| Artigos: Silêncio interior | |||
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O olhar do teólogo Silêncio interior J. B. Libanio Jornal de Opinião – abril de 2001 Há dois barulhos que se alimentam mutuamente. O barulho exterior que nos fere os tímpanos. Cresce nas grandes cidades. Nem as noites conseguem ser silenciosas. Rompe-lhes o véu tênue do silêncio o roncar de automóveis ou motos em “pegas” de jovens desregrados e irresponsáveis. O persistente e insone trafegar de veículos, rádios e TVs de vizinhos, aviões que sobrevoam tarde da noite as cidades, enfim infinitos sons produzidos pela parafernália tecnológica da modernidade agitam a noite dos urbanos. Esse barulho exterior entra no interior das pessoas e aí arma sua tenda ruidosa. Invade os últimos cubículos do silêncio. Acostumam-se de tal modo as pessoas ao barulho que qualquer pausa nesse ruído permanente se torna insuportável. Há aqueles que, ao voltar da cidade barulhenta, entram em casa e o seu primeiro gesto, instintivo, é apertar algum botão que venha romper a calma do ambiente silencioso. Mais barulho. A natureza é sábia. Os animais marcam o ritmo do dia numa alternância entre silêncios e ruídos. E o ser humano, irmão de origem dos animais, participa dessa necessidade. No entanto, é-lhe possível violentar por atos de decisões livres ou automáticas esse ritmo. Não o fazem impunemente. Seu relógio vital paga algum preço por esse desrespeito à sua necessidade de tranqüilidade. Não bastam as horas de sono. Pois até estas são perturbadas ou por sonhos-relíquias de um dia agitado ou por ruídos remanescentes que atravessam a noite entrando pelo cérebro adormecido. Faz-se mister uma terapia do silêncio. Não aquele da impossibilidade introvertida de comunicação – porque é doentio -, mas aquele escolhido para repouso da mente, para mergulhos na própria interioridade. É verdade que alguns temem tais viagens interiores. Ao longo de sua vida, povoaram de paisagens ameaçadoras o percurso de sua existência e apavoram-se de encontrá-las. Na linguagem tradicional falava-se de remorso. São re-mordidas do espírito em si mesmo com os dentes da ética que doem. E para não sofrê-las, preferem não deixar que nada desse passado escuso aflore à consciência. No máximo, toleram algumas sessões psicanalíticas que tentam neutralizar-lhes a má consciência. O Cristianismo conhece outra via para tal viagem, diferente da psicanalítica ou também de uma reconciliação pelos caminhos de esquecimentos produzidos ao longo de passeios interiores ao gosto da pós-modernidade narcisista. O melhor silêncio interior, reconfortante, plenificante é o do amor perdoante de Deus. Ao acolher o Absoluto, ao descer pelo Abismo infindável de tanto amor, nosso coração se enche de paz. Reconciliar-se com Deus implica uma pacificação do mais profundo de nosso ser. Um místico sufista falava dessa visita de Deus, que veio estar conosco e esqueceu de ir-se embora. Bem dentro de nós ficou com o bálsamo de sua doce presença. O único silêncio que liberta, que pacifica, que recompõe as energias é aquele que nasce da consciência de ser amado por Deus no mais profundo de nós mesmos e assim amá-lo em sinal de gratuidade. “Somos aquilo que amamos”. “Somos transformados por aqueles que nos amam”. Quando o sujeito ativo e passivo é Deus, o ser humano atinge as alturas da paz e tranqüilidade. |
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