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Artigos: Tolerância  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/10/26
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Tolerância

J. B. Libanio

 

                   O sentido das palavras sofre pressões dos hábitos, do uso corrente, dos interesses. E, não raras vezes, uma palavra permite inúmeros equívocos. Sob o fogo cruzado de interpretações diversas está o termo "tolerância", escolhido como o lema do ano de 1995 pela ONU.

                   Os antigos nos ensinaram que uma primeira aproximação de um termo se pode fazer pelo seu oposto e pela intencionalidade fundamental que o move por dentro. Destarte, quando a ONU escolheu o termo "tolerância" para marcar o frontispício de um ano, deixou-se embalar por este duplo movimento de querer superar a peste da "intolerância" e criar a dinâmica do movimento utópico da "tolerância".

                   A intolerância evoca tristes experiências para a humanidade. A intolerância religiosa alimentou as cruzadas que semearam morte na Terra Santa, criou os rigores da Inquisição, gerou violentas guerras de religião que ensangüentaram a França na segunda metade do século XVI e até hoje infelizmente provoca conflitos bélicos. A intolerância racial segregou povos, etnias até o cúmulo do horripilante holocausto dos judeus por parte do nazismo hitleriano e ainda hoje levanta barbacãs entre os humanos. A intolerância política transforma partidos e agremiações em inimigos ferozes que visam à destruição maquiavélica um do outro à margem de toda ética. Enfim, os campos da intolerância têm o tamanho do coração humano que pode albergar infinitas gamas de rejeição, de radicalismos, de intransigências.

                   A tolerância situa-se no pólo oposto. No mundo das religiões, chama-se liberdade religiosa, diálogo inter-religioso, em que os membros das diversas denominações religiosas, sem trair sua própria religião, se abrem às riquezas das outras religiões e oferecem as próprias. No mundo político, tolerância significa democracia. Renuncia-se ao partido único que se arroga o direito de ditar toda a política. Rejeitam-se todos os totalitarismos, militarismos, que sempre foram os alentadores das intolerâncias com suas estruturas de censura, de repressão, de dominação.

                   A tolerância não suporta racismos, ao propugnar a igualdade de todas as raças e a sadia miscigenação racial. Os sangues se cruzam criando tipos novos, mais ricos que as pretensas raças puras.

                   Nas estruturas sociais, a tolerância manifesta-se na acolhida e proteção aos estrangeiros, o convívio civilizado entre as classes e os grupos humanos diferentes. Refuga toda forma de violência, de repressão, de exclusão.

                   Esta proposta da ONU vem ao encontro dos objetivos da Campanha da Fraternidade para 1995 de gestar nova atitude em todos os brasileiros a respeito dos excluídos. A raiz da exclusão é, antes de tudo, a concentração econômica e política na mão de poucos e a intolerância desses mesmos grupos em aceitar melhor distribuição de renda, de lucros, de bens materiais e de saber.

                   Colocar o ano de 1995 sob o signo da tolerância significa convocar a todos nós para refazer os tecidos puídos da sociedade pós-industrial, urdida com os fios da ganância, da conquista devastadora da natureza, do lucro desenfreado de mercado onipotente, à custa da exclusão, da marginalização de povos e de imensas massas humanas. A nova tecedura da sociedade requer operários que cultivem os valores da convivência humana, a relação harmônica com a natureza, a preservação inteligente e sábia do planeta terra, a vivência de espiritualidade profunda, a justiça fraterna, o respeito inviolável da pessoa humana, a supremacia da ética sobre os interesses individuais ou corporativistas. Para este horizonte utópico apela a ONU nesse ano de 1995.

        

 

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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