Menu
Login
Codinome:

Senha:




Artigos: HOMILIA: AUSÊNCIA QUE É PRESENÇA  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2012/5/18
Leituras:
Tamanho:
Página para Impressão Indique a um Amigo
 

AUSÊNCIA QUE É PRESENÇA (At 1, 1-11/Mc 16, 15-20)

 

                A liturgia é um grande teatro, não fictício, mas da história e da vida. Todos nós nos lembramos de quando começou o advento, lá pelo mês de novembro, depois veio o nascimento de Jesus, percorremos toda a sua vida, chegando à quaresma e semana santa, quando comemoramos sua morte e ressurreição. Agora encerramos esse grande teatro da história da salvação com a festa da ascensão do Senhor. E não pensem que essa cena narrada por Lucas na primeira leitura seja uma descrição, mas algo profundo que precisamos assimilar através de imagens.

            Nós, seres humanos, trabalhamos muito com a fantasia. Não conseguimos entender as coisas mais profundas, se não criarmos imagens. Por isso, quando alguém fala de amor, logo pensamos em coração, que não passa de um músculo ensanguentado. Os cirurgiões é que podem dizer como é complicado operar um coração, mas nós só conseguimos associá-lo a sentimentos bonitos. Somos seres sensíveis e simbólicos. Assim aconteceu com a ascensão do Senhor: ouvimos uma descrição bonita, com os apóstolos assistindo a Jesus subindo aos céus, até que uma nuvem o cobriu. Vejam que imagem sugestiva: uma nuvem que não podia ser atravessada pelo olhar. Os apóstolos ficam pasmados, até que o anjo os advirta para que não fiquem parados, mas sigam seu trabalho. Nada de continuarem na simples contemplação de uma visão. A experiência de Deus devia lhes mover a trabalhar, agir e anunciar. Cabe-nos perguntar qual foi a experiência dos apóstolos e qual é a nossa em relação à ascensão do Senhor.

            A ascensão é uma experiência que deve ser assimilada aos pouquinhos. É a presença na ausência! Nunca mais Jesus estaria presente com seu corpo físico, como esteve na Palestina ou como esteve na cruz. Seria uma presença diferente, o que chamaríamos de presença pelo Espírito Santo, por uma força maior. É tão ausente, que se faz presente; ao mesmo tempo em que é tão presente que se faz ausente. Que o digam as mães que, por mais que os filhos estejam longe, sempre conseguem guardá-los presentes na memória afetiva. É o jogo da experiência humana. Continuamente vivemos presentes e ausentes. Reparem que as pessoas estão ausentes mesmo quando presentes. Quem de nós consegue captar toda a realidade da pessoa que está diante de nós, por mais próxima que esteja? Somos muitos maiores do que a simples presença física. Vocês estão olhando para mim, mas quanto mistério! Quanta coisa está presente a vocês e ausente a mim?! Não há nenhuma relação humana que seja absolutamente transparente, porque não somos transparentes nem para nós mesmos. Nem mesmo num divã de psicanalista conseguimos nos mostrar por inteiro, e até mesmo aquele psicanalista guarda suas feras dentro de si. Somos seres maravilhosos, e por isso estamos presentes e ausentes. Essa é a experiência da ascensão, que nós também fazemos continuamente com nossos pais, filhos, amigos, esposos. Percebemos presença na ausência e ausência na presença. Como sou muito fascinado pela etimologia, resolvi hoje procurar a origem do verbo esquecer. Vem de ex-cadere – cair fora. Nós esquecemos, quando alguma coisa cai fora, escapa de nós. Em grego, é mais bonito ainda. Todos nós conhecemos a palavra amnésia, que significa esquecimento. A liturgia usa uma palavra grega parecida, mas de sentido oposto: anamnesis. Ela nega a negação da memória, isto é, nega a amnésia. Dupla negação é uma afirmação. Termina afirmando a memória. Vejam a etimologia: an+a+mneia, isto é,  o não esquecimento, portanto a memória. É retomar aquilo que caiu fora de nós.

            Ascensão quer nos dizer que assim será a nossa experiência de Jesus ao longo de toda a vida. Quando acharmos que Ele está ausente, estará presente, quando o sentirmos muito presente, Ele estará ausente. Não pensem que segurando a hóstia consagrada, estaremos retendo Jesus. Ele é muito maior do que essa presença real. Estará ausente quando a nuvem o cobrir, uma nuvem que poderá se apresentar numa dor muito grande, num momento difícil de crise, quando o mundo acadêmico questionar a nossa fé, afirmando que toda religião é alienante. A nuvem nos cobrirá e nos deixará perplexos. Mas por trás de toda nuvem podemos encontrar o Senhor, como podemos guardar na lembrança um ente querido que já não está entre nós, ou que está distante geograficamente. Nossa memória os retém. Eles se afastam de nós, mas se deixam em nós. Jesus continuará sempre presente no coração daquele jovem ardoroso que vê seu entusiasmo questionado pela filosofia de Nietzsche, Kant, Engels. Isso não deve nos assustar. É uma nuvem que nos cobre, como cobriu o coração daqueles apóstolos. Eles olhavam para o céu, mas nunca mais veriam o Senhor. Interessante, mesmo depois da ressurreição, nenhum deles fez uma experiência clara de Jesus ressuscitado. Madalena pensou que era um jardineiro, outro pensou que era um fantasma – confundir Jesus com um fantasma ou um jardineiro... Sem falar nos dois que o encontraram no caminho de Emaús, e mesmo conversando com Ele durante um bom tempo, não o reconheceram. Em todos os relatos das aparições de Jesus após a ressurreição, podemos notar que os discípulos sentiam sua presença e, ao mesmo tempo, não o identificavam. Que tipo de presença seria aquela? Presença na ausência! Certamente, Ele estava lá, mas nenhum deles o reconhece à primeira vista. Isso significa que os nossos sentidos não são capazes de captar a totalidade do acontecimento. Somos muito visuais e temos muita dificuldade de captar o que vai um pouquinho além dos nossos sentidos. Assim acontecerá tantas vezes na nossa vida.

            Quando, na vida de vocês, desaparecer toda a luz e vier todo o desânimo de continuar a acreditar, guardem essa experiência e se lembrem que, na ausência, Deus está presente. Precisamos dessa experiência, porque na escuridão só Deus permanece presente. Quando todas as presenças à nossa volta se mostrarem ausentes, quando percebermos o mistério infinito que é toda pessoa com quem convivemos, quando todos os nossos esforços se mostrarem inúteis, precisamos nos voltar para o mistério da ascensão. Toda a realidade que nos rodeia, todos os nossos amores que nos escapam são presenças ausentes. Só Deus não pode nunca escapar de nossos olhares e de nossos sentidos, e assim poderemos continuar caminhando.

Um pormenor interessante nas leituras sobre a ascensão é que os evangelhos escolhem três lugares diferentes para Jesus subir ao céu. Lucas coloca em Jerusalém; Marcos, em Betânia e Mateus, na Galileia. Evidentemente, Ele subiu num único lugar, mas os três lugares escolhidos por cada um dos evangelistas são símbolos de três coisas que Ele carrega e deixa. Jerusalém é o lugar da morte. Lá Ele se entregou e ressuscitou, dando-se inteiro a nós. A mesma totalidade que Ele entrega e carrega. Betânia é o lugar da família de seus amigos queridos: Lázaro, Marta e Maria. Tinha uma vida pesada, e quando precisava de um aconchego, de um cuidado, é para lá que se dirigia. De lá, Ele sobe ao céu para nos dizer que carrega os nossos carinhos, nossos amores, nossos cuidados. De Betânia, Ele trouxera Lázaro de volta a vida. Na Galileia, Ele passou toda a sua vida pública, ao lado daquele lago belíssimo, pregando, ensinando, convivendo. De lá, Ele sobe ao céu dizendo-nos que subia, mas ficava. E quando sobe verticalmente, manda que os apóstolos levem horizontalmente o evangelho ao mundo inteiro. Que todos saiamos felizes desta celebração, sabendo que no horizontal está o humano, que na presença ausente dele e de todos os que amamos encontraremos sempre forças para viver a vida. Amém. (23.05.09/Festa da Ascensão)

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
Desenvolvido por ABNEXO