Ética: práxis, ciência e cultura J. B. Libanio O Tempo – 21 de junho de 2009 A ética faz parte da vida, da práxis das pessoas. Interpõe-se entre a necessidade de agir, próprio de todo ser vivo, e a nossa natureza racional. E encravada nela, há sentimento de bondade, de beleza, de verdade. Por mais que o ser humano se perverta, não consegue apagar totalmente essa luz de bem que se irradia de seu ser criado pelo Eterno e Infinito Bem. Todo artífice marca a sua obra. E o Criador divino não deixou por menos. As pegadas divinas em nosso coração nos provocam aquela inquietude de que fala Santo Agostinho e que só descansa em Deus. E até lá? A vida humana até lá se transforma num misto de acertos e erros, de caminhos e descaminhos, de bondade e maldade. E como conseguimos distinguir tais ações? Funciona o senso ético do ser humano em contextos socioculturais ambíguos. E ele traça lentamente normas éticas e em face delas se julga a si e aos outros. No entanto, surgem dúvidas, posições diferentes, suspeitas de interesses esquivos e maldades camufladas. A razão apura sua capacidade crítica. E elabora a ética como ciência. O espaço da discussão adquire nível superior. Buscam-se consensos, clareza e justeza nos juízos. Ao longo dos séculos, filósofos, pensadores, humanistas se debruçaram sobre essa ciência para munir a sociedade de princípios normativos que a conduzam a seu bem, a melhor convivência, a maior felicidade das pessoas. Entretanto, não se percorre tal via sem problemas e dificuldades. O ser humano, além desse lado luminoso que lhe permite criar a ética do bem, participa de certa maldade profunda. A sua origem provocou explicações diferentes, como a existência de um princípio do mal ou uma falta original que fez história nas ações humanas. Em todos os casos, a evidência da existência do mal não permite cegueira nem ingenuidade. A cultura, como conjunto de símbolos, comportamentos, instituições, valores, que nos permite viver em sociedade, impregnou-se de muitos males. E a ética como ciência e a cultura se chocam em não poucos pontos. Então se abre o caminho de ir transformando a cultura por meio dos recursos de que dispomos na linha de assimilar, veicular e facilitar às pessoas a vivência da ética do bem, da convivência. E, sem dúvida, hoje o maior empecilho para a ética diária se encontra no individualismo açulado pelo sistema capitalista. Está na origem de muita perversidade. E só um movimento cultural oposto de solidariedade, de convivência, de respeito às pessoas e à natureza tem chance de impregnar a cultura com outra ética. À medida que a cultura assume os valores éticos, facilita-se uma práxis humana segundo tais valores. E, por sua vez, tal práxis informa a cultura éticamente. E a ciência da ética termina aprofundando esse conúbio de bem entre práxis e cultura. |