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Artigos: Itinerário intelectual - Comissão teológica de CPAL - 2006  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2009/2/5
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Itinerário intelectual

J. B. Libanio

Comissão teológica de CPAL

2006

             

                        Pôr-se por escrito, sob qualquer ângulo que seja, incomoda. Pascal se referia ao "moi haïssable". E quando se trata de trabalho intelectual a dificuldade cresce por estar-se muito próximo do que se escreve e como se escreve. Submetemo-nos a uma espécie de psicanálise "epistemológica" e "metodológica". Foi-me pedida tal operação mais por causa do número de anos da trajetória do que por méritos. Em espírito de simplicidade e memória, impus-me algumas horas de autoanálise intelectual. Eis o resultado.

 

            I. Atitudes intelectuais

 

            Ao longo dos anos, algumas atitudes intelectuais se me firmaram. Não foram fruto de nenhuma decisão prévia, pontual, feita em laboratório asséptico, mas antes decorreram de circunstâncias gratuitas, de imponderáveis encontros, de leituras impactantes e de tantos outros fatores que me escapam  e que não precisam ser descobertos. Hoje percebo que algumas atitudes intelectuais me acompanharam durante anos, outras amadureceram mais tarde. Didaticamente, sem nenhuma pretensão genealógica nem valorativa, expo-las-ei em seqüência apenas numérica.

           

1. Especial atenção crítico-dialética aos pressupostos ideológicos, antropológicos das afirmações: ideologia do poder

 

            Um instinto intelectual levou-me a desenvolver certa perspicácia crítica, casada com a suspeita. No Brasil, dizem que é um traço dos habitantes de Minas Gerais, onde nasci. E se soma ele a tradicional formação jesuítica, resulta combinação reforçada.

            A suspeita dirige-se aos pressupostos antropológicos e ideológicos. Que compreensão de ser humano e de suas relações fundamentais - consigo, com os outros, com o mundo, com a Transcendência - o texto revela? Essa mesma pergunta me faço a mim mesmo nas minhas afirmações. A preocupação com o social leva-me a desocultar a ideologia que se infiltra nas afirmações próprias e alheias. A partir daí se entende melhor o significado das afirmações. Escolhi desde cedo ser um intelectual crítico e não institucional. Tal opção manifesta-se na preferência pela leitura da ruptura à da continuidade, na linguagem de M. Foucault.

                        Mesmo consciente de pertencer à Instituição Igreja, Companhia de Jesus e à faculdade de teologia, busco distância corporativa, sem perder a vinculação afetiva. O poder  - a mosca azul - levanta-me suspeita de defasagem entre discurso e prática. Neste ponto, li com proveito escritos de Michel Foucault, P. Bourdieu, Althusser e outros do gênero.

            Do grande mestre, Henrique Vaz aprendi ter uma posição crítica também diante da modernidade e suas vertentes principais da subjetividade, historicidade (ético-humanista) e da tecnocientífica, evitando a ingenuidade das loas como a amargura da pura crítica ideológica. O pensamento dialético tanto no sentido geral de relação mútua quanto no sentido hegeliano/marxista marca muitas de minhas reflexões. Teoria e prática se comportam, nunca como instâncias autônomas em conflito sob diversos nomes, mas em tensão dialética com tendências desiguais e assimétricas.

 

                        2. Ars combinatoria

 

                        Num texto breve em que L. Boff se referiu à minha teologia, chamou-a de "ars combinatoria" e de "tri-vial" no sentido etimológico de "três vias que conduzem à unidade do centro". Viu em tal atitude intelectual o gonzo-mestre de meu pensar. Em outras palavras, trata-se de uma  teologia contextual, peregrina que caminha pela Igreja universal, Igreja local, Comunidades eclesiais de base, movimentos sociais, Vida Religiosa, inteligência acadêmica com inquietações de transformação da realidade. Uma  teologia aberta à escuta do povo, das interpelações dos pensadores com que dialoga, evitando dialeto hermético do especialista num único autor ou tema.  Resulta uma teologia da urgência, atenta às questões do homem da rua como diakonia da palavra oral e escrita. Conjugo, com ousada facilidade, análises com sínteses. Cultivo palavras heurísticas. Na linguagem de E. Morin, sinto-me um teólogo "generalista" e menos especialista, afeito à transversalidade. Aprecio no mundo das ciências humanas mais o generalista que o especialista, embora em nível de prestígio e segurança acadêmica o especialista se saia melhor.

                        Articulo saberes plurais, aproveitando ao máximo as múltiplas e diversificadas leituras feitas. Com freqüência, arrisco a interdisciplinaridade, transferindo métodos e categorias centrais de outros tipos de pensar para a teologia, espiritualidade, pastoral. Persigo com persistência termos heurísticos ou metáforas densas, que carregam em si força para despertar reflexões ulteriores. Exemplo de uma categoria - reprodução de Bourdieu - e de uma metáfora: cenário. Nessa operação teórica guardei certa liberdade diante do sentido exato dos autores para transformar o conceito naquilo de que teoricamente necessitava. Mereci uma "justa" crítica de H. Vaz quando analisei a teologia da libertação com as categorias da lingüística: sintática, semântica e pragmática, sem respeitar o sentido exato que tais categorias têm na lingüística.  Essa reflexão abre o caminho para chegar a outra atitude fundamental do pensar.

                       

3. Caminho lingüistico

 

                        Sem entrar propriamente pela lingüística, aproveitei-me de algumas de suas intuições importantes e  transferi-as para meu pensar teológico. Regi-me pelo axioma: "cada afirmação é resposta; resposta supõe pergunta; para entender a afirmação (resposta) deve-se saber a que pergunta responde". Nos escritos e sobretudo em palestras e aula, principio colocando com clareza a que pergunta pretendo responder de modo que os ouvintes tenham condições de contrapor pergunta e resposta. Cheguei à convicção de que muita discussão é inútil porque os interlocutores respondem a perguntas diferentes.

            Outra atenção na leitura de um texto se dirige às três perguntas: que diz o texto, que ele me diz e que ele me faz dizer para os outros. Dou mais importância à terceira pergunta. Com isso, guardo suspeita e reserva em face da erudição, da multiplicação das citações por elas mesmas. Entendo a necessidade da honestidade intelectual de não apropriar-me do pensamento alheio como criação minha, mas não valorizo a citação por ela mesma. Acho-a mais importante por ser fonte de inspiração do que chancela de autoridade.

            Atribuo importância à história do conceito, vasculhando-lhe a  etimologia e a sua experiência fundante, além da evolução e mudança de significado (semântica). Pensar  é situar todo pensamento, conceito, tema no contexto histórico mais amplo. Distingo e valoro diferentemente a informação da transmissão. A informação entulha a inteligência, gera fragmentação do pensar e esnoba erudição. A transmissão persegue mais profundamente o universo semântico da categoria. Na linguagem simbólica de C. Mesters, é importante estender o varal e dependurar nele os cabides dos conhecimentos.

 

                        4. Estruturas gerais de pensar

 

                        Sinto a necessidade de estruturas gerais do pensar. Na década de 70, trabalhei com os "esquemas mentais". No volume Io da Formação da Consciência crítica desenvolvi três esquemas mentais: objeto, sujeito e dialético-social. Mais tarde acrescentei o esquema pós-moderno. Tal reflexão cumpriu a função de ajudar a sistematizar os dados que agitavam a cultura e a Igreja naqueles idos, diante dos quais muitos se sentiam perdidos.

                        Noutro momento, escolhi a categoria de modelo. E elaborei modelos culturais -  tradicional, moderno subjetivo, moderno social, pós-moderno -, modelos de Igreja  – Igreja como sociedade, sob o signo do sacramento, sob o signo da missão - e de vida religiosa – modelo tridentino, Vaticano II e Medellín-Puebla. Em outro livro, referi-me aos modelos: implosão completa da identidade tridentina, reconstrução da mesma identidade tridentina, construção da identidade Vaticano II e via do pluralismo e compromisso libertador. No fundo, transportava para a categoria de modelo a mesma intuição que presidiu a criação dos esquemas mentais. Aproveitei de outros modelos da teologia clássica para ler situações atuais: modelos calcedônico, antropológico, sacramental, agápico, pascal. Com um nuance de maior flexibilidade e evitando a rigidez do termo modelo, usei a idéia de aproximação (approach). Analisei a pastoral sob três aproximações: religioso-moral, psicossocial e dialético estrutural.

                        Mais recentemente, trabalhei com a metáfora do cenário para analisar a conjuntura eclesial: Igreja da instituição, Igreja carismática, Igreja da pregação e Igreja da práxis libertadora.

                        Em todas elaborações, preside a mesma atitude intelectual: encontrar estruturas que ajudem a sistematizar, ordenar, tornar inteligíveis elementos intelectuais, existenciais e práticos que circulam soltos no mundo sociocultural. Além disso, para pequenos ensaios trabalhei esquemas heurísticos pré-teóricos e teóricos. Considero um esquema pré-teórico ou pré-logico aquele que se forja a partir de uma imagem, metáfora ou estrutura da natureza. Por exemplo, uma árvore. Ao seguir-lhe a estrutura da natureza, pensa-se um tema, como a amizade, e fazem-se as seguintes perguntas: qual é a sua raiz, ramificações, frutos, seiva vital, etc. Cada elemento da árvore provoca descobrir o correspondente teórico na amizade. Esquemas lógicos já supõem elaboração intelectual. Um exemplo: para analisar a dor, considera-se a dimensão empírica, filosófica, teológica. Para cada um desses níveis, o esquema se multiplica em subdivisões. Maiores esclarecimentos se encontram muitas no meu livro: Introdução à vida intelectual.

                       

                        5. Criticidade e responsabilidade

 

                        Com tal tensão, significo o equilíbrio a ser buscado entre o nível da criticidade teórica rigorosa e o impacto que ela produz na prática do fiel simples, na vida eclesial. Impõe-se o respeito ao outro piedoso, ao magistério eclesiástico. Trata-se de combinar um pensamento crítico em relação às idéias, mas respeitoso das pessoas, avesso às polêmicas e protestos. Ajudou-me muito a distinção entre a intenção que as pessoas têm - só Deus as julga e sua própria consciência - e a dinâmica interna das práticas que caem sob a análise crítica. Em nível pessoal, a teologia crítica não deve demolir a piedade, a religiosidade simples.

 

                        6. Intuição inaciana do discernimento

 

                        Reconheço que por trás de muitas dessas atitudes, ditas intelectuais, está a intuição inaciana do discernimento. Percebo nele várias repercussões no mundo intelectual. Ensina-nos a captar o universal, o importante, o decisivo [a vontade de Deus] na fragilidade das mediações, das moções, dos sinais visíveis e localizados. Algo fundamental para o pensar teológico, sobretudo na América Latina que construiu uma teologia a partir do pobre, da situação de opressão. A dialética do local e universal da teologia reflete a estrutura do discernimento.

                        Em vez da oposição entre sim e não, que facilmente leva a posições radicais de valência conservadora ou revolucionária, a prática do discernimento nos ajuda a perceber a ambigüidade da realidade. Estabelece a dialética do sim e não em todo real.

 

                        7. Da essência para a relação e articulação

 

                        A postura intelectual escolástica funda-se na busca das

essências com tudo o que isso significa de pretensão, de segurança, de estabilidade, de conservadorismo. Substituí a categoria da essência pela da relação, da rede. Isso produz insatisfação com o já possuído e provoca insistente procura de novas compreensões da realidade. Desperta a criatividade e a capacidade de pensar. Constroem-se esquemas de maior flexibilidade e originalidade.

                        A relação inclui também tratar os temas da teologia sob a perspectiva simultaneamente sistemática, pastoral e espiritual. Amplia o horizonte. Outra relação que me ocupa é com o destinatário. Interessa-me mais o que é importante para ele do que aquilo que tenho a dizer. Isso modifica a postura básica nas aulas, palestras e homilias.

                        Uma conseqüência prática traduz em nunca ler um escrito, mas falar livremente. Por quê? Porque o mais importante não é o rigor do texto, mas o proveito que o ouvinte tira. E isso aumenta à medida que o conferencista se despreocupa de si mesmo e pensa no destinatário.

 

II.  Aspectos didáticos

                       

                        Exporei alguns  aspectos metodológicos e didáticos de meu trabalhar teológico. Já as atitudes intelectuais incluíam alguns deles. Aqui se concretizam mais as indicações.

 

1.      Clareza

 

                        Que permite um pensar claro? Antes de tudo ter bem claro a que pergunta se quer responder. E para isso serve o critério da exclusão e inclusão. Os problemas freqüentemente são complexos. Então cabe dissecá-los e ir escolhendo pouco a pouco os aspectos que se vão tratar e quais se deixarão de lado. Evita-se a ilusão de esperar uma resposta de uma pergunta que não se fez.

                        Para concretizar tal proposta elabora-se o esquema em forma de perguntas e respostas de tal modo que a cada resposta se abre a pergunta seguinte até que se terminem as perguntas. Dessa maneira visualiza-se o conjunto das perguntas. A clareza depende de que as perguntas e respostas sejam inteligíveis.

                        Uma boa pergunta é aquela em que se sabe o que significa o sujeito e o predicado, mas não se vê sua relação e o trabalho é iluminá-la.

Perguntar por um sujeito ou predicado que é desconhecido vicia a pergunta.

 

2.      Lógica

 

                        É uma decorrência e exigência simultaneamente da clareza. A lógica aparece no nexo que existe entre as perguntas. A arte de fazer esquemas desenvolve a capacidade lógica. Em toda palestra, artigo, intervenções orais, trata-se de fazer preceder pequeno esquema em que se apontem os verbetes ou palavras-chave. A lógica aparece na relação entre esses termos.

                        Para a criação de pequenos esquemas lançamos mão de estruturas pré-teóricas e teóricas, como indiquei no parágrafo sobre “estruturas gerais de pensar”.

                        Aguça a lógica desenvolver o pensamento sistêmico ou sistemático. Nunca pensar uma idéia desconectada, mas inseri-la num contexto maior. L. Goldmann desenvolve uma análise genético-estrutural que favorece tal pensamento lógico. Conjuga com proveito a riqueza do pensar estruturalista, ao definir a compreensão de uma realidade, com o pensar sócio-histórico que explica por meio de estruturas mais amplas o significado da realidade em questão.

           

3.      Produção de textos

 

                        O segredo está no esquema prévio. Este deve ser o mais detalhado possível. Não poupar tempo e capricho na sua confecção. Não se dar por satisfeito enquanto as idéias não estejam bem estruturadas. É mais fácil modificá-las e movê-las para lugares diferentes enquanto estão em forma de esquema do que com o texto já redigido. A redação deve vir unicamente depois de se confeccionar o esquema o mais amplo possível de tal modo que ela simplesmente o vestirá.

                        Esperar para escrever até que o esquema esteja maduro. Para isso, testá-lo em várias palestras e indo completando-o com as novas intuições e leituras. Toda vez que se ler algo que venha enriquecê-lo não ter preguiça de inserir nele a nova idéia. Só depois de se julgar que o esquema já adquiriu certo grau de completeza e maturidade se processa a redação.

                        A arte de escrever está, no meu caso, muito ligada às palestras. Freqüentemente os esquemas delas se transformam em artigos e livros. Para isso, procuro em cada palestra sobre o mesmo tempo refazê-lo, acrescentando sempre algo novo de maneira que o esquema vá crescendo. As leituras que faço ou intuições que surgem procuro inseri-las em esquemas já feitos, independentemente do uso imediato. E só quando ele estiver maduro, ele se transforma em artigo ou livro.

                        Facilita escrever recorrer a metáforas, imagens, comparações para amparar as idéias. As imagens provocam o processo criativo do pensamento. A idéia, como a etimologia denuncia, carrega sempre algo imagético.

                        A opção de escrever modifica o tipo de leitura e a maneira de fazê-la. Quem lê sem preocupação de escrever o faz mais por diletantismo e não precisa fixar-se no que lê. É uma leitura gratuita, gostosa, mas que deixa após si menos pegadas. Enquanto a leitura interessada é mais dura, exigente e pede repetições, anotações, sistematização.

 

            4. Disciplina

 

                        Próxima à metodologia está a disciplina. Escrever é um ato de inteligência e de personalidade trabalhada pela disciplina. A inteligência é dom que recebemos e por uma consciência cristã de serviço nos sentimos responsáveis em benefício dos outros.

                        A disciplina depende de decisões e educação. Um primeiro princípio básico: "O que não está no horário, não existe". Se não programamos dentro das coordenadas humanas de tempo e espaço, não realizaremos o projeto de escrever. Entra em questão o xadrez das prioridades. Não existe falta de tempo para as coisas prioritárias. Quando dizemos que não temos tempo, significa que essa realidade não é prioritária.

                        A pergunta fundamental: queremos ou não escrever? Pertence ou não à prioridade escolhida? Todo jesuíta conhece a prática de discernimento. Esta decisão mereceria cair sob um processo de discernimento.

                        Uma vez tomada a decisão de escrever, interferem dois grandes empecilhos: a dispersão e a preguiça. Não se escreve sem concentração em tempo e espaço determinados. Cada um tem lugar e tempo de maior rentabilidade. Uma vez descobertos, cabe defendê-los de outras atividades a fim de estudar, pensar e escrever. A decisão de escrever desencadeia com freqüência um processo inconsciente de gestação de idéias que surgem quando menos se espera. Não deixar perdê-las, mas anotá-las incontinenti e inseri-las no lugar apropriado nos esquemas ou anotações. E ao surgir dúvidas teóricas ou gramaticais, não deixá-las sem resolver contornando-as com circunlóquios. Retém-se melhor uma idéia quando é fruto de pesquisa de clarificação.

                        Escrever implica também certa austeridade afetiva, psíquica e física. Além disso, somam-se os riscos da exposição de si mesmo a um público maior e a possíveis críticas, censuras e até punições. Supõe superar certo tipo de timidez. Por isso, em termos cristãos, escrever é serviço e entrega de si aos outros, fazendo-os participantes do que aprendemos e intuímos.

 

                                               Conclusão

 

                        São apontamentos de um exercício de memória com riscos de simplificação, idealização, próprios desse gênero literário. Vejam meus colegas neles nada mais que a simplicidade e o desejo de partilhar um caminho já longo em anos. De toda oferta, cada um toma o que lhe apetece, lhe serve e o ajuda.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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