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Artigos: Alimento é vida  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2008/11/3
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é vida

 

J. B. Libanio

 

                        realidades cotidianas e importantes que freqüentemente escapam de reflexões apuradas. Todos os dias nos alimentamos, sem refletir não sobre a qualidade do alimento, mas também sobre o modo como fazemos as refeições, embora tenha crescido e até chegado a exageros doentios uma preocupação pseudocientífica com a alimentação. Os alimentos embalados trazem uma série de informações sobre taxas de colesterol, glicose, calorias, etc. Mas nada dizem sobre outros aspectos importantes do alimento que é sua inserção no interior de uma cultura. E ultimamente se agitou a grave questão do encarecimento do custo de vida alimentar.

                        Os povos foram criando hábitos alimentares à base das experiências comuns de modo espontâneo. Ora digeriam alimentos sadios ora se deparavam com outros nocivos ao organismo. Abriam caminhos em busca de equilíbrio na alimentação. O avanço da ciência veio ajudar-nos a ter melhor alimentação.

                        Os alimentos devem corresponder ao tipo de clima e cultura. E a cultura se gesta lentamente num processo de experiências, seleção das mesmas e conseqüente normatização. Desse conjunto de intervenções humanas, de experiências acumuladas, tecemos a rede de nosso existir em comum. E as culturas até então mantinham sua identidade e originalidade sem muito esforço, porque dentro delas acontecia o tríplice momento da interiorização, exteriorização e objetivação. Assim cada geração assimilava o que a anterior tinha exteriorizado e por isso mesmo objetivado em costumes, regras, normas, instituições.

                        As culturas andavam em paz e por caminhos próprios. O Ocidente começara há séculos lento processo de imposição cultural sobre as culturas antigas, primitivas, indígenas nas Américas e em outros continentes. Ele o fez por meio de forte inculcação. Mas apesar de sua violência, ainda era um processo que tinha certa lentidão. Agora estamos expostos a outro fenômeno muito mais vigoroso: a globalização dos meios de comunicação social, inundando todo o mundo com os valores e comportamentos dos países centrais, especialmente os dos EUA. E alimentação não se isenta do massacre propagandístico.

                        Com a globalização da informação o povo brasileiro tem assimilado, pela via do mimetismo exagerado, tipo de alimentação própria do povo norte-americano. Eles criaram, por razões pragmáticas e não necessariamente sãs, refeições e alimentos para serem ingeridos com pressa e rapidez. Substituíram o comer em família por sanduíches prontos, servidos nos McDonalds ou restaurantes do gênero. Deglutem-se tais ingredientes farináceos com embutidos, em ou mal sentado.

                        Cabe alertar-nos para a disseminação desses costumes prejudiciais à saúde. Estão em jogo interesses de grandes cadeias de restaurantes e um modo de vida em função do trabalho, sem valorizar as refeições tradicionais. Além disso, vestem-se com rituais coloridos que cativam os olhos jovens.

                        Não entra em questão a qualidade dos alimentos ingeridos como também a maneira como se programam as refeições. Necessitamos repensar esses novos costumes alimentares e criticá-los à luz de nossas tradições nativas. Cada Estado do Brasil tem uma cozinha peculiar, excelente e de muita variedade. É lastimável que se percam essas riquezas por conta de um novo modo de alimentação importado dos EUA.

                        Tem acontecido uma mudança de hábitos à custa da perda de excelentes costumes da cultura brasileira.  Não raro empresas alimentícias financiam pesquisas, cujos resultados dificilmente são controlados e lançam no mercado midiático slogans a respeito de certos alimentos. E a impossibilidade de testá-los induz a muitos a modificarem, quem sabe, uma sadia alimentação por novidades estranhas e perniciosas.

                        Duas lições: consciência de nossa própria cultura alimentar no interior de tradições antigas e senso crítico diante de propagandas rápidas e superficiais de alimentos preparados no bojo dos interesses econômicos, onde a cultura e a saúde, como tais, não encontram o lugar privilegiado merecido.

                       

 

 

 

 



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