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Artigos: HOMILIA: A EUCARISTIA É A ARCA QUE NOS CONDUZ  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2012/2/24
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A EUCARISTIA É A ARCA QUE NOS CONDUZ

(Gn 9, 8-15/Mc 1, 12-15)

 

                A escritura traz três grandes relatos do início, do meio e aponta para o fim. O primeiro é o relato da criação, tirado do livro do Gênesis. Podemos ver que tudo começou bem. Adão e Eva felizes no paraíso, recebendo todas as tardes a visita de Javé, até que uma serpente astuta os seduz pelos olhos. Eles viram que o fruto era belo. Reparem bem que a sedução começa pelo olhar, e o resto da história todos nós conhecemos. O destino daquele paraíso será a dor e o sofrimento, com a mulher dando à luz na dor, o homem tendo que trabalhar, restando uma luzinha de promessa que um dia alguém esmagaria a cabeça da serpente. Portanto, temos um início bonito, uma caminhada dolorosa e uma luzinha no horizonte.

            Depois vem uma segunda narração, em que tudo começa mal. Os homens estão mergulhados na violência, quando começa uma grande tempestade, um grande dilúvio. Aparece um número simbólico: oito pessoas, uma arca e todos os animais protegidos, enquanto toda a humanidade será destruída. Mas o fim é mais bonito ainda: Deus estende sobre as nuvens um grande arco-íris que ligará a Terra ao céu. Que símbolo bonito! Quando contemplarem um lindo arco-íris, depois de um dia de chuva, lembrem-se dessa passagem e que foi esse o símbolo que Deus escolheu para mostrar a sua aliança conosco. É a promessa de Javé de que nunca mais a humanidade será destruída. Mas essa promessa era para o final, enquanto no meio da história restava apenas uma arca navegando sobre as águas.

            A terceira paisagem é ainda mais bonita. Tudo começa com um homem que vai para o deserto, e não é um homem qualquer, mas o próprio Filho de Deus encarnado, feito um de nós. Ele sobe a uma montanha, onde ficará quarenta dias jejuando e sendo tentado. Reparem no simbolismo do número quarenta! Durante quarenta anos os hebreus atravessaram o deserto, durante quarenta dias Moisés jejuou, o mesmo tempo que também Elias jejuou. Qual será o significado desse número? É claro que não vale para a nossa vida de hoje. Naquela época, acreditava-se que os homens completavam seu ciclo aos quarenta anos. Já teriam filhos, assim como seus filhos também os teriam. Portanto, já seriam avós e podiam morrer, após terem garantido a sua descendência. Não é a realidade da nossa sociedade pós-moderna, quando os solteirões de trinta anos ainda moram na casa dos pais, com comida e roupa lavada. Portanto, quarenta é símbolo da totalidade de uma geração. Quarenta dias é o tempo que Jesus passa no deserto preparando-se para a sua grande missão.

            Jejuando no deserto, Ele vê passar diante dos seus olhos tudo o que enfrentaria: traição, dores, cruz, decepções, medo, mas, ao invés de desanimar, de encerrar sua missão e voltar para Nazaré, Ele desce da montanha e nos diz quatro coisas fantásticas, que eu vou traduzir para um português mais moderno. Começou dizendo que a hora chegara, e o reino de Deus já estava entre nós, não como espetáculo da Rede Globo, com anjos descendo e subindo do céu. Não é assim que o reino de Deus acontece, mas como um pequenino grão de mostarda que vai crescendo lenta e discretamente. Mas para que percebamos a chegada desse reino, é preciso converter-nos. Conversão é mudança de olhar! Se guardássemos apenas essa frase, já seríamos felizes. Olhando para o chão, eu vejo apenas sujeira. Para converter, é preciso levantar os olhos e olhar as pessoas como quem sente carinho, como quem procura descobrir além. É preciso que pais e filhos, esposos e esposas, professores e alunos mudem os seus olhares. Precisamos olhar as pessoas com quem cruzamos nas ruas! O terceiro conselho que Jesus nos deixa é que creiamos no evangelho. Evangelho é uma palavra que vem do grego e diz da beleza, da verdade. A grande notícia que Jesus veio nos trazer: que Deus nos ama radicalmente, e estará conosco em todos os nossos dilúvios, em todas as tempestades que tenhamos que enfrentar.

            Como Jesus, nós teremos que atravessar um deserto, sofrer embates, enfrentar dilúvios psíquicos, espirituais, humanos. Para atravessar um dilúvio, os homens de Noé tiveram uma arca. Será que nós temos uma arca? Para mim, a nossa grande arca é a comunidade que celebra a eucaristia. Por isso, quando vejo tantas pessoas deixando a nossa Igreja, não fico bravo, mas triste, porque a arca mais maravilhosa, mais estupenda é a celebração da eucaristia. Aqui nós estamos numa grande arca que nos possibilita vivermos uma vida para além da morte. Cada celebração eucarística, cada eucaristia é um germe de eternidade. É como se tivéssemos o nosso corpo iluminado, irradiando luz. Cada comunhão nos faz irradiar eternidade. Essa grandiosa arca está à nossa disposição a qualquer momento. Com ela poderemos atravessar todas as tempestades, todas as tentações. Não há nenhuma situação sequer para a qual a eucaristia não seja a resposta, pois a pior de todas as trevas é a morte, e para ela, a eucaristia é o grande viático, a grande arca que atravessa a última onda da história para ancorar na eternidade de Deus. Se nossos irmãos que nos deixam soubessem o que perdem, o que deixam para trás... E se também nós soubéssemos a importância dessa arca, nunca iríamos deixá-la, assim como também não seríamos tão frouxos, tão distraídos nas celebrações, tão vazios, como se a eucaristia fosse uma obrigação, uma prisão, um jugo, ao invés de um momento de alegria, de festa, de beleza e de júbilo. Amém. (28.02.09/1º. domingo da quaresma)

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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