cristão judeu. Pedro, em dado momento, hesitou e ficou em cima do muro em relação às exigências dos judaizantes. Então Paulo o interpela sobre a incoerência de viver de uma maneira e exigir diferentemente (Gl 2, 14). Ora, Dom Helder pede coerência semelhante de uma Igreja que no Concílio Vaticano II defendeu o diálogo. Sonha então: O Concílio de Jerusalém II vai dialogar com todas as religiões, budismo, taoísmo, xintoísmo, todos os ismos do mundo. A cristã reconhecerá em todas as religiões a presença de Deus, de Cristo Ressuscitado e do Espírito Santo. Deus trabalha em todas as religiões e por seu meio salva todas as pessoas. Eis o grande anúncio do Concílio de Jerusalém II..

E termina a palestra: depois do Concílio de Jerusalém II não tenho mais nada para dizer.

NB: O texto respeita o estilo oral da palestra.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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