O olhar do teólogo Lendas urbanas J. B. Libanio Em origens longínquas da cultura humana, teceram-se belíssimas lendas que, com gosto, transmitimos às novas gerações. Revelam experiências humanas, vestidas de poesia e beleza. Literatos de fino tato e de linguagem saborosa, como Guimarães Rosa, retrataram, reescreveram lendas em forma de estórias. Quem não saboreia a Lenda do Guaraná, da Vitória Régia, do Uirapuru, do Boto, do Negrinho do Pastoreio e tantas outras? Todas as culturas ostentam maravilhoso repertório legendário. Aí se misturam beleza, sensibilidade, sabedoria ancestral. No entanto, diz o provérbio latino que a corrupção do ótimo é péssima. Interesses outros, ora comerciais, ora sexuais perversos, ora envenenados pela fantasia maldosa humana, têm forjado lendas enganosas e feito circulá-las pelas vias Internéticas. O sem-limite do alcance seduz mentes cavilosas para idearem lendas repletas de falsidades e divulgarem-nas. Mais longe vai a tentação do mal. Santo Tomás, na sua pureza, repetia frase de pensador antigo: O Bem por natureza se difunde. Quem sabe, se ele tivesse conhecido a Internet, introduziria uma pitada de crítica e desiludida ao dito antigo. O Mal também ele se faz altamente difusivo. Crimes mediáticos se multiplicam. Jovens que frequentam um mesmo chat programam aventuras perigosas e as realizam simultaneamente graças às possibilidades rápidas e eficazes da Internet. De repente, a dado lugar chegam dezenas e dezenas de pessoas convocadas por uma mensagem propalada nalgum site a fim de perpetrar até mesmo um crime ou simplesmente provocar alguma arruaça. Não faltam promessas mirabolantes que enganam ingênuos, não acostumados às argúcias e artimanhas desse “maravilhoso mundo novo” da informática. Muitos caem em verdadeiros contos do vigário. Agora um vigário eletrônico, mais sutil e plural. Essa cultura informatizada está a exigir bastante mais consciência crítica. Não cabe outra defesa do que armar-nos da famosa suspeita. O mineiro conhece bem a atitude de desconfiança. Tal moeda transitou muito no meio rural, tradicional. As cidades, em vez de aumentar o grau de suspicácia, por causa de tanto engodo, têm atraido às pessoas pela força da propaganda. E ela tem encontrado a forma de mitos, de lendas que se gestam e se propalam com rapidez. Não há dia que não surja alguma. Hoje um alimento faz mal. Amanhã ele entra nas receitas de recomendação. Quem gira 180 graus as notícias? Quem transforma um produto, há pouco, nefasto em medicina salutar? Quem cria tais lendas e as faz ir de computador a computador? Elas diferem das clássicas lendas pela superficialidade, pela caducidade. Nascem como cogumelo depois de chuva e secam aos primeiros calores do sol. Então, voltemos às antigas lendas. Nesse caso, o clássico e tradicional supera de longe as modernas lendas internéticas. |