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Entrevistas : Sobre a sucessão de João Paulo II  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/10/5
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Sobre a sucessão de João Paulo II

 

- Depois de mais de duas décadas, o pontificado do papa João Paulo II dá mostras de que está próximo do fim. Qual critério marcará a sucessão do chefe da Igreja?

Conjugam-se dois fatores. Levantam-se os problemas e desafios que a Igreja está a enfrentar tanto no seu interior quanto vindos de fora. Tal percepção se cria no interior do Colégio dos Cardeais. Antes de os cardeais eleitores se fecharem no Conclave, todos os cardeais, que estão em Roma e que pouco a pouco vão, independentemente da idade, chegando a  Roma, se reúnem nos dias seguintes à morte do Papa até o início do Conclave. Nessas reuniões deliberam sobre as questões de rotina da Igreja e discutem os desafios internos e externos da Igreja. Com esses dados na mão, traçam o perfil do Papa que estaria mais em condição de enfrentá-los. Começam então a aparecer as preferências por determinadas pessoas. E nesse primeiro estágio certamente cardeais de peso, que não estarão no momento da eleição por terem ultrapassado os 80 anos, poderão exercer sua influência na indicação dos problemas, nos traços do perfil do futuro Papa e até mesmo na sugestão concreta de nomes.

 

- Isso quer dizer que uma lista de nomes, ou critérios geográficos são apenas especulações?

As especulações da imprensa refletem uma sensibilidade mundial que pode ou não influenciar. Vai depender se tais comentários permitem a configuração do perfil do papa que os cardeais traçarão nas reuniões prévias. Vejo, no entanto, um perigoso poder da mídia. Na gíria política fala-se de “queimar”, “fritar” um candidato. Assim, se a imprensa internacional no tempo imediato à eleição do Papa descobre e veicula afirmações graves desabonadoras a respeito de algum cardeal, - como seria o caso de conivências passadas com regimes militares criminosos - dificilmente ele poderia ser escolhido. Ele teria perdido a credibilidade mundial.

 

 

- O papa João Paulo II foi um pontífice que impôs várias mudanças na Igreja. No Brasil, isso foi mais visível na despolitização do clero. Espera-se que essa característica permaneça no próximo papado?

Há na presença do clero na política um fator que hoje aparece como negativo. E, portanto, tende a permanecer a sua proibição.  É o caso de o compromisso partidário do clero em exercício ministerial ou em cargo oficial dividir a comunidade. Outra coisa é a exclusão de qualquer participação política. Esta atitude parece mais conjuntural desse pontificado e poderá perfeitamente ser modificada. A história da Igreja recente teve exemplos de membros do clero que se candidataram para defender interesses da Igreja e seus ensinamentos. Além do mais, outras presenças políticas da Igreja  não só são necessárias como inevitáveis, já que uma instituição do seu porte impacta inevitavelmente a política, seja atuando como omitindo-se. Por isso, as possíveis advertências do Cardeal Re devem ser entendidas como um simples alerta para buscar maior vigilância crítica no tipo de atuação política  para não terminar favorecendo forças hostis à justiça e ao Evangelho, como seria apoiar políticas agrárias reacionárias contra o direito dos índios à terra. Há questões políticas em que estão envolvidos claramente problemas éticos e a Igreja não pode não tomar posição pela ética.

 

- É possível afirmar que posições como estas favorecem o aumento da participação de bancadas religiosas como as dos evangélicos por exemplo?

A escolha de candidatos mais alinhados a uma determinada denominação religiosa é ambígua. Não se segue que políticos que se proclamam católicos sejam os que mereceriam uma aprovação da Igreja. O critério ético e do passado político é mais importante. Por isso, não ficaria bem a Igreja católica escolher o critério da filiação religiosa como decisivo Que outras denominações religiosas o façam não nos toca imitar, antes opor-se a que se elejam pessoas não idôneas moralmente, esclarecendo os eleitores.

 

Entrevista concedida a revista VEJA em abril de 2002

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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