NATAL J. B. Libanio Sinos repicam! Anjos se movem. Papai Noel circula pelas ruas. Pinheiros se carregam de luzes e flocos de algodão. Canções religiosas povoam os ouvidos. Presépios se armam. Reza-se a novena. A cor roxa prepara o brilhar do branco. As velas do Advento se acendem. A coroa verde marca as casas. As igrejas se enchem de fiéis assíduos e de devotos esporádicos. Eis a simbologia antiga e atual do Natal religioso. Centra-se na espera e na acolhida do Menino Deus. Mesma data. O comércio se agita. O décimo terceiro salário se empenha em compras. As ruas se povoam de pessoas sobraçando embrulhos bem enfeitados. Perus ou frangos freqüentam as mesas. Vinhos importados regam as refeições. As tradicionais castanhas, avelãs, nozes exibem a fineza de paladar. O momento econômico comanda-lhe a exuberância ou a parcimônia. Natal profano, sem Jesus, mas com muitos presentes, comilança e bebedeira. A pergunta: como se trava o embate dos dois Natais? Que pensar cristãmente sobre eles? Como entender essa convivência fortuita e agora já inexorável? Lá na origem estão data e lugar desconhecidos. Só o menino realmente existiu e por isso nasceu. As narrações bíblicas do nascimento de Jesus nos encantam. Lucas e Mateus relatam-nos traços delicados de descrição criada para responder a questões dogmáticas das comunidades primitivas e não à preocupação histórica no sentido moderno do termo. Não lhes interessavam os pormenores do evento, mas aqueles que se carregavam de sentido teológico. Ocupava-lhes a mente o mistério a ser revelado e meditado e não a curiosidade do historiador. Daí vem a grandeza e perenidade das narrações bíblicas. O núcleo misterioso do Natal se lê na epístola da liturgia: “Apareceu a benignidade e humanidade de nosso Deus Salvador e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4). Deus, arrancando-se do silêncio eterno, quis proclamar escandalosamente o amor para com os humanos. Já não o fez através de palavras, como até então, pelos profetas, mas “quando chegou a plenitude dos tempos enviou o seu Filho, nascido de mulher e sujeito à lei” (Gl 4, 4). E celebramos hoje no Natal essa plenitude tempos que nos mereceu a salvação. No centro do Natal está a Trindade. O Pai que envia o Filho; o próprio Filho que chega até nós por meio de Maria, grávida do Espírito Santo. O nascimento de Jesus irradia-se para dentro da Trindade. Desejos eternos, desígnios infinitos, misericórdia sem limite. Nós, humanos, vestimos os mistérios de roupa simbólica. Necessidade de nossa temporalidade. E o entorno do Natal foi criado tanto pela Igreja primitiva com as narrações quanto por nós pelos simbolismos religiosos. Até aí lindo. Estendemos a festa para outros sinais de convivência: comida, bebida, presentes. Nada de mal. Só que a veste não pode esconder o mistério. |