| Artigos: HOMILIA: AS MARCAS QUE DEIXAMOS NO TEMPO QUE PASSA | |||
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O 3o.domingo do advento em 2008:
AS MARCAS QUE DEIXAMOS NO TEMPO QUE PASSA Is 61,1-2a.10-11/Jo 1,6-8, 19-28) A liturgia tem seus caprichos. Praticamente, a duas semanas do Natal, o nascimento do pequeno Jesus, o evangelho nos coloca o adulto João Batista, numa situação que aconteceu aproximadamente trinta anos depois. Como ele poderá preparar o Natal? Essa é a pergunta. Sabemos que João Batista prepara a vida pública daquele Jesus que viria pregar o Reino de Deus, percorrendo a Palestina, vivendo, praticamente, toda a sua vida à beira daquele maravilhoso lago de Genesaré. João Batista irá falar de um Jesus que viveu e pregou muito tempo depois da data que iremos comemorar. A liturgia fala também de um Jesus que virá no final dos tempos. De qual deles nos fala João Batista? Isso pede que reflitamos, e por isso estamos aqui. Ele retoma o grito dado por Isaías, que me impressiona muito, e do qual eu já lhes falei. É o grito da liberdade do povo de Israel – um povo minúsculo, se comparado com os grandes impérios daquela época: medas, persas, assírios, babilônios, egípcios, gregos, romanos. É esse pequeno povo que é chamado a acordar a consciência de toda a humanidade, de tal maneira que o grito de Isaías atravessa todos os séculos até chegar a nós, para que, preparando-nos para o Natal, tenhamos a mesma disposição daqueles homens e mulheres, para receber o Jesus adulto. Ele viria, e eles não o conheciam. Para anunciá-lo, aparece João Batista, o mesmo que fala hoje para nos preparar para receber o Jesus pequeno, que nascerá mais uma vez para nós no Natal. O Jesus histórico já passou, como todos nós passamos na história. A história humana é irreversível. Podemos tomar uma famosa frase, em latim: “tempus fugit.et non revertitur” – o tempo foge e não volta atrás, não reverte. O tempo é sempre um fluir. Se Jesus nasceu uma vez, não nascerá de novo. Ele morreu adulto e nunca voltará a ser adulto. Ele palmilhou as terras da Palestina e lá não voltará, nunca mais será visível aos nossos olhos. O seu olhar tinha cor, a sua pele, o seu cabelo tinham matiz, que nunca mais poderão ser vistos, da mesma forma que o nosso rosto de hoje não será o mesmo de amanhã, muito menos o de daqui a dez anos. O tempo foge e não reverte. Ao retomar a festa do Natal, a Igreja faz acontecer, de maneira simbólica, rememorativa, aquele primeiro nascimento de Cristo. É como comemorar o nosso aniversário, embora diferente. Quando comemoramos o nosso aniversário, não somos capazes de nos fazer presentes em nenhum outro lugar, a nenhum ente querido que esteja distante. Com Jesus é diferente. Ao comemorarmos o seu aniversário, Ele se faz presente aqui e agora, para todos e cada um de nós. Ele se faz presente, não na corporeidade bioquímica, mas na realidade profunda que foi e com a qual marcou a história, de tal maneira que, ao datarmos qualquer documento, referimo-nos a uma data: 14 de dezembro de 2008 anos a partir do seu nascimento. Ele dividiu a história em antes e depois dele. Ele é de sempre, é de agora, é também deste momento. Quando João Batista, citando Isaías, nos diz para aplainar as estradas, fala das estradas pelas quais Ele sempre passa, não na sua fisicidade bioquímica, mas como aquele Senhor que se esconde e se faz presente em cada pessoa, seja nesta criança que dorme no colo da mãe, seja neste pai que acalenta o seu filho, no velho que caminha trôpego pelas ruas. É esse Natal que precisamos descobrir em nossa vida. Estou lendo um livro, escrito pelo mesmo médico, autor de Estação Carandiru (*). É um livro muito pesado, pois, sendo ele médico e tendo trabalhando longos anos com pacientes terminais, fala dessa experiência primordial de todo o ser humano, que é a morte. E fala não só daquele que se aproxima da morte, mas de esposos, filhos, pais, todo o universo que envolve o momento em que a pessoa dá o passo mais importante na história, quando ela deixa definitivamente este mundo para atravessar para a eternidade de Deus. Natal é isso também, porque sempre estamos a nascer. Interessante que em latim, a liturgia chama o dia da morte de dies natalis, e assim comemoramos todos os santos no dia de sua morte e não de seu nascimento: natal de Santa Teresa, de São João da Cruz, de Santo Inácio. A Igreja celebra a morte e não o nascimento. O verdadeiro natal, o dies natalis é o dia em que fechamos a história de nossa vida. É lá que seremos o que somos, pois até lá estamos em construção contínua, somos prédios inacabados, a cada dia se transformando. De tudo isso, o que realmente importa, e aí deixo a mensagem de hoje, é que essa construção seja para melhor. Quantos jovens começam uma construção bonita, e lá pela adolescência começam a derrubar paredes, pichar muros, quebrar vidros, e quando percebem, estão lá as ruínas de uma casa. O Senhor nos convida a perguntarmo-nos, a cada Natal: no ano que passou eu era melhor ou pior? Cada Natal deveria ser um novo nascimento, ao qual acrescentaríamos um ano de mais beleza, de amor, de paz, de alegria, de comunicação, de vida, de entrega de nós mesmos. Que a matemática, que nos reduz a números, não seja a vida que nos reduza a cada vez menos e mais próximos de zero. Pelo contrário, que os nossos números sejam cada vez mais próximos do infinito, porque a eternidade é infinita. Quando João Batista diz não ser digno de desatar sequer as sandálias desse Messias que vem, que nos perguntemos se, ao sair dessa igreja, estaremos mais próximos de Jesus ou mergulhando na noite triste do vazio que caminha para o nada. Amém. (14.12.08/3º. domingo do advento) (*) referência ao livro “Por um fio”, de Dráuzio Varela. |
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