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Artigos: A dupla celebração do jubileu  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/9/29
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A dupla celebração do Jubileu

J. B. Libanio

 

                   As cifras são frias na sua matemática. Carregam-se, porém, de símbolo quando entram na trama de nossa existência. Esse ano 2.000 avulta em importância tanto por razões cívicas como religiosas. 500 anos dessa nova fase da existência histórica do hoje chamado Brasil. 2.000 anos do Mistério da Encarnação.

                   Dois eventos que merecem nossa reflexão. João Paulo II  iniciou o ano jubilar dos 2.000 anos do Mistério da Encarnação abrindo a Porta Santa nas grandes basílicas de Roma. Esse gesto simbólico convida os cristãos a viverem de perto tão augusto mistério.

                   Para facilitar essa vivência, o Papa, e, seguindo-lhe as orientações, a  CNBB traçaram um plano de preparação para essa celebração. Depois do Ano da Sensibilização, 1996, seguiram-se três anos dedicados a uma das pessoas da Trindade, a uma das virtudes teologais e a um dos grandes sacramentos. Para o Ano 2000, reservou-se uma atenção especial à Glorificação da Trindade e ao sacramento da Eucaristia.

 

                            Glorificação da Trindade

                   A Trindade é o mistério da fé cristã por excelência. O termo “mistério”  soa na linguagem comum como algo “impenetrável pela razão humana”, como “tudo aquilo que a inteligência humana é  incapaz de explicar ou compreender”, “enigma”, “coisa ou elemento oculto, obscuro  ou desconcertante”, como lemos no famoso Dicionário Aurélio. É o lado do mistério como limite da razão humana. Isto é verdade.

                   No entanto, esse conceito encurta-lhe a compreensão. Esquece outro lado do mistério. A face escondida, desconhecida do mistério exerce formidável força de sedução para que mergulhemos nele mais profundamente. Quanto mais se conhece o mistério, mais se quer conhecê-lo e não o contrário. Ele não nos afasta como se fosse algo abstruso, mas nos seduz pelo fascínio e desafio. Desejamos sempre ir mais fundo no seu conhecimento. Assim é a Trindade.

                   A catequese tradicional começava, em geral, referindo-se ao Deus uno. Falava-se então da natureza divina única. E depois acrescentava que eram três pessoas em Deus. O fiel ficava confuso. Não percebia bem essa relação. Se na história Deus se revelou primeiro como um, não o fez sob a perspectiva da natureza, mas da pessoa. Deus sempre se revelou como Pessoa. Javé é a primeira pessoa da Santíssima Trindade. Acontecia, porém, que os judeus não conheciam ainda as outras.

                   Jesus Cristo  nomeia esta Primeira Pessoa, Javé, como sendo seu Pai por natureza e nosso pai por adoção na graça. Aí  já estamos diante de duas pessoas. Ao longo de seu agir e pregação, os primeiros cristãos descobriram que Deus Pai e Jesus, o Filho, atuavam pelo Espírito Santo. Ele fazia viva em nós a presença das outras duas pessoas. Estava revelado o mistério trinitário.

                   Para nós hoje, existem, na nossa experiência espiritual e na nossa fé existencial, primeiro, as Três Pessoas divinas. Pelo Espírito Santo somos levados a compreender a pessoa e as palavras de Jesus, o Filho. E este nos conduz ao Pai. O trânsito de nossa fé vai do Espírito Santo a Deus Pai passando pelo Filho. Num momento ulterior, de uma reflexão mais profunda, perguntamo-nos. Será que estamos diante de um politeísmo cristão, substituindo o politeísmo grego ou romano? Rompemos então com o judaísmo por causa de seu monoteísmo?

                   Essas questões ocuparam a reflexão teológica dos primeiros séculos. Os cristãos não se afastaram do monoteísmo judaico. Tampouco aderiram ao politeísmo pagão. Perceberam que a unidade última de Deus era tão rica, tão abundante, tão cheia de amor que subsistia em três pessoas. Ou mais iluminador. As três pessoas divinas se conhecem tanto, se amam tanto que cada uma se faz totalmente presente na outra, numa unidade radical. O amor as entrelaça a tal nível que são uma só natureza, uma só substância, sem deixarem de ser três pessoas.

                   Sem querer vencer o limite que o mistério divino impõe ao nosso conhecimento, podemos recorrer a nossa experiência e vislumbrar uma faísca dessa maravilha de Deus. Quando amamos de verdade, em profundidade, sem limites, desejamos, sem, porém, consegui-lo, ser um com a pessoa amada. Todo amor é fusional. Quiséramos penetrar a pessoa amada e deixar-nos penetrar por ela a ponto de ser um só com ela. Nunca o conseguiremos, porque nosso amor é imperfeito, nossa condição material impossibilita, nossa situação criatural limita. Por outro lado, nesse amor queremos que o outro continue outro, seja ele mesmo em sua totalidade, em sua absoluta singularidade. Impulso que nos atormenta por causa da tensão absolutamente insuperável de nosso amor manter ao mesmo tempo a perfeita unidade e a distinção real.

                   Ora bem, isso acontece em Deus em infinita perfeição. Há tanto amor entre os Três Divinos, que sem deixar de cada um ser distinto do outro, são uma unidade de natureza. Só o amor pode fazer isto. Deus é amor.

                   Glorificar a Trindade é, em última análise, maravilhar-se diante da força infinita do amor capaz da unidade na distinção em graus ambos infinitamente perfeitos.

 

Eucaristia, o sacramento do Amor

                   A Eucaristia tem duas grandes dimensões. Una voltada para a vida eclesial e outra para o mundo. Respeito ao interno da Igreja, a Eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a Eucaristia. É a Igreja que celebra a Eucaristia pelo poder que Jesus lhe conferiu. Poder que decorre da missão que Deus Pai comunicou a Jesus pelo Espírito Santo. De novo, encontramos a Trindade. Nunca a Igreja é tão Igreja quando celebra o Sacramento do Amor. Nunca a Igreja se une tanto à Trindade quando ela recorda na força do Espírito a memória do Filho, oferecendo ao Pai todo esse mistério de entrega. Tudo na Igreja existe para que ela esteja a serviço da santificação da humanidade. E a Eucaristia é o momento alto da presença santificadora de Deus no mundo. Jesus se entregou para salvar-nos. Na Eucaristia, a Igreja torna essa entrega presente para nossa santificação.

                   A Eucaristia faz a Igreja. Deus Pai, ao acolher a oração da Igreja na Eucaristia, configura-a como comunidade de fiéis que estão diante dele. A Igreja nasce no batismo e se aperfeiçoa na Eucaristia. “Do lado do Cristo na cruz, promanam os sacramentos – a água do Batismo e o sangue da Eucaristia – pelos quais a Igreja se constitui”. Ao comungar do corpo e beber do sangue do Cristo eucarístico, formamos o Corpo do Cristo místico, a Igreja. Há uma só Eucaristia. Aí está um dos fundamentos da unidade da Igreja e da necessidade intrínseca do Ecumenismo. Uma Igreja que celebra Eucaristia, ao estar dividida, contradiz e violenta a própria natureza da Eucaristia e, portanto, a sua própria.

                   A Eucaristia está voltada para o mundo. E especialmente o dos pobres. Na Eucaristia partilha-se o pão do corpo do Senhor, como sinal do pão do compromisso com os pobres a ser compartido com eles. A Eucaristia se faz tanto mais verdade quanto mais o cristão, que participa do pão do Corpo de Cristo, partilhe com os pobres o pão material que possui.

                   “A construção de uma verdadeira comunidade é  uma dimensão constitutiva do partir do pão” (P. Arrupe). E uma verdadeira comunidade implica justiça social, partilha do pão com os que não têm. “Se há fome em alguma parte do mundo, nossa celebração da Eucaristia está incompleta em todas as partes do mundo”, eis outra afirmação ousada do P. Arrupe.

                   O jubileu relembra a dimensão de justiça social do povo de Israel: libertação dos escravos, perdão das dívidas, recuperação da terra perdida, etc. A Eucaristia, sacramento do Amor, escolhido para ser especialmente estudado nesse ano, está a gritar pela partilha dos bens entre as pessoas, como se divide o mesmo pão na sua celebração.

 

Celebração cívica dos 500 anos da existência do Brasil – sua primeira evangelização

                   Para nós no Brasil, soma-se a toda essa dimensão teológica do jubileu o fato histórico da nova fase da existência desse país. Até então viviam aqui os índios com suas culturas e religiões ancestrais. Chega a civilização ocidental juntamente com o evangelho de Jesus dentro de um projeto de colonização. É o momento de repensar essa epopéia com suas luzes e trevas. Ao anunciar-se a Boa Nova salvadora de Cristo aos índios, levava-se-lhes a proposta de graça da Trindade. Ao associar-se tal anúncio mais e menos a um projeto cultural colonizador, contaminava-se o Evangelho com muitos pecados. A Igreja vem continuamente pedindo perdão aos índios que aqui moravam e aos negros que para aqui vieram pela maneira violenta como foram, em muitos casos, evangelizados.

                   Conscientes e críticos da história, podemos hoje retomar o projeto evangelizador numa perspectiva de liberdade, de graça, de oferta de amor, arrependidos pelas violências passadas.

                   Só assim fazemos jus a uma digna celebração do Jubileu da Encarnação do Senhor e recordamos honradamente os 500 anos da Primeira Evangelização!

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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