J. B. Libanio A expressão nova “cidade saudável” aponta para realidade que está sendo apreendida de maneira diferente. Mesmo que não exista no concreto algo realmente novo, há, pelo menos, uma percepção até então não captada. Até agora se distinguiam as cidades pela “qualidade de vida”. Desta maneira, eram hierarquizadas. Ao introduzir o adjetivo “saudável”, quisemos modificar a concepção de qualidade de vida. O termo veio do mundo da saúde. Vincula-se, na prática, a qualidade de vida às possibilidades maiores ou menores de ter uma saúde física e mental. Que elementos tornam saudável a vida da cidade? A novidade articula diferentemente a preocupação em torno da saúde possibilitada pelo meio ambiente físico e social com a utilização dos recursos da comunidade. A raiz da insalubridade deve-se ao terreno envenenado por busca de interesses particulares e setorizados a serviço de correspondente ganância com terríveis conseqüências para a configuração da cidade em vista de toda a comunidade. O individualismo, o anonimato da vida urbana desumanizam altamente, ao tornar a cidade psicologicamente insalubre. No entanto, há outra forma de individualismo menos analisada e de piores conseqüências: o individualismo corporativo. Cada grupo pensa unicamente em seus interesses e defende-os com unhas e dentes. O setor de construção civil vê como ganhar melhor. Para isso, constrói os edifícios mais lucrativos, suborna vereadores e prefeitos para mudarem as leis do Plano urbano. Resultado: a cidade transforma-se numa selva de pedras sem perguntar pelo bem de toda a comunidade. As construções das fábricas, as doações de terrenos feitas a elas pelo Estado se vinculam aos interesses das empresas, de determinados sindicatos e aos lucros de intermediários políticos. Como a corrupção campeia no mundo das concorrências, suspeita-se de ganhos ilícitos de políticos e funcionários públicos nessas concessões. De novo, nada tem a ver com o bem-estar da cidade como conjunto. A construção dos blocos habitacionais em lugares longe do trabalho, em condições insalubres, responde a interesses políticos e econômicos apesar dos graves inconvenientes para a vida urbana. O mesmo se pode dizer do transporte urbano, do sistema de saúde, da construção das infra-estruturas urbanas. Por que esta quantidade de ônibus em vez de outros transportes mais limpos? Por que esta multidão de automóveis a poluir as ruas? Em vez de se pensar em transporte público limpo, celebram-se com júbilo industrial o aumento de produção e vendas de automóveis, a descoberta de reservas de petróleo, a construção de artérias de asfalto. Cada setor pensa no próprio lucro sem referência ao bem comum. Enquanto não se considerar, em primeiro lugar, o benefício para a totalidade dos habitantes em qualquer iniciativa, não se conseguirá construir uma cidade saudável. Não basta conhecer a raiz da insalubridade. Cabe buscar soluções imediatas para o mal já feito. Embora a medicina preventiva seja a melhor, as doenças necessitam ser já atacadas, sem ficar à espera de solução mágica. O orçamento participativo urbano insere-se nesse movimento de melhoria das cidades. Ouve-se a população que percebe melhor, nos seus lugares, os problemas e desajustes estruturais. A partir daí se pinta retrato realista da cidade. Ao olhá-lo, constatam-se os pontos carentes de melhoria coletiva para além dos interesses setoriais. Supõe-se capacidade criativa de soluções. Ajuda conhecer iniciativas já em curso em outros lugares. A Internet permite que se viaje sem custos por mundos diversos à cata de informações e experiências. Aprende-se muito do que fazem os outros. |