| Artigos: HOMILIA: O ÚLTIMO GRITO SEMPRE SERÁ DE VIDA | |||
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O ÚLTIMO GRITO SERÁ SEMPRE DE VIDA (Jo 20, 19-31) Naturalmente, quando ouvimos um texto, imaginamos o cenário. Estamos acostumados aos noticiários de televisões e jornais que nos descrevem a realidade, praticamente nos colocando na cena descrita. Os antigos eram diferentes. Eles gostavam muito de fazer alusões, de usar uma palavra em muitos sentidos ao mesmo tempo. Quando o evangelista insiste por duas vezes que as portas estavam fechadas, não está preocupado com as portas de fora. Existiam portas que realmente estavam fechadas nos apóstolos: da mente e do coração. Também nós temos mente e coração, cujas portas podem ou não estar abertas. O grande problema é para quem as nossas portas estão abertas ou fechadas. Esse movimento de abrir e fechar é constante, mas muitas vezes abrimos para o que não devíamos abrir e fechamos para o que não deveríamos fechar. Como nós, os apóstolos fecharam seus corações para a possibilidade de Jesus estar vivo. Viram-no morto e crucificado, experimentaram a noite terrível de ver o Mestre arrancado de seu convívio, depois de segui-lo por dois, três anos. Eles deixaram tudo para seguir aquele Homem e, de repente, tudo desaparece violentamente numa cruz, da maneira mais violenta que os romanos cogitaram para um estrangeiro. Um cidadão romano não podia ser crucificado, porque era ultrajante demais. Ao verem seu Mestre reduzido à pior condição, como escravo dos escravos, acreditaram que não havia mais nada a esperar. Fecharam suas portas, esconderam-se, fugiram diante do desaparecimento de todas as suas referências. Mas para a grandeza do Senhor não existem portas fechadas em nossos corações. Mesmo quando nós, por diferentes razões de trabalho, de estudo, abandonamos nossa fé, desistimos de nossos ideais, fechamos portas e janelas de nossa mente e de nosso coração, ainda assim Ele continua batendo e poderá entrar, atravessar todas as escuridões. O seu corpo chagado que esteve na cruz é o mesmo que agora pode atravessar todos os obstáculos porque é glorioso. Suas chagas não são mais físicas, mas é toda a sua história e suas relações que Ele carrega consigo e joga para junto do Pai. É nisso que está nossa esperança e nossa confiança. Por pior que seja o ser humano, no íntimo de cada um existe uma base, um fundamento em que poderá ser fincada uma estaca de valor. Ninguém consegue destruir totalmente a bondade dentro de nós. Sempre restará uma réstia de onde poderemos recomeçar a construir. Já contei pra vocês e volto a repetir, sobre uma palestra que assisti numa universidade, quando uma professora sensível mostrou um slide de uma imensa parede de concreto. Ela mostrava naquele imenso bloco árido um minúsculo buraquinho de onde brotava um ramo verde. Certos corações são como esse bloco de concreto. Mas, de repente, alguma coisa pode rachá-lo e abrir espaço para um pouco de verde, um pouco de esperança. É nisso que o Senhor aposta. Ele procura os apóstolos e diz aquela frase tantas vezes repetida: “A paz esteja convosco!”. Pena que muitas vezes não consigamos escutar o que o Senhor diz. Longe dele nunca seremos felizes. Muitos de nós, sobretudo vocês jovens, acham que podem ser felizes fugindo, mas ninguém foge de si. Onde quer que formos, carregaremos o nosso corpo, e junto com ele vão as alegrias, as tristezas, o coração. Não conseguimos correr de nós mesmos e por onde formos, carregaremos conosco os nossos dilaceramentos. Se nos afastarmos do Senhor, essa dor radical continuará machucando-nos e ferindo-nos, porque sempre estará conosco. Mas o Senhor continua buscando a cada um de nós, e essa é a nossa grande esperança. Ressurreição não é apenas a festa do Cristo glorioso, é a retratação da história. Não é uma brincadeira de criança para imaginar um corpo pairando nos ares. Através dela, a história adquire uma nova densidade, porque cada ação que praticarmos, livre e conscientemente, carrega consigo um traço eterno. Que responsabilidade! Na ressurreição, Deus retratou a condenação de Jesus, e disse para todos os criminosos do mundo, por pior que seja, que o crime nunca vencerá a vida. Nenhum assassino, por mais ódio que tenha dentro de si, nunca conseguirá acabar com o outro. O corpo pode ser estraçalhado fisicamente, mas o Senhor lhe restituirá a vida, porque a ressurreição será sempre maior que qualquer crime. Nós não somos seres temporais. Somos eternidade! Pude sentir isso quando visitei um campo de concentração nazista, onde mais de seis milhões de pessoas foram trucidadas. O assassino nunca prevalecerá sobre a vítima. Elas sempre gritarão mais alto do que qualquer criminoso. Acreditar na ressurreição é ter a certeza de que o último grito nunca será de dor, de morte, mas de vida, e não apenas de Jesus, mas de cada um de nós, que cairemos nos braços eternos de Deus. Amém. (19.04.09/2º. domingo da Páscoa) |
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