| Artigos: Hospitais psiquiátricos | |||
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O OLHAR DO TEÓLOGO Hospitais psiquiátricos J. B. Libanio Jornal de Opinião – novembro de 2001 “Antes mesmo de conhecer o deserto, eu já visitara outro ainda mais inóspito e desolador, o deserto da loucura”. Assim Marco Luchesi inicia belíssimo e doloroso relato de sua visita a um hospital psiquiátrico (Saudades do Paraíso, Rio, Lacerda, 1997). A sociedade oscila nos seus juízos e comportamentos diante dos enfermos mentais. Ora os reduz a quase animais, enjaulados em casas malsãs, em estado lastimoso. Faz deles sombras ambulantes na escuridão de suas mentes, cercados do descaso dos humanos. Deixa-os arrastar-se maltrapilhos por corredores infectos, sem dignidade nem humanidade, como pessoas perdidas na noite de seus delírios, encantoadas pelo desprezo da Saúde Pública do país ou esquecidas pelos familiares envergonhados. Gera cenas realmente deprimentes que nos entristecem, ferindo-nos a sensibilidade. Ora, porém, acorda para essa realidade. Investe inteligência, pesquisa, estudos, cuidados. Em outros tempos, mais religiosos, a loucura despertava sentimentos de proximidade do mundo divino. Os loucos como as crianças, nos seus desatinos lógicos, transportavam as pessoas para além da esfera da racionalidade calculadora. Aproximavam-nas do mistério daquela mente impenetrável pela curiosidade humana. Nisso refletia a universo divino. Eram colocados na “stultifera navis” – a nave dos loucos – e lançados ao mar, na crença de que Deus os guiaria com providência especial. Lá iam eles navegando para o mistério do mar e da morte, símbolos dos braços de Deus. A mente crítica moderna horroriza-se diante de tal fato. Nada hoje o justificaria. Talvez escondesse outros interesses que a simbologia religiosa. Ficou, porém, dessa lição irreproduzível um sentido de que a loucura esconde algo de misterioso. A secularização rasgou a sacralidade da loucura, aproximando-a, não do mistério impenetrável, mas da irracionalidade do animal. Ao vasculhar os mecanismos do psiquismo e de sua constituição biológica, tenta tratá-la à base de remédios ou terapias agressivas. Daí há um passo para terapias inumanas, como sói acontecer. Confunde-se o processo de animalização que ocorre na sociedade moderna pela via da cultura do consumismo, da tirania do prazer com os limites do exercício da liberdade e da razão provindos de doenças psíquicas. A primeira se faz por perversidade social. As pessoas entregam-se a seus instintos animais por escolha ou sedução. A segunda pertence aos limites da natureza que o próprio Criador, respeitando sua criação, não ultrapassa. Certo que não se voltará nunca à sacralidade antiga da dimensão divina da loucura. A racionalidade não suporta tais retornos. O caminho da modernidade passa pela descoberta dos direitos humanos naturais e universais de todas as pessoas e, portanto, também dos doentes mentais. Naturais, porque inerentes à natureza humana. Universais, porque ninguém está excluído deles. Naturais, porque anteriores ao Estado a quem não é lícito transgredi-los. Universais, porque a nenhuma instância em qualquer parte do mundo é facultado não reconhecê-los, não cumpri-los. Os enfermos mentais possuem a integralidade dos direitos humanos, embora não consigam exercê-los. Em relação a eles, todos somos obrigados a respeitá-los. Nada e ninguém dispõe de poder para negar-lhes todo cuidado, toda bondade. Diante do descaso da sociedade da utilidade e da produtividade por seres humanos que carecem de tais predicados, brota o grito ético de protesto. E sobre eles pousa o nosso olhar de compaixão e de ternura do que nos restou de civilidade e humanidade. |
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