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Artigos: Carnaval como manifestação cultural  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2012/2/8
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O olhar do teólogo

Carnaval como manifestação cultural

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – janeiro de 2012

                   Qualquer carnaval que se festeje exprime cultura, desde os tradicionais até os sofisticados voltados especialmente para o turismo. Mas a questão gira em torno de que cultura. O problema do carnaval centra-se na mudança sociocultural da exibição, da participação, dos interesses principais da organização e gestão. Cada povo decide sobre a cultura que gera, que externaliza e que interioriza em processo contínuo. Muitos fatores entram em jogo na gestação cultural de evento da qualidade e alcance do carnaval.

                   Lá na origem está germe religioso. Séculos antes de Cristo, já os pagãos celebravam cultos de gratidão pelos dons da natureza. Mais próximos de nós, está a origem católica. Ela se nos torna inteligível hoje contra o fundo da severa quaresma que ele precedia e da hegemonia cultural da Igreja católica. Ela ditava para as populações as regras de comportamento, os valores, as práticas de vida. Não significava que todos seguissem tais ditames, mas estabelecia o nomos, a lei fundamental de modo que contradizê-lo implicava em certa a-nomia, desregramento, facilmente acompanhado de repressão e de consciência de culpabilidade. Sabia-se que se contrariava uma lei imposta como expressão da vontade Deus por intermédio da Igreja. E a pessoa, então, se cobria de culpa diante de Deus e de sua consciência.

                   O carnaval significava alguns dias de alívio, de festividade, de desafogo para enfrentar os jejuns e penitências que enquadravam a quaresma. Facilmente se aproveitava a ocasião também para desabafar rancores, mágoas e até mesmo ódios contra as autoridades, ridicularizando-as sob forma de bonecos ou algo semelhante. Ele criou fantástico jogo de realidade e sonho. Muitos, não tendo coragem de revelar a própria verdade, faziam-no, fantasiando-se. Daí cada vez mais as fantasias começaram a ocupar lugar importante para traduzir a realidade de maneira simbólica.

                   O carnaval hoje revela dois traços importantes da cultura atual. Um primeiro se traduz na necessidade de que as pessoas sentem de viver, em alguns momentos, liberdade maior das pulsões internas, dos desejos, das próprias fantasias interiores. Então projetam para fora e criam personagens, ritos, roupas, gestos. Aí se permitem comportamentos que se afastam do cotidiano e da imagem que elas normalmente mostram de si. Verdadeira sessão psicanalítica do povo tanto de belezas interiores como de perversões morais. Tudo rola no carnaval. Veem-se cenas maravilhosas como ridículas e grotescas. Há também momentos de congraçamento, de convivência, de participação e encontro de pessoas: Lado humanizante do carnaval.

                   O mercado entra em tudo. Aproveitam-se então essas festividades para exibir arte, vida, música, escolas de samba, grupos carnavalescos a fim de atrair turistas. Impera o comércio. Monta-se verdadeira indústria do carnaval em que se misturam traços de real beleza com o mero interesse lucrativo. Isso não lhe tira toda a arte, mas a instrumentaliza. É o lado mercadológico. Visa ao que vem e não tanto à gratuidade da presença das pessoas em festa. Ele perde algo da origem primeira religiosa para inserir-se na sociedade secular do mercado.

                  

                  

 

 



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