O olhar do teólogo V Conferência dos Bispos em Aparecida J. B. Libanio A V Conferência de Aparecida encerrou-se, como iniciou, com solene celebração eucarística. No início, louvava-se a Deus e agradecia-se a Ele pelo dom do encontro que o Papa inaugurava. Agora, a gratidão se volta para o trabalho feito na esperança de que os frutos amadureçam no conjunto das Igrejas do Continente. Já foi graça o simples fato da convivência plural de representantes de todos os países da América Latina além dos convidados dos EUA, Canadá e outros continentes. Diferentemente do Sínodo, os membros da Conferência assumiram eles mesmos as decisões, não as delegando ao Papa. Cabe a este simplesmente um aval de deferência. Em rigor, a Conferência é obra das Igrejas do Continente latino-americano. Olharam a realidade social e eclesial, sondaram o Projeto salvador de Deus Pai em Jesus à luz dessa realidade para terminar em ações pastorais concretas. Voltou-se, não sem algumas peripécias, ao método do Ver, Julgar e Agir, embora sem a clareza da tradição de Medellín. Faz-se, porém, claramente reconhecível no Documento final. Não se trata de capricho teórico. Estão em jogo implicações teológicas e pastorais importantes. À medida que os membros da Assembléia se debruçavam sobre o ver da realidade, lentamente entravam num processo de revisão teológica, que o método abstrato de aplicar a teoria a uma realidade não produz. O ver ajudou a desmontar muitas visões simplistas, dogmáticas, preconceituosas. Nada como a objetividade da situação para corrigir os vieses espiritualistas. Cada Conferência, além da riqueza abundante do documento final, deixou uma consigna forte. Rio foi a promoção vocacional, Medellín se identificou com a opção pelos pobres, Puebla reforçou a evangelização libertadora, Santo Domingo trouxe a inculturação com o protagonismo dos leigos. E Aparecida? Talvez seja cedo. Mas arrisco resumi-la, partindo da escolha do tema central, dos discursos do Papa e de outras informações. Diante do duplo desafio de uma sociedade injusta no campo social e secularista, hedonista, relativista no aspecto cultural e de uma Igreja ameaçada de sangria pela força atrativa de outras formas religiosas, a V Conferência interpela todo católico a assumir com coerência, verdade e consciência a própria identidade de fé nascida do encontro pessoal com Jesus. Daí ssurge a vocação de discípulo do Senhor, seguindo-o no concreto da vida. E de dentro da felicidade dessa experiência, brota o desejo missionário de anunciar tal fé ao mundo. Resumindo: feliz e alegre de ser católico no discipulado de Jesus, anunciando a vida num país mergulhado na injustiça social e numa cultura individualista e hedonista. Publicado no jornal Opinião entre os meses Maio/junho 2007 |