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Artigos: Ética e religião  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2008/12/21
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Ética e religião

J. B. Libanio

 

                        As guerras de religião dos finais do século XVI sepultaram definitivamente a pretensão da religião cristã manter a hegemonia sobre a consciência européia, conservando a unidade religiosa do Continente. Tornara-se, em vez de ponto de união, pomo de discórdia até a rudeza das guerras. Pesou sobre a cristã a pecha de fautora de violência. Doravante se entrega à razão, à ética a regência dos conflitos humanos.

 

                        Mais: a história humana de civilizações e culturas, não raro, constata como as religiões desencadearam lutas internas num povo e externas de agressão. Jean Delumeau descreve em cores fortes o sangue correndo pelas ruas de Jerusalém quando das Cruzadas, organizadas em nome da católica até mesmo por um rei, Luís IX, que galgou os altares na qualidade de santo.

 

                        A modernidade pós-cristã acentua ainda mais o afastamento da ética em relação à religião, confinando-a aos rincões da privacidade. Triunfa o laicismo. Pretende-se construir a ética unicamente sobre os alicerces da razão humana, renunciando todo Absoluto e considerando negativa a contribuição que uma religião ofereça.

 

                        A aguda crise atual da ética tem-nos forçado a rever esse procedimento teórico do Ocidente. Tanto a religião como a ética perdem muito quando se afastam uma da outra.

 

                        A religião sem o horizonte da ética descaminha-se por veredas perigosas da violação de direitos fundamentais do ser humano. Não se precisa ir até aos Astecas ou a Moloch do Antigo Testamento para chocar-se com sacrifícios humanos aos deuses. Em religiões bem próximas de nós, se defendem e se praticam mutilações ou se mata por puro fanatismo ou se agita terrorismo religioso. A ética racional teria muito a dizer sobre tais práticas religiosas e a purificá-las. A sua contribuição permanece válida e até necessária. O ardor religioso insufla os espíritos a ponto de perderem a noção do valor inalienável da pessoa humana.

 

                        O reverso também é verdadeiro. A bandeira ética, ao levantar-se sem o sopro da Transcendência, e a razão humana entregue a si mesma, mesmo quando invoca os famosos direitos humanos, padecem de ambigüidade e possíveis perversidades.

 

                        O campo da tecnologia tem-se mostrado altamente minado pela racionalidade instrumental de cujas justificativas éticas a religião, pelo menos, cristã desmascara a desumanidade. Em nome da defesa da liberdade de pesquisa e de opinião, países e poderes dominantes têm cometido barbaridades. Homens vestidos com os melhores títulos acadêmicos escondem-se no anonimato da pesquisa para gestar instrumentos de morte para a humanidade. A liberdade de opinião da Imprensa escrita, falada e televisiva não arrepia caminho diante da difamação, da curiosidade doentia, do direito à intimidade das pessoas. O pretexto de igualdade conduziu o sistema leninista a desvarios inimagináveis. Com a ética não conseguiram escapar da sedução de valores, em si, fundamentais, mas que se perderam por ausência de outra instância maior: o Absoluto.

 

                        A religião salva a ética da insuficiência de fundamentação. A razão humana é frágil e fonte de muitas misérias. O mal lhe atingiu a raiz. no início da Escritura se narra a parábola do existir humano na figura de Adão e Eva, de Caim e Abel. a Revelação nos alerta para esse pecado profundo da razão e a chama a reconhecer-se necessitada da ajuda de Deus para construir caminho de justiça e humanidade. Nem maximizar o mal, nem banalizá-lo, mas encará-lo com o realismo de algo a ser superado cotidianamente à luz do Bem (Ética, Platão) e da Palavra (Religião, Tradição judaico-cristã): eis sadio diálogo entre religião e ética.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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